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Idéias - José Arbex Jr.


  30/10/2001  De ópios e ópios

No Brasil, parece-me que a “recepção”, diga-se assim, dos atentados de 11 de setembro tem-se centrado no conflito “Oriente” X “Ocidente”, o que decerto é impróprio, muito embora, neste caso específico, creio que tal divisão se refira, de um lado, à Europa e América (hispânica, portuguesa, anglo-saxônica e francesa), e, de outro, aos árabes e muçulmanos. Nesse sentido –embora devamos ter plena consciência de que tal generalização é falsa e um pouco perigosa–, podemos também determinar uma divisão no que tange ao “Ocidente”: de um lado, o Primeiro Mundo (constituído, basicamente, por países em que o cristianismo é a religião majoritária), que não tem exatamente dificuldade para “entender” árabes e muçulmanos. A dificuldade do Primeiro Mundo, creio, é de lidar com esses povos e manter suas políticas de dominação em relação a eles, dificuldade essa que advém, justamente, da relação de forças inteiramente desigual, o que provoca muita opressão, injustiça e miséria.

De outro lado, e devo confessar aqui a minha perplexidade, existe este outro “Ocidente”, hispânico e português,“extremo” no dizer de um historiador, que mantém com a outra parte do dito Ocidente, Primeiro Mundo, uma relação que, decerto, não é muito diferente da relação mantida com o Mundo Árabe e Muçulmano.

A diferença consiste em que, por estas bandas, a dominação, em virtude da domesticação notória, é aceita com maior passividade. Seria impossível que alguém, no mundo árabe-islâmico, escrevesse alguma coisa nos moldes do Manual do perfeito idiota latino-americano.

E a forma com que os meios de comunicação têm insistido nisso tende a esconder, na minha opinião, uma outra perplexidade: como pode um povo de terceiro mundo, pobre, miserável e oprimido, rebelar-se com tamanha pertinácia, ao passo que nós, também povo de terceiro mundo, também pobres, miseráveis e oprimidos mas “ocidentais”, aceitamos a dominação abjeta a que nossos países são submetidos, e eventualmente nos divertimos com nossa própria incapacidade? Por que não aparece algum árabe que escreva o Manual do perfeito idiota árabe-muçulmano?

Por mais que soe a lugar-comum, é necessário buscar as respostas na história. O que chamamos de mundo árabe e muçulmano, o dar al-islam, constitui-se a partir do século VII, tendo como motor primeiro a religião muçulmana inicialmente adotada por tribos beduínas da península arábica. Essa religião espalhou-se rapidamente, abrangendo um espaço geográfico que ia da China até a Península Ibérica, e criando um dos maiores impérios de que se tem notícia.

O islamismo foi, a partir do século VII, muito hábil em sua propagação. Tão hábil, aliás, que islamizou regiões fortemente cristianizadas como a Síria, o Iraque, o Egito e a Península Ibérica, e parcialmente cristianizadas como o Maghreb, na África do Norte. Do século VII ao XIV, esse mundo viveu seu apogeu e sua glória, que muitos historiadores comparam à fase áurea do Império Romano. Os muçulmanos criaram uma civilização rica e original, que se apropriou e transformou os legados culturais de outras civilizações, como a grega, a persa, a indiana e até mesmo a chinesa e romana. Foi um período brilhante da história da humanidade, que deveríamos valorizar tanto quanto valorizamos os gregos e os romanos.

Ocorre, porém, que, por motivos oriundos de sua própria dinâmica interna, esse mundo se estagnou e ficou para trás. O que era vanguarda adiantada virou retaguarda atrasada. É lamentável, mas não se trata, certamente, do único retrocesso que a história registra. Seja como for, não se deve pensar que tal situação vai durar ad aeternum.

O que ocorre hoje, entretanto, é que esse mundo está sofrendo, por parte da mídia, uma onda de ataques e difamações sem precedente. Veja-se o caso da mulher, que é o mais notório: de uma forma inegavelmente hábil, procura-se jogá-las contra o islão. Seria aceitável se fosse uma campanha de conscientização, mas não é: trata-se de difamação pura e simples, como no caso da efibulação, ou seja, a excisão do clitóris, que de modo algum é proposta pelo islão; na realidade, trata-se, isto sim, de práticas tribais antiqüíssimas da região do Chifre da África, anteriores ao Islã; no entanto, a efibulação foi hipostasiada como prática corrente dentro do Islã, atraindo contra ele a fúria e o ódio de milhões de mulheres, que acreditam que tal prática é “muçulmana”.

Tais distorções, em geral provocadas pelo preconceito ou, muitas vezes, pela política deliberada de denegrir, têm o objetivo de justificar certos interesses. Se você produz determinado grupo como monstruoso, inumano, a violação dos direitos desse grupo será mais palatável para quem não faz parte dele.

Não se trata, e espero estar sendo claro, de “defender” qualquer religião; todas são igualmente indefensáveis. Uma coisa, porém, é, em nossa contemporaneidade, negar a religião, o monoteísmo, que já não tem nada a nos dizer, e, quando diz, ou diz besteiras e horrores ou se esquiva procurando escamotear-se para dizer-se como não-religião eventualmente paramentada com um ou outro brinco divino e teologicamente libertador. As religiões, ou os dogmas religiosos, não vão resolver os problemas do mundo contemporâneo; pelo contrário, a tendência é que os agravem. A afirmação de Marx quanto ao “ópio do povo” hoje pode ser vista como uma gentileza.

Mas é muito diferente acusar e falsificar a história: a da civilização muçulmana transcendeu a estupidez estática do dogma e criou, como já disse, uma cultura brilhante, que enriqueceu a história da humanidade.

Enfim, a consciência quanto a isso, a consciência que os muçulmanos têm de que tal estado de coisas –isto é, a dominação européia e norte-americana– não está inscrito na ordem natural, e que portanto pode ser modificado, é, sem dúvida, um dos estímulos à resistência.

A questão também envolve um outro aspecto, o do estranhamento. Embora a religião muçulmana não seja tão espantosamente diferente da cristã – ao menos não no nível em que a mídia pretende colocá-la –, devemos notar que, hoje, suas maneiras de expressar a religiosidade são mais intensas, diga-se assim. Por não dispor de uma tradição laica forte, o mundo islâmico, em suas ações políticas, é obrigado, muita vez, a lançar mão do discurso religioso para legitimá-las. Um ato de justiça social, por exemplo, pode ser entendido no Ocidente como algo ligado ao humanismo, aos direitos do homem tais como foram propostos a partir da revolução francesa, ao passo que, entre os muçulmanos, esse mesmo ato talvez seja pensado como realização da justiça divina. Mas tais atos podem traduzir-se nos mesmos procedimentos. São estratégias de nobilitação.

Mas existiria uma “essência” por assim dizer fanática do Islão? Há alguns dias, um historiador das religiões, um inglês radicado nos Estados Unidos, baseado em versículos do capítulo nono do Alcorão, declarou que sim. Mas a forma de colocar a questão foi falsa, e, mais do que isso, desonesta. Aliás, os anglo-saxões não estão em boa posição para criticar de fundamentalismo.

Nos Estados Unidos, e o dado é estarrecedor, a maior parte da população é contra qualquer explicação que não a religiosa para o surgimento da humanidade. E acredita, literalmente, no diabo, entre outras coisas. E todos os textos sagrados das religiões abrahâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo) contêm passagens violentas; trata-se de uma questão de exegese, que no Islão, basicamente, divide a interpretação em dizeres “condicionados” historicamente e “incondicionados”, numa palavra, trans-históricos. Aquele historiador embaralhou de propósito conceitos históricos a fim de provocar ódio contra o islamismo, e encobrir o nó da questão: a espoliação econômica que marginaliza vastos contingentes populacionais daquela região (e não só dela, evidentemente).

Deve-se notar que, na Idade Média, nem no mundo cristão nem no muçulmano as práticas religiosas eram meramente íntimas e desvinculadas do restante das práticas sociais; pelo contrário, pode-se dizer que aquele período era “fundamentalista”: em certo sentido, a religião era a própria vida. Deu-se, contudo, que no Ocidente, devido a fatores históricos bem conhecidos, a prática religiosa desviou-se cada vez mais para a esfera meramente íntima, como conjunto de práticas de devoção privadas, edificantes e inofensivas (o que, com efeito, é salubérrimo).

Tal processo, que se completou no Ocidente (muito embora, desafortunadamente, estejamos presenciando um sinistro processo de retomada), ainda está em seus primórdios entre a maioria dos muçulmanos. Não se trata, portanto, de um “fanatismo” inerente ao islão, mas sim de um processo histórico que, espero, deverá se completar um dia.
Assim, a interpretação de textos sagrados, por mais que haja pessoas que se arroguem donas da verdade, é sempre uma questão de instrumentalização. De Qadafi ao falecido rei Faisal, da Arábia Saudita, todos proclamavam estar seguindo o Alcorão. E sempre houve quem dissesse que eles estavam errados.

Por questões atinentes a seu desenvolvimento interno, os países muçulmanos ainda não encontraram a democracia. Isso é um fato. E a ausência de democracia implica, necessariamente, governos autoritários. É um problema grave, mas não creio que esteja especificamente ligado ao “Islão”, porque pode ser notado em outros países não muçulmanos da região. A democracia, o menos ruim dos regimes, é invenção européia, pois fruto de evolução interna e condições específicas de países da Europa.

Isso não impede que, eventualmente, a religião muçulmana seja instrumentalizada para justificar autoritarismo e opressão, da mesma forma que já se fez e se faz com o cristianismo, o confucionismo, etc. etc. De qualquer modo, deve-se reter que estrutura de poder no mundo islâmico tem sido tradicionalmente autoritária; não houve, por lá, nada parecido com a revolução francesa. Mas os Estados Unidos, além de se aproveitarem dessa estrutura autoritária, fizeram de tudo para mantê-la e levá-la a uma escala sem precedentes, e tudo para defender os interesses econômicos de seus grupos dominantes, que sempre se beneficiaram de negociatas escabrosas.

Mais do que isso, os Estados Unidos e Israel estimularam e financiaram o fundamentalismo religioso para utilizá-lo contra as organizações de esquerda. A CIA, que se trata do maior fomentador de terrorismo da face da terra, treinou muitos dos grupos que hoje diz combater.

A ação dos fundamentalistas é sempre reacionária, no sentido de solapar todas as conquistas da liberdade de expressão. Mas não se deve exagerar sua força; em última instância, o fundamentalismo (talvez com exceção dos países da Península Arábica, especialmente a Arábia Saudita) não interessa sequer aos grupos dominantes locais, pois se coloca como força contrária à modernização secular em todos os campos (e não só o intelectual), e necessária, por uma contradição interna, ao estabelecimento de negociatas com o Ocidente pelos grupos muita vez corruptos que controlam o poder em vários daqueles países.

O Egito, por exemplo, foi no ano passado palco de um embate significativo: os fundamentalistas começaram a pressionar com virulência, por meio de seus jornais, o Ministério da Cultura, de orientação bastante liberal e progressista, no sentido de reprimir a produção dos chamados “intelectuais laicos”. De início, o governo não cedeu à pressão, mas, no segundo semestre, houve eleições e os fundamentalistas, apesar da forte repressão que sofreram, conseguiram eleger muitos deputados.

O governo egípcio teve então de negociar com eles, e um dos primeiros alvos foi o Ministério da Cultura, que teve de redirecionar sua política. Deu-se um fato curioso: o mesmo ministro, que ontem defendera a liberdade de expressão, passou a dizer que “tenho de considerar que nosso ministério não pode agir de independentemente da vontade popular”, adotando uma repressiva política de autocensura.

Vários romances que seriam publicados pela editora do ministério foram retirados no prelo (com a desculpa de que conteriam “passagens imorais”), e mesmo as republicações de obras clássicas de cunho obsceno foram vetadas. “Os autores devem procurar editoras privadas”, justificou o ministro, “pois o Estado não pode financiar pornografia”.

Ele passou então a ser atacado pelos jornais dos grupos laicos e de esquerda, que, entre outras maldades, publicavam fotos de seus quadros (ele é pintor), muitos deles com figuras eróticas, com a pergunta: “será que o sr. ministro censuraria este quadro?”.

De qualquer modo, deve-se reter a idéia de que, nesse caso, os grupos fundamentalistas instrumentalizaram a cultura para fazer campanha política contra o governo, do qual são adversários.

(*) Mamede Mustafá Jarouche é professor de Literatura Árabe da Universidade de São Paulo.

 

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