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Idéias - José Arbex Jr.


  15/10/2001  Terror local, resposta global

Este é um tempo difícil para aqueles que criticam a política militar, financeira e econômica praticada pelos Estados Unidos em todo o planeta. Não há nada, absolutamente nada – insistimos categoricamente nisso – nessa política ou nessa prática que poderia, ainda que remotamente, justificar o terrorismo insano que atingiu os Estados Unidos no dia 11 de setembro. Compartilhamos com todos o choque, o ultraje, a tristeza e o rancor sentidos em New York e Washington, no país e em todo o mundo.

Por isso mesmo, não há nada nesses horríveis eventos que possa justificar a continuação e muito menos a intensificação de práticas e políticas equivocadas. O catálogo de erros que, durante tanto tempo, nos causou preocupações, continua sendo aplicado. A total frieza demonstrada pelos investidores financeiros e comerciais americanos para com a pobreza e o sofrimento globais; o militarismo que sustenta regimes autoritários sempre que convenientes aos interesses dos Estados Unidos; a grande indiferença (generalizada em todo os Estados Unidos) para com a morte e os sofrimentos impostos às minorias reprimidas ou marginalizadas em todas as partes do mundo; a falta de sensibilidade do processo de globalização liderado pelos Estados Unidos para com as culturas, tradições e interesses regionais; a incapacidade de agir no sentido de impedir práticas genocidas (em Ruanda, por exemplo); o desprezo para com a degradação ambiental e esgotamento de reservas naturais; egoísmo irresponsável no trato de uma grande variedade de temas, como o sistema de defesa de mísseis, aquecimento global, campanha contra a AIDS e em defesa dos direitos trabalhistas; a instrumentalização de instituições internacionais como o FMI e o Banco Mundial no sentido de defender objetivos americanos; e as atitudes vazias e com freqüência hipócritas de exigir o respeito aos direitos humanos – nenhuma dessas práticas pode ser justificada pelos eventos de 11 de setembro.

Reafirmamos a nossa postura crítica com respeito a esses temas, não importa quão difícil isso possa ser nestes tempos difíceis.

O puro horror e a insanidade do que aconteceu em 11 de setembro é um choque para o pensamento racional e para a ação sensata. Abundam os sinais típicos do fanatismo e ufanismo americanos, da busca de algum bode expiatório étnico, de autoritarismo em detrimento dos direitos e das liberdades civis básicas. Tais tendências devem ser sufocadas. Esperamos, fervorosamente, que a indignação e a justa ira sentidas em todo o país (sentimentos compreensíveis, dos quais compartilhamos) produzam reflexões sérias sobre como fazer do mundo um lar decente para todos, como fazer com que a democracia de fato exista em todos os lugares, com que a liberdade signifique mais do que a mera liberdade de mercado e como criar um mundo mais igualitário e justo, caracterizado pela justiça, pela tolerância, pela diversidade e pelo amor. Isso tudo é muito mais construtivo do que qualquer arsenal ou ação militar, no sentido de construir um mundo mais seguro e mais justo para as nossas crianças.

*) Os autores são professores do CUNY Graduate Center in Manhattan

 

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