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Palavra do Leitor -


  30/11/2001  Olhai (direito) pra nós!

Por João Paulo Charleaux

Índios, negros, mulheres, sem-terra, pequenos agricultores, seringueiros, líderes comunitários, sindicalistas e sem-teto. A quem interessa tratar desses temas com seriedade? Quem consegue olhar com lupa os países do Terceiro Mundo? As grandes agências internacionais dizem que não, o assunto não é com elas. Reuters, France Presse e companhia já provaram ter as antenas conectadas com pautas grandes, manchetes fortes e assuntos nem sempre edificantes para os países pobres. Isso se deve à natureza de seu trabalho, seu público alvo e seus interesses.

Há ainda muitos que se dispõem a cobrir o Brasil apostando na fórmula folclórica da "desgraça social/futebol/carnaval", ou nas notícias econômicas de interesse para o investidor estrangeiro. Mas, em ambos os casos, falta espaço para histórias humanas e situações nem sempre decifráveis à primeira vista forasteira. Assuntos que não abalam cúpulas de governo nem derrubam bolsas de valores, mas são fundamentais na vida de milhões de pessoas. São histórias que precisam ser vistas de perto, com vagar e atenção; adjetivos nem sempre compatíveis com o ritmo de trabalho das grandes redações ao redor do mundo.

É nesse espaço que se encaixam as agências cidadãs. Ligadas à ONGs internacionais, fundações beneficentes, associações e confederações de todo tipo, elas garantem estar chegando ao mercado com capacidade e disposição para encarar a realidade com um "enfoque social". Elas esperam acabar de vez com estigma de que países pobres só entram na editoria internacional pela porta dos fundos.

“Seja mal-vindo”

“Seria preciso uma pesquisa profunda, mas eu me arriscaria a dizer que em 70% das notícias, o Brasil aparece mal na mídia internacional”, diz o historiador e jornalista brasileiro José Luiz Del Roio, da Radio Popolare de Milão, na Itália. Ele lembra que o caso mais recente foi o da comemoração dos 500 anos, “a polícia batendo em índios foi uma coisa fortíssima e é claro que isso rendeu muita notícia ruim na Europa”. A radio italiana onde trabalha Del Roio conta com correspondentes fixos em Paris, Londres, Berlim, Nova Iorque e Cairo, que produzem uma cobertura alternativa às grandes empresas.

No Brasil, a colunista da Folha de S. Paulo, Eliane Catanhêde engrossa o coro de críticas à cobertura das grandes agências e não usa meias palavras para avaliar o trabalho dos jornais estrangeiros na cobertura de “Brasil”. “Quando morei quase um ano na Itália, em 1991, a imprensa européia praticamente só publicava o lado exótico ou cruel do Brasil: mulatas, bundas, violência, menor abandonado, descaso com a Amazônia. E isso era em pleno governo Collor, com a política pegando fogo, a economia girando, a abertura começando. Nada do que era sério interessava”.

Por outro lado, o colunista Clóvis Rossi, colega de Catanhêde na Folha de S. Paulo, diz que em geral “discorda de generalizações, que empobrecem a análise”. Ele acha difícil concordar com a tese de que o Brasil é mal tratado pela mídia internacional sem uma observação mais profunda do assunto. “Seria preciso examinar caso a caso, o que é trabalho para pesquisadores, não para jornalistas”.

Um periscópio para a cobertura internacional

Apesar de ninguém conhecer nenhuma grande pesquisa ou grande censo sobre o assunto, há um lugar que pode servir de termômetro importante nessa questão. No endereço www.globalpress.com.br é colocada diariamente a coletânea das reportagens e artigos sobre o Brasil ao redor do mundo. A responsável pelo trabalho é a jornalista Anna Lúcia Carneiro, que já trabalhou para a agência americana UPI (United Press International) e para a Alemã, DPA (Deustche Press-Agentur). Ela diz que "em economia, as reportagens têm sido mais sérias, principalmente depois da crise das bolsas e da recuperação. Outro assunto que dá boas notícias é a música brasileira, eles acompanham muito bem e muitas vezes melhor que nós mesmos."

A dose de exagero tem ficado por conta da cobertura dada ao MST (Movimento Sem-Terra). Anna observa que as publicações acabam muitas vezes carregando nas cores com que pintam esse quadro. O mais exagerado dos jornais estrangeiros, nesse caso, é o The Guardian, da Inglaterra. “Eles dizem coisas como ‘é imprevisível, tudo pode acontecer no Brasil, com esse movimento dos sem-terra”.

Essas e outras notícias “curiosas” poderão em breve ser pesquisadas com maior exatidão no site da Global Press. A empresa ensaia uma parceria com a E-Clipping, produtora de clippings direcionados à empresas a partir da observação dos jornais brasileiros. A página, que já conta com uma média de cinco mil acessos diários, deverá receber ainda mais visitas depois que tiver implantado seu sistema de busca por palavras-chaves.

Um dos outros lados

De onde olha o jornalista argentino Aldo Gamboa, no entanto, a visão é diferente. Ele está no Brasil há 12 anos e é correspondente da France Presse no Rio de Janeiro desde 1997. Na sua redação, as laudas circulam fartas em recheio econômico, esportivo, político, ecológico e, mais recentemente, Mercosul. Gamboa acha que as grandes agências estão voltadas para grandes assuntos, grandes manchetes e que, por isso, “as agências cidadãs tem um papel importante a desempenhar num espaço que está aí e que precisa ser ocupado.” Ele sabe que o trabalho da France Presse e das agências cidadãs não são concorrentes, mas podem ser complementares.

Gamboa avalia que o tratamento dado ao Brasil e a outros países subdesenvolvidos está melhorando. “Acontecimentos como o caso Collor ajudaram muito a atrair atenções e melhorar o nível da cobertura.”. A sensação de que o Brasil é visto de forma folclórica pelas grandes agências é normal em sua opinião, afinal, “dói muito mais quando falam da gente e não do país vizinho”. O jornalista argentino pode estar certo com relação à cobertura da France Presse, mas, em outros casos, o vizinho diz sofrer de dor no mesmo calo.

Os países que falam a língua portuguesa são um bom exemplo. No Brasil, pouco ou nada se sabe sobre o que acontece em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, ou mesmo Portugal. “Ninguém aqui sabe o que está acontecendo em lugares de infinitas semelhanças com o Brasil”, diz o jornalista Jorge Manuel Ramalho, que nasceu em Portugal, viveu 30 anos em Angola e está no Brasil há 20. “Os jornais brasileiros não falam dos países da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) e não é porque não há notícias”, diz Ramalho que chegou a protagonizar uma experiência quase quixotesca com A Gazeta de Angola, que circulou no Rio de Janeiro entre 1991 e 92.

Por um ano o jornalista tentou colocar o país na pauta do dia dos brasileiros com essa pequena publicação. O plano de Ramalho mostrou-se pretensioso demais, o jornal angolano/brasileiro acabou fechando e o país “primo” do Brasil amarga um anonimato forçado até hoje. Depois da aventura, o jornalista português descobriu que há outros culpados nesse jogo que põe os países pobres para escanteio.

Um dos carrascos nos anseios de Ramalho foi o próprio consulado angolano no Brasil. Lá, ele pôde ver que não existiam releases nem materiais de assessoria voltados para a imprensa. “Quem vai querer cavar notícias de Angola se nem o consulado divulga nada?”

Novos ventos

O principal elemento de contraponto nesse cenário é o trabalho das pequenas agências, as chamadas agências cidadãs, ou de enfoque social. Um dos fatores importantes na viabilização delas é a Internet. A nova mídia possibilitou a apuração da notícia e sua distribuição numa velocidade antes inimaginável. Além disso, o custo de funcionamento de agências menores caiu muito, substituindo o preço de ligações internacionais e remessas postais para o exterior por chamadas telefônicas locais no acesso à rede e envio de emails em apenas alguns segundos.

Além de representar um barateamento do processo, essas novas tecnologias encurtaram a distância entre os maus e bons produtos. Qualquer jornalista de agência do interior mais longínquo e inacessível pode trabalhar em condições técnicas semelhantes aos das grandes empresas de comunicação, desde que esteja conectado à internet. Agências de notícias como a InterWorld Radio (www.interworldradio.org), com sede em Londres, na Inglaterra, distribuem matérias para rádio pela internet. A qualidade do material é tão boa que qualquer emissora pode levar as notícias ao ar na hora em que elas são colocadas no site.

Entre seus assinantes estão emissoras de rádio de língua inglesa, jornalistas, líderes comunitários e ONGs. A agência cobre a área econômica, de desenvolvimento, ciência e tecnologia e direitos humanos. Tudo isso, do ponto de vista de “como as pessoas normais são afetadas pelas mudanças globais provocadas nesses campos”. A agência é fruto de uma parceria entre o Panos Institute e a OneWorld.net. Seus editores afirmam que esta é uma publicação totalmente independente, apesar de ter sido fundada com doações da Ford Foundation, além da Unicef, Novib e USAid. A InterWorld Radio aposta nas reportagens de fôlego, matérias de mais de cinco minutos, coisa rara no radiojornalismo brasileiro.

No próprio site existe um link para o jornalista que quiser trabalhar para a InterWorld. Os correspondentes recebem aproximadamente R$ 600 por cada reportagem de seis minutos. As exigências, no entanto, são rigorosas. Os editores cobram qualidade máxima da coleta de dados até a transmissão da matéria pelo computador.

Outra experiência interessante em noticiário internacional com enfoque cidadão via internet é a Agência Pulsar. Desde 1996, mais de 2 mil assinantes em 53 países contam com material dessa agência. A Pulsar tem uma rede de correspondentes em 20 países da América Latina, Caribe e Europa. Eles abastecem diariamente a central da Agência, sediada em Quito, no Equador. De lá, esse noticiário é distribuído aos assinantes através de internet, com texto e som em formato MP3. Através do endereço www.pulsar.org.ec, o leitor assina gratuitamente esse serviço e recebe, em tempo real, boletins diários, análises, comentários, resumos semanais e reportagens em texto e em áudio especialmente editados para rádios.

"Os intercâmbios de programas gravados em fita cassete, sempre chegavam tarde ou muitas vezes se perdiam no correio," explica o jornalista venezuelano, Andrés Cañizález, diretor da Pulsar. "Dificilmente poderia se falar de notícias quentes com o material chegando em outro país depois de três semanas", completa.

Foi o surgimento de tecnologias de comunicação como a Internet, o correio eletrônico, e, por último, o MP3, que nasceram novas possibilidades de troca de informações, sobretudo com material gravado em áudio.
A Pulsar é uma produção da Amarc (Associação Mundial de Rádios Comunitárias e Cidadãs), com o apoio da ASDI (Suécia), CAF (Holanda), Fundação Friedrich EBERT (Alemanha) e Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura). No Brasil, ela funciona com correspondentes em São Paulo, através da Oboré - Projetos Especiais, que é o escritório paulista da Unirr (União Nacional de Redes de Radiodifusão pela Democracia). No Rio de Janeiro, a correspondente é a Produtora Criar, ligada a Unirr como escritório carioca da Amarc.

Além de enviar textos, os jornalistas brasileiros colaboram também com material em áudio gravado em português. Notícias como as que vêm sendo distribuídas pela Pulsar sobre o Brasil dificilmente encontrariam espaço em outras agências do mesmo porte. Um exemplo recente foi a cobertura feita quando o juiz paulista José Marcos Lunardelli determinou o fechamento de 2 mil rádios comunitárias, em São Paulo, em janeiro deste ano. O trabalho em tempo real acabou despertando reações contra a decisão do juiz, no Brasil e no exterior. Mensagens de ouvintes e rádios de todo o mundo foram enviadas em solidariedade às rádios comunitárias paulistas.

Seguindo a iniciativa da Pulsar, a Rádio Popolare de Milão dedicou dez minutos ao assunto em sua programação no horário nobre transmitindo ao vivo para todo país. Quando a notícia foi ao ar, os jornalistas envolvidos vibravam com um pool de alcance provavelmente inédito na história da comunicação popular e alternativa.

As experiências protagonizadas por essas agências cidadãs são ricas não só em jornalismo e novas tecnologias, mas, sobretudo, no tratamento humano que dão ao seu material. O curioso é que o programa que possibilita a execução de todo esse serviço e com essa qualidade pode ser "baixado" na rede sem que se gaste sequer um tostão (www.realaudio.com ou www.dowload.com). Mais ainda: o assinante dessas agências usa seus serviços sem pagar nada.

Exemplo brasileiro

Tanto Clóvis Rossi quanto Eliane Catanhêde, Memélia Moreira quanto Aldo Gamboa apontam a Andi (Agência de Notícias dos Direitos da Infância) como o melhor exemplo de agência cidadã no Brasil. Fundada em 1992, a Andi, na verdade, presta uma assessoria à imprensa. Ela trabalha muito mais com o conceito de turbina de informações do que com a idéia tradicional de agência produtora e distribuidora de notícias. No endereço www2.uol.com.br/andi, os jornalistas encontram nomes, números, pesquisas e informações de contexto para a produção de reportagens sobre os direitos da criança e do adolescente.

A Andi distribui também um clipping via email com as principais notícias que circularam pelo país sobre esse assunto. Além de informar, o clipping do dia acaba pautando muita gente e colaborando para uma cobertura maior e melhor dos assuntos relacionados aos direitos da infância. "Esse é um trabalho invejável", diz Catanhêde. "Em 1995, os
50 maiores jornais do país publicaram pouco mais de 7.500 reportagens sobre menores. Em 1999, foram quase 50 mil! As coisas andam devagar, mas andam."

A Times dos pobres

As novas tecnologias ajudam, mas não são o "ovo de Colombo". Fazer jornalismo internacional de qualidade, com reportagens de fôlego e enfoque social vem sendo o trabalho diário dos jornalistas dos Cadernos do Terceiro Mundo (www.etm.com.br) desde 1975. A publicação nasceu com o compromisso de tratar os países do Terceiro Mundo de uma forma diferente, falando de ecologia, direitos humanos e política com uma perspectiva social.

A revista foi fundada pelo deputado Neiva Moreira, na época exilado na Argentina, e pelos jornalistas Pablo Piacentini, argentino que hoje vive na Itália, e Beatriz Bissio. Muita gente acha que a revista fez água. É comum ouvir jornalistas mais velhos dizerem que "era uma grande publicação, combativa, bem feita, mas onde anda?".

Ao contrário do que pensam, a experiência rendeu frutos. Além dos Cadernos do Terceiro Mundo, nasceu na década de 80, o Caderno do Mercosul, e em 1991, os Cadernos de Ecologia e Desenvolvimento, ambos, filhos da publicação mais antiga. No seu expediente, constam nomes de agências como de Moçambique, Angola, Cuba, Guiné-Bissau e outros países que sequer sonham em entrar nas edições de grandes jornais pela porta da frente.

Cadernos do Terceiro Mundo é uma prova de experiência jornalística alternativa e bem sucedida. Com 25 anos de existência, a tiragem hoje é de 35 mil exemplares. A maior parte é vendida para assinantes, mas a revista também está em bancas de todo o País, embora seja uma missão impossível encontrá-la. Em suas páginas, além das pautas e reportagens originais, chamavam atenção os anúncios. Café, diamantes, combustíveis e companhias aéreas de Angola, Moçambique e Colômbia, o próprio Pasquim e até vale postal para assinatura do jornal Barricada Internacional, da Frente Sandinista de Libertação Nacional chegaram a desfilar por suas páginas.

“Essa é a Times do Terceiro Mundo”, diz Memélia Moreira, jornalista que trabalha para os Cadernos desde sua fundação e assina a Coluna do Planalto, com notícias de Brasília. “A nossa idéia é mesmo de tratar os países subdesenvolvidos de uma forma mais correta, menos grotesca”, explica. Ela é a jornalista responsável pela cobertura de assuntos como política, direitos humanos e questões indígenas. Memélia lembra que os maus tratos dispensados aos países pobres não são uma atitude exclusiva dos países desenvolvidos. “Aqui no Brasil o noticiário internacional também é terrível. Também as grandes nações desenvolvidas recebem uma cobertura péssima. É uma falta de qualidade de um modo geral”.

Memélia considera as matérias dos jornais franceses sobre o Brasil, por exemplo, muito melhores do que as dos jornais brasileiros sobre os outros países. Para ela, a falta de qualidade na cobertura internacional é “uma via de mão dupla”, onde o Brasil entra como mais um.

 

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