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Idéias - José Arbex Jr.


  28/9/2001  Terrorismo, um legado da história

É surpreendente que um fato tão simples pareça escapar à imensa maioria daqueles que escrevem sobre o terrorismo: trata-se de uma ação praticada por seres humanos, não por ETs enfurecidos. Por ser ato humano, só pode ser compreendido como um resultado da história.

O século 20, em particular, banalizou o terror (isto é, o uso da violência sistemática, com objetivos políticos, contra civis ou alvos militares que não estejam em operação de guerra). Também multiplicou as suas formas. Existem terroristas que agem em nome de Deus (como os grupos extremistas islâmicos); os mercenários (milicianos franceses e norte-americanos que lutam na África); os nacionalistas (como o IRA e do ETA); e, ainda, os ideológicos (como o grupo de Tim McVeigh, responsável pela destruição do prédio de Oaklahoma, em 1995).

Existe também o terrorismo de Estado – a prática de eliminar populações e alvos civis (como os Estados Unidos, em Hiroshima e no Vietnã, ou Pol Pot no Camboja), ou a segregação e chacina de minorias (caso do antigo regime de apartheid na África do Sul, e o de Israel contra os palestinos), ou ainda a prática de torturar e assassinar os que pensam diferente (ditaduras latino-americanas, nos anos 60 e 70).

Claro, o terror não começou no século passado. Ao contrário, tem uma longa história. Basta lembrar, na era moderna, o regime implantado na França por Robespierre, em 1793. Ou então o assassinato do czar da Rússia Alexandre Segundo, em 1881, pela organização Vontade do Povo. A primeira notícia de um atentado terrorista publicada por um jornal no Brasil data de maio de 1878. O alvo era o imperador Guilherme da Prússia. O estopim da Primeira Guerra foi o assassinato, em 1914, do arquiduque Francisco Ferdinando pelo estudante Gavrilo Prinzip, membro do grupo terrorista sérvio Mão Negra.

Até os anos 20, o terrorismo era um fenômeno esporádico. Ele começou a ganhar abrangência e importância com o surgimento dos regimes de Josef Stalin e Adolf Hitler. Já no final dos anos 20, Stalin enviava aos campos de concentração centenas de milhares de opositores, sem contar os milhões de camponeses executados durante a coletivização das terras, entre 1929 e 1932. Na Alemanha dos anos 30, Hitler perseguiu comunistas, judeus, ciganos e eslavos. Até o final da Segunda Guerra, em 1945, seriam assassinados seis milhões. Os dois regimes eram semelhantes, no que se refere ao culto à personalidade do dirigente e aos poderes da polícia política (KGB e Gestapo).

O totalitarismo deu uma nova dimensão ao terror. Pela primeira vez na história, a máquina do Estado era colocada a serviço de ideologias que propunham a eliminação dos adversários. O terror estendia os seus tentáculos sobre o conjunto da sociedade. Método semelhante seria adotado por Mao Tsétung, após a tomada do poder, na China, em outubro de 1949.

O legado do terror foi sintetizado pelo filósofo alemão Theodor Adorno, com a sua terrível sentença: depois de Auschwitz, tornou-se impossível fazer poesia. Adorno indagava o sentido da cultura. Auschwitz aconteceu no país de Schiller, Goethe, Marx, Bach, Kant... A tecnologia da morte zombou dos mais elevados ideais da beleza, da verdade e do bem.

Não há limites para a capacidade destrutiva do homem. O terrorismo ainda daria um gigantesco salto, com Hiroshima e Nagasáqui, em agosto de 1945. A bomba fez da morte do mundo uma opção política: bastaria um dos dois lados “apertar o botão” para iniciar a guerra nuclear – a última da espécie. A política e o diálogo haviam perdido sua razão de ser.

O “equilíbrio do terror” marcou as cinco décadas da Guerra Fria. A “banalização do Mal” denunciada por Hannah Arendt atingia o seu ápice. O ser humano que emergiu desse processo tornou-se mais cínico e “duro”, menos solidário. Nos anos 80, a ideologia neoliberal - “não há sociedade, só indivíduos”, disse Margaret Thatcher – forneceu o quadro mental perfeito para um mundo afetivamente devastado, integrado por seres solitários, atomizados, imersos em suas próprias angústias.

Os Estados Unidos (que, aliás, treinaram Osama Bin Laden e armaram Sadam Hussein), particularmente, têm uma grande responsabilidade sobre o clima de terror que emoldura as relações internacionais. A totalidade de sua política externa é baseada sobre a força bruta e o total desprezo pela comunidade das nações. Basta lembrar a recente ruptura de Washington com o Protocolo de Kyoto, em nome dos seus específicos interesses comerciais, ou o abandono da conferência contra o racismo, em Durban. Não por acaso, em abril os Estados Unidos foram excluídos da Comissão de Direitos Humanos da ONU. Os motivos alegados pela Associação Americana dos Juristas falam por si:

“Os Estados Unidos não aderiram a boa parte dos instrumentos internacionais de direitos humanos vigentes. Entre outros, o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais; os dois protocolos do Pacto de Direitos Civis e Políticos; a Convenção contra o apartheid; a Convenção sobre a imprescritibilidade dos crimes de guerra e de lesa-humanidade; (...) a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados; a Convenção de Ottawa, de 1997, que proíbe as minas anti-pessoais (...). Tampouco votou pela criação de uma Corte Penal Internacional (...). Ao ratificar o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, formulou reservas a numerosos artigos, entre eles o artigo 6.5, que proíbe a aplicação da pena capital por delitos cometidos antes dos 18 anos (...). É um dos dois países do mundo (o outro é a Somália), que não ratificou a Convenção dos Direitos da Criança.”

A destruição do World Trade Center apenas projetou a sombra do Gulag, de Auschwitz, de Hiroshima e do Vietnam sobre Manhattan. Não se pretende, com essa afirmação – é óbvio! –, justificar aquele ou qualquer outro atentado terrorista, venha de onde vier. Muito ao contrário. Pretende-se, apenas, situar o debate no seu lugar concreto: a história.

 

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