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Idéias - José Arbex Jr.


  7/9/2001  Coisas que a mídia adora “esquecer” sobre o conflito israelo-palestino

Brian Whitaker, do Guardian (brian.whitaker@guardian.co.uk), um dos mais importantes jornais do mundo, faz aqui uma breve e interessantíssima análise da cobertura feita pela mídia internacional dos conflitos em Israel e na Palestina. Ele mostra como a escolha de certos verbos e construções gramaticais acabam criando um quadro interpretativo totalmente tendencioso e unilateral (no caso, os palestinos são sempre descritos como aqueles que “atacam” e os israelenses como os que “respondem”, como se bastasse os palestinos deixarem de “atacar” para que a paz voltasse a reinar na região). A mídia quase nunca ressalta, por exemplo, que a ocupação ilegal das colônias israelenses está na raiz do conflito, assim como descreve de maneira totalmente arbitrária os cenários do conflito: “Uma notícia descreve Hebrom como “uma cidade dividida”, quando, de fato, 99.8% dos seus habitantes são árabes. (Jerusalém, por outro lado – com dois terços da população judaica e um terço de árabes – é constantemente descrita pelos israelenses como “não-dividida).”. Vamos ao texto:

“Uma história rotineira do Oriente Médio: “Palestinos lançaram pela madrugada três bombas contra a colônia habitacional Eile Sinai no extremo norte da Faixa de Gaza. As tropas israelenses responderam com bombardeios de tanques, destruindo um posto de fronteira palestino e atingindo duas casas”. Essa notícia, que acaba de sair na BBC, é familiar não somente pelos eventos que descreve, mas também pela maneira como os descreve: os palestinos atacam e os israelenses “respondem”. Ações militares por parte dos israelenses são sempre “resposta” a alguma coisa, mesmo quando eles atacam primeiro. Se não foram efetivamente atacados, é uma “resposta” a ameaça a sua segurança.

'Resposta' é uma palavra muito útil. Fornece uma razão pronta para as ações israelenses e elegantemente descarta demandas por maiores explicações. Diz: 'Não nos perguntem por que fizemos isso, perguntem à outra parte'. A questão não é culpar os israelenses pelo uso desse expediente; a questão é se os jornalistas deveriam deixar que ele moldasse suas notícias do conflito.

Representar o conflito como uma série de ações palestinas e de respostas israelenses é perigoso por várias razões. Primeiro, reforça o argumento israelense de que tudo ficará bem somente se os palestinos encerrarem sua violência. Isso poderia ser verdadeiro para muitos israelenses, mas não para os palestinos. Segundo, isso incide – através de repetição constante – em um quadro enganoso do conflito como um todo. A violência não é uma série de ações e reações discretas, mas um ciclo (ou espiral) no qual as ações de ambos os lados alimentam-se mutuamente. Terceiro, enquanto as ações israelenses são noticiadas como uma “resposta” que se auto-justifica, as ações dos palestinos raramente são situadas dentro do contexto correto ou atribuídas a um motivo compreensível.

Obviamente, há um limite para o que pode ser dito no relato de uma notícia de 300-400 palavras, e alguns jornalistas argumentarão que seu ofício principal é noticiar os eventos do dia, não explicar seu contexto. Mas não estou sugerindo que eles deveriam transformar suas notícias numa conferência de história; apenas que deveriam pelo menos sugerir num contexto e num reconhecimento mais amplo que os palestinos podem Ter algumas queixas legítimas. Fazer isso não é difícil nem representa desperdício de palavras.

Alguns informes das agências de notícias, por exemplo, costumam fazer habitualmente uma referência de seis palavras à 'luta palestina contra a ocupação israelense'. A ocupação israelense jaz na raiz do conflito – e ainda assim, na maioria dos casos, os jornalistas esquecem de lembrá-la a seus leitores.

O arquivo eletrônico de notícias do jornal The Guardian contém todos os fatos nacionais do dia-a-dia, inclusive do The London Evening Standard. Uma pesquisa nele revela 1.669 notícias publicadas durante os últimos 12 meses que mencionaram a Cisjordânia. Destas, 49 continham a frase 'a Cisjordânia ocupada'. Outras 513 notícias incluíam as palavras 'ocupada' ou 'ocupação' em outras partes do texto. Isso deixa 1.107 notícias – 66% do total – que conseguiram falar da Cisjordânia sem mencionar um desses fatos importantes.

Alguns jornalistas – particularmente os americanos – parecem relutar em tratar a ocupação como um fato concreto, preferindo tratá-lo como uma opinião que poderia ser atribuída a alguém. Em outubro passado, por exemplo, o chefe do birô da CNN em Jerusalém disse a observadores que os palestinos estavam furiosos com o que 'eles encaravam como a ocupação israelense'.

Outros recorrem a eufemismos: a Cisjordânia é 'disputada' ou 'administrada por Israel'. Alguns adotam a prática das autoridades israelenses, abreviando 'os Territórios Ocupados' para 'os Territórios'. Os jornalistas também são um tanto tímidos sobre a questão dos colonos judeus, retratando-os habitualmente como alvo da violência, mas raramente como uma de suas principais causas (que efetivamente são).

Algumas das notícias recentes sobre a morte de uma criança judia de 10 meses, Shalhevet Pass, em Hebron, deixou claro que os colonos ali são um grupo pequeno e particularmente fanático – embora a maioria das notícias não façam referência a isso.

Uma notícia descreve Hebrom como 'uma cidade dividida', quando, de fato, 99.8% dos seus habitantes são árabes. (Jerusalém, por outro lado – com dois terços da população judaica e um terço de árabes – é constantemente descrita pelos israelenses como 'não-dividida'). Nos últimos 12 meses, 394 notícias do arquivo mencionaram os colonos judeus. Destas, sete incluem a frase 'colono extremista' e oito 'colono judeu extremista'. A palavra 'extremista' ocorreu em 44 notícias, embora não necessariamente aplicada aos colonos. Algumas notícias colocaram lado a lado colonos caracterizados simplesmente como 'judeus' e palestinos caracterizados como 'extremistas'.

A ilegalidade das colônias habitacionais ante o direito internacional também é omitida com freqüência. A frase 'colônia habitacional ilegal' usada no contexto israelo-palestino, apareceu somente oito vezes nos últimos 12 meses – e três delas foram em cartas de leitores ao editor. Durante os primeiros estágios da intifada os jornais foram acusados de 'desumanizar' os palestinos por publicarem números, mas não os nomes daqueles mortos.

Isso contrastava com a riqueza de informação pessoal, providencialmente fornecida pelas autoridades israelenses, sobre baixas judias. A falta de nomes palestinos não foi certamente devida a uma política consciente da parte dos jornalistas e, embora algumas vezes tenha havido dificuldade para a obtenção de nomes, foram feitos esforços para remediar essa situação. Entretanto, uma pesquisa feita na semana passada no arquivo do The Guardian revelou uma outra prática que tem um efeito similar: os judeus vivem principalmente em 'comunidades', mas os palestinos vivem em 'áreas'. As 'áreas' palestinas mereceram 109 registros nos últimos 12 meses; 'subúrbios', 15 e 'comunidades' somente três (respectivamente nos jornais The Guardian, Observer e Independent).

No caso dos judeus, as posições foram revertidas: 'comunidades' tiveram 87 registros, 'subúrbios' 30 e 'áreas' 21. Isso é claramente não intencional e deve ser devido, em parte, ao modo com que falamos das comunidades judaicas na diáspora. Mas o padrão geral sugere uma percepção – talvez de natureza inconsciente – de que os palestinos são menos civilizados. Outro fator é que 'subúrbio' e, num contexto menor, 'comunidade' são usados como eufemismos para colônias habitacionais.

Os porta-vozes israelenses descrevem regularmente a colônia habitacional Gilo como um 'subúrbio' de Jerusalém, porque foi unilateralmente anexada. Uma notícia recente saída no Times, seguindo na tradição da CNN, disse que os 'palestinos encaram' Gilo como um colônia habitacional ilegal. De fato eles o fazem, mas assim também o faz o direito internacional.”



 

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