Imprima essa página !

 



Fale Conosco


Créditos
Idéias - José Arbex Jr.


  15/12/2001  A morte de uma baleia

Por Uri Avnery (*)

“Como uma baleia que perdeu seu sentido de direção, vocês estão investindo contra a praia, atacando-a seguidamente, querendo cometer suicídio”, gritou Haim Ramon nervosamente, da tribuna do Partido Trabalhista, para seus colegas de partido, em um dos grandes momentos de sua vida. Isso foi em janeiro de 1994. Ramon era à época Ministro da Saúde. Ele queria aprovar uma lei de segurança de Saúde Nacional, contrária à vontade de seus colegas. “Eu, com meu poder limitado, estou empurrando vocês de volta ao mar. E vocês não querem ir, e vocês não querem ir. Insistem em cometer suicídio”.

Agora Ramon está pressionando na direção oposta. Está puxando a baleia para a praia. Está agindo assim através promovendo um plano político que ostenta o grandioso título de “Separação unilateral”. Israel não conduzirá nenhuma negociação com os palestinos e não fará qualquer esforço para chegar a um acordo com eles. Retirará o exército unilateralmente da maior parte da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, decidindo por si próprio onde será a fronteira entre o seu próprio território e o território palestino.

As colônias habitacionais, onde vive a maioria dos colonos, serão anexadas a Israel, as demais serão evacuadas. Entre Israel e os territórios palestinos será erguida uma barreira que será defendida pelo exército. Todas as outras questão serão adiadas indefinidamente, até que os palestinos estejam prontos para aceitar os termos de Israel.

Isso soa lógico e parece simples. É exatamente o que provavelmente convencerá aqueles que não querem ir ao âmago do conflito israelo-palestino. Mas isso está longe de ser simples. Evidentemente, os palestinos não aceitarão qualquer plano israelense que seja executado sem acordo e sem negociações. Se houvesse alguma chance de os palestinos aceitarem esse plano, haveria negociações sobre ele. O simples fato de que a idéia de negociações está sendo rejeitada mostra que não há chance de que ela seja aceita pela outra parte.

Por falta de qualquer alternativa, os palestinos resistirão, é evidente, pela força das armas a um plano que arranca extensas áreas da terra na qual eles querem construir seu estado (o que compreende, deve-se lembrar, somente 22% daquilo que era a Palestina antes de 1947). O jogo de percentuais (“somente 10%”, “somente 8%”) é ridículo – não são só os percentuais que contam, mas sua localização. Os “blocos de colônias habitacionais” cortam, e não por acidente, profundamente o território palestino e o despedaçam.

Nem é por acidente, também, que Ramon não apresentou um mapa – nem o fez nenhuma pessoa entre os proponentes desse plano.

Todo palestino entende que a linha “temporária” transformar-se-á numa fronteira permanente, ao longo da qual surgirão novas colônias habitacionais. Será impossível remover essa fronteira no futuro sem guerra. Portanto, predominará um estado permanente de guerra. A “Linha Ramon” não impedirá os atentados suicidas, os morteiros e os Katyushas.

Por outro lado, é uma ilusão a idéia de que os colonos evacuarão dezenas de colônias habitacionais sem resistência armada. No momento, não há governo em Israel – nem do Likud, nem dos Trabalhistas, nem de ambos – que ouse remover uma única colônia habitacional para tal plano.

Isso é um plano desesperado. Então, por que Ramon o apresenta? Ele não pretende seriamente que seja executado. O plano serve a um propósito completamente diferente: ajudá-lo a voltar a uma questão central do seu partido, entre cujas ruínas pessoas como Burg, Ben-Eliezer, para não mencionar Peres, estão correndo como loucos. Ramon quase ficou esquecido. Ele espera voltar com a ajuda de um plano grandioso e um “movimento público”.

A mesma esperança vive no coração do verdadeiro autor desse plano, Shlomo Ben-Ami. A história dele é triste. O menino de uma cidade portuária do Marrocos tornou-se um professor brilhante da história moderna da Espanha, um amigo de reis e nobres, e parecia uma estrela ascendente no firmamento do partido. Infelizmente, sucumbiu à tentação de unir-se ao desastroso governo Barak. Permaneceu ao lado de Barak quando o ex-chefe do Estado-Maior, com uma mistura de arrogância infundada e ignorância irreparável provocou o colapso das negociações com os palestinos, a fim de exonerar a si e a seu patrão, Ben-Ami espalhou as lendas mentirosas das “generosas ofertas de Barak”, e a de que “Arafat não quer a paz”. O novo plano é baseado sobre essa representação distorcida.

Mas – se este é o xis da questão – se não há parceiros para a paz, se uma guerra eterna é esperada – quem precisa de Ramon e de Ben-Ami? Quem precisa do mesquinho Partido Trabalhista? Se é assim, o povo elegerá Sharon, ou pior – Netaniahu, ou ainda pior – um dos profetas da “transferência”.

Como Ramon colocou isso quando falou sobre o Partido Trabalhista, há sete anos atrás? “Como uma baleia que perdeu seu sentido de direção, vocês querem cometer suicídio”.

(*) Uri Avnery é um escritor israelense. Recebeu vários prêmios internacionais pelo seu trabalho a favor da paz no Oriente Médio. Desde 1948 defende a criação de um estado palestino ao lado de Israel. Foi o primeiro israelense e fazer contato com a OLP e o primeiro a se encontrar com o líder palestino Yasser Arafat. É autor de diversos livros. Dentre eles, Terrorism – the infantile disease of the Hebrew Revolution; The other side of the coin e The Israeli-Arab conflict, a plea for a Middle Eastern community. Exerceu três mandatos parlamentares no Knesset (Parlamento).

Para maiores informações: http://www.gush-shalom.org/index1.html

 

Idéias - Outras Notícias

23/3/2012 Mundo, 20 anos

30/8/2010 Lula e o cordial “fascismo à brasileira”

10/8/2010 Desigualdade racial deve ser criticada do ponto de vista do mundo do trabalho, diz Mário Maestri

2/6/2009 A “ditabranda” mostra as suas garras

5/5/2009 A “ditabranda” mostra as suas garras


13/4/2009 As bombas químicas de Israel

23/3/2009 O circo (i)mundo de horrores

10/11/2008 O novo está aqui, na América Latina

26/8/2008 O novo está aqui, na América Latina

22/8/2008 A Groenlândia e as mudanças climáticas

2/7/2008 A América Latina entre a ruptura e uma nova utopia capitalista


4/6/2008 Viva Paraguay!

22/4/2008 Mate 120 palestinos e descanse

10/3/2008 À sombra do Carandiru

21/11/2007 Volver a los 17?

11/10/2007 6 milhões pela reestatização da Vale

18/9/2007 A Vale é nossa

5/6/2007 Ponha sangue no seu motor ! A tragédia dos necro-combustíveis


8/5/2007 Morte ao ECA, viva a escravidão!

26/6/2006 ONG denuncia assassinatos, agressões e perseguições de jornalistas no Brasil

3/4/2006 Tão tirando uma na minha cara.

5/12/2005 Maradona 10 x Bush 0

24/10/2005 Adeus às ilusões

12/9/2005 E agora, José?

13/6/2005 A nova corrida armamentista

9/5/2005 O velho amigo de Henry Kissinger

3/4/2005 O espectro do anti-semitismo ameaça o mundo

28/2/2005 O fantasma da liberdade

18/10/2004 Plano Patriota prevê nova escalada militar na Amazônia

23/8/2004 Fiasco põe neocons de Bush na berlinda

13/4/2004 Brasil aceita a farsa no Haiti

8/3/2004 Brasil aceita a farsa no Haiti

9/2/2004 Bush impõe adesão de Quito ao Plano Colômbia

12/1/2004 À sombra de Stalin

24/12/2003 Retratos da Venezuela

17/11/2003 “Socialismo de resultados” quer a adesão do PT

15/9/2003 Antes que seja tarde

25/8/2003 Perspectivas imperiais

21/7/2003 Rádio Muda

10/6/2003 POVOS ESTÃO À FRENTE DE SEUS LÍDERES

13/5/2003 A ALCA e o BRASIL

14/4/2003 Jornalistas na cama do Exército, como as prostitutas

17/3/2003 Os 50 motivos de Bush para o ataque ao Iraque


17/2/2003 Um front para lá de Bagdá

20/1/2003 Reinventando o Brasil e o mundo sem pedir licença

16/12/2002 Alca, uma gaiola de ferro

18/11/2002 ENCONTRO CONTINENTAL OUTRA AMÉRICA É POSSÍVEL

21/10/2002 Sharon prepara a deportação de palestinos

16/9/2002 Barbárie

19/8/2002 FHC entrega Base de Alcântara a Tio Sam

15/7/2002 O golpe de Estado permanente

17/6/2002 "A sociedade Palestina está sendo desmantelada"

21/5/2002 Das pedras de Davi aos tanques de Golias

15/3/2002 A estratégia de Washington para a América Latina

1/3/2002 O preço de uma paz verdadeira

15/2/2002 Da Justiça à democracia, passando pelos sinos...

1/2/2002 Israel y Estados Unidos: una relación única

15/1/2002 Carta de Israel: El asesino de Muhammad

1/1/2002 Um conto de Natal

30/11/2001 Shalom Salam Paz

15/11/2001 A Batalha de Doha

30/10/2001 De ópios e ópios

15/10/2001 Terror local, resposta global

28/9/2001 Terrorismo, um legado da história

7/9/2001 Coisas que a mídia adora “esquecer” sobre o conflito israelo-palestino

24/8/2001 Mussolini e os “arapongas” da União Européia

3/8/2001 “Eles não querem só minha morte. Eles querem o meu silêncio”

13/7/2001 Ainda o imperialismo

22/6/2001 “Imperialismo” está fora de moda

1/6/2001 Israel: terrorismo para exportação

18/5/2001 A razão cínica de FHC

4/5/2001 No país da Senzala

20/4/2001 Estratégias da ilusão

7/4/2001 O funk e a crítica


  Revista Pangea

Copyright Pangea. Todos os direitos reservados.