|
|
|
|
Idéias
- José Arbex Jr.
|
|
30/11/2001
Shalom Salam Paz
Por Max Altman*
Manifestações multidudinárias encheram as ruas de Tel-Aviv, no começo deste mês, para recordar o assassinato de Itzchak Rabin. Oitenta, cem mil pessoas, de partidos políticos do campo da esquerda e centro-esquerda, organizações pacifistas, entidades de defesa dos direitos humanos, ambientalistas, ou simplesmente amantes da paz, lembraram que o ex-primeiro-ministro de Israel foi assassinado por ter assumido em Oslo a responsabilidade de liderar o povo israelense no caminho de uma paz negociada, justa e duradoura com a Autoridade Palestina.
Os responsáveis e o executor do frio assassinato premeditaram e calcularam o ato criminoso. O clima político vinha sendo envenenado pelas forças contrárias ao diálogo e ao entendimento, com argumentos tais como 'que os Acordos de Oslo estavam extintos antes mesmo de ser colocados em prática', que 'a solução para o conflito seria o "êxodo voluntário" dos palestinos para a Jordânia'. O objetivo dessas forças era torpedear os esforços na direção do cumprimento do lema "paz por terra". Queriam condenar o povo israelense ao isolamento, insuflavam o ódio e o conflito em vez de contribuir para assentar as bases de uma convivência pacífica com os seus vizinhos palestinos. E essas forças acabaram prevalecendo.
A interrupção paulatina do processo de negociação decorrente do assassinato de Rabin agravou dramaticamente a situação da região dando passo a uma infernal escalada da violência.
As massas que saíram às praças em Tel-Aviv, e manifestações similares em muitas cidades do mundo, retomavam as bandeiras que Rabin havia empunhado: que ele tinha consciência e a antevisão histórica - e os fatos recentes confirmam - de que a ocupação dos territórios não levaria à paz e sim a um conflito de graves e imprevisíveis conseqüências. Que a lógica da ocupação conduziria inevitavelmente à violação dos mais elementares direitos humanos, ao cerco de cidades e universidades, ao corte arbitrário de luz, água e gás, ao impedimento de ir e vir, à destruição de casas e oliveirais, à opressão, à repressão pura e simples, à humilhação.
O povo judeu que sofreu o que sofreu não poderia fazer outro povo sofrer o que iria e está sofrendo. Seis anos após a eliminação do líder israelense, ele continua simbolizando para o povo de Israel, e por que não para o povo palestino, a necessidade imperiosa de superar as agudas diferenças históricas para alcançar um futuro melhor para os nossos filhos e para as futuras gerações de israelenses e palestinos.
A dramática história destas últimas décadas no Oriente Médio já demonstrou que não haverá solução bélica para o conflito. Ações de vingança, retaliação e mais vingança, a política do olho por olho, dente por dente, só exacerbam o ódio e cria o caldo de cultura favorável aos atos desesperados de terrorismo, de homicídios seletivos, de terrorismo de Estado. É preciso interromper esta escalada macabra. Qualquer saída que não seja o imediato cessar-fogo, sua consolidação e o imediato retorno à mesa de negociações contribuirá diretamente para o acirramento das tensões e agravará o perigo de o conflito se alastrar para regiões circunvizinhas.
Os povos israelense e palestino querem viver em segurança, livremente, soberanamente, cuidar de seu dia a dia, trabalhar, progredir, estudar, intercambiar bens materiais, arte, cultura, saber, experiências. É necessário desarmar espíritos e preconceitos, criar as condições para uma coexistência pacífica, até porque são vizinhos geográficos. Basta de derramamento de sangue e confrontos inúteis. Isto é possível e vital.
A política externa do Brasil com relação ao conflito que separa Israel e os palestinos define a situação da região como "a chaga aberta do Oriente Médio" e defende medidas concretas para a "constituição de um Estado palestino, democrático, com coesão, economicamente viável, baseado na autodeterminação do povo palestino, mas que respeite a existência de Israel como Estado soberano, livre e seguro". Conclamamos desta praça, Cinqüentenário de Israel, todos os brasileiros, mulheres e homens amantes da paz, e, em especial, os membros e amigos das comunidades judaica, árabe e palestina do nosso país a abraçar esta decisão de governo e ajudar a torná-la efetiva.
Todos sabemos que a ida à mesa de negociações só será possível com a pressão diplomática internacional, especialmente dos Estados Unidos, aliado preferencial de Israel. E o governo americano confirmou na ONU o seu desejo de ver constituído o Estado palestino ao lado do Estado de Israel. Esta é também a vontade do concerto das nações. Mas a opinião pública interna de Israel jogará um papel preponderante para definir que o desenho final dos entendimentos vá em favor dos mais fundos interesses dos povos da região e nunca de interesses geopolíticos de qualquer grande potência, e pressionar os governantes a fazer justiça.
Lembro que a opinião pública americana foi determinante para o desfecho da agressão dos Estados Unidos ao Vietnã, assim como a opinião pública francesa foi primordial para o fim da ocupação colonial francesa da Argélia. E igualmente importante é a manifestação da opinião pública em todos os quadrantes do Planeta.
O movimento Shalom Salam Paz reúne em seu seio membros e amigos das comunidades judaica, árabe e palestina. Isto nunca ocorreu antes entre nós. Lutamos unitariamente por uma paz concertada, justa e duradoura para o conflito que hoje separa israelenses e palestinos. Temos recebido raivosas críticas de setores, dos dois lados, de pessoas e organizações constituídas, provavelmente de mesma coloração política daqueles que a seu tempo se opuseram a Rabin ou que nunca desejaram o diálogo e o entendimento. Mas vamos em frente, porque nossa luta tem por base princípios e objetivos políticos, expressos em nossos documentos e em nossa ação diária, os mesmos das massas que saíram às ruas da capital israelense para recordar Rabin, os mesmos de muitas organizações amantes da paz em diferentes países do mundo.
Não basta o apelo genérico à paz. Consideramos que são esses os principais passos concretos em direção à coexistência dos estados e à convivência dos povos israelense e palestino e para eles queremos chamar atenção: a) os acordos de Oslo, Camp David e principalmente Taba serão as bases do futuro acordo político; b) cumprimento das resoluções 242 e 338 da ONU que, ao lado do reconhecimento internacional, servirão de base e garantia para os futuros acordos; c) estabelecimento de dois estados nacionais independentes, soberanos e laicos, com base nas fronteiras anteriores à Guerra de 1967; d) Jerusalém será a capital comum, mas separada, de ambos os Estados; e) implementação imediata da proposta da Comissão Mitchell; f) presença internacional para tornar eficaz o cumprimento dos acordos obtidos.
Conclamamos as lideranças judaicas e palestinas do Brasil a levar as suas respectivas comunidades esta proposta universalmente formulada a fim de ser exposta e discutida livre e democraticamente, com o fim de engrossar as fileiras dos defensores de uma paz negociada, justa e duradoura para o conflito.
Isto seguramente irá contribuir para o fortalecimento das relações amistosas que no Brasil as comunidades árabe e judaica mantêm.
A história da civilização mostrou que a convivência entre judeus e árabes, laicos ou não, foi uma realidade. Mais de sete séculos de presença, lado a lado, rica e frutuosa, na Península Ibérica legaram à humanidade verdadeiros tesouros no campo das ciências, das artes, da literatura, da filosofia. Outros sete anos, sete décadas, sete séculos de convivência poderão perfeitamente deixar no futuro como herança novos tesouros, novas experiências.
O movimento Shalom Salam Paz tem manifestado de forma inequívoca seu repúdio às ações terroristas que vitimam inocentes, crianças, mulheres, anciãos, e que acabam por causar graves danos políticos à luta dos povos pela paz e pelo progresso, revistam-se da forma que se revestirem, partam de onde partirem. Condenamos veementemente os atentados terroristas de 11 de setembro que sacrificaram milhares de inocentes em Nova York e Washington, assim como condenamos a continuação de pesados e incessantes bombardeios do Afeganistão, que termina por vitimar e causar o pavor em populações inteiras, destruindo toda infraestrutura, empurrando-as para o êxodo maciço e para um provável desastre humanitário. Em todos os continentes, multidões vão às ruas para dizer não ao terrorismo, não à guerra, não ao racismo, 'não em meu nome', não aos "danos colaterais" e com elas nos associamos.
Os senhores da guerra devem fazer calar os seus canhões e deter seus mísseis. O concerto das nações e seus organismos, sem ter de receber o "diktat" de qualquer governante, por mais poderoso que seja, podem ajustar medidas adequadas para desarticular o terrorismo, capturar os terroristas e levá-los a julgamento e rigorosa punição. Isto é muito mais eficiente e duradouro. A outra solução, pelo terror e cólera que gera, provocará mais adiante novos atos terroristas.
Se nós pudéssemos alçar desta praça as nossas vozes e fazê-las ouvir em Jerusalém, Tel-Aviv, Ramalah, Nablus, gritaríamos:
Senhor Sharon, faça calar o troar de seus canhões, freie o rolar das esteiras de seus blindados, interrompa o matraquear das metralhadoras, emudeça o silvo dos seus mísseis, cesse o ruflar das aletas de seus Apaches;
Senhor Arafat, segure seus homens-bomba, desarticule os grupos extremistas, abafe planos de ações individuais suicidas, controle os seus falcões, detenha a mão dos que apertam gatilhos.
Vamos imediatamente para a mesa de negociações. Façam o que Rabin e Arafat vinham fazendo, e que antes Béguin e Sadat fizeram.
A alternativa, diante da aguda conjuntura internacional, é a região toda ser envolvida num gigantesco incêndio com indesejáveis, incalculáveis e imprevisíveis conseqüências para o povo de Israel e para o povo palestino.
(* ) Discurso pronunciado por Max Altman, como representante do Movimento Shalom Salam Paz, no ato público “Recordemos Rabin”, realizado na Praça Cinqüentenário de Israel, São Paulo, em 13 de novembro de 2001.
Para maiores informações, consulte: www.utopia.com.br/ssp e www.arabias.com.br
|