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Idéias - José Arbex Jr.


  24/8/2001  Mussolini e os “arapongas” da União Européia

A União Européia está formando sua própria rede de “arapongas”, e preparam uma série de medidas que representam uma série ameaça aos direitos democráticos do cidadão, incluindo o direito à privacidade e à liberdade de escolha religiosa, política e sexual, denunciam intelectuais, professores universitários e militantes dos direitos civis de vários países europeus. As medidas, anunciadas após a morte, em Gênova, de Carlo Giuliani, 23 anos, em 20 de julho, quando protestava contra o G-8, são um novo sintoma da escalada repressiva dos governos, cujo objetivo é controlar ou impedir novas manifestações contra o FMI, o Banco Mundial e o processo de “globalização” neoliberal da economia.

Segundo Stephen Castle, da rede Independent News, em Bruxelas, os líderes europeus emitiram uma ordem para que as agências nacionais da polícia e dos vários serviços secretos “coordenem os esforços” para identificar e vigiar os manifestantes anticapitalistas. Qualquer pessoa que participe de qualquer manifestação poderá ter o seu nome fichado e incluído em um banco de dados policial. As medidas práticas para montar a rede foram decididas, em caráter confidencial, uma reunião de ministros do Interior dos países membros da UE. O novo “serviço” terá como sede central a delegacia da Europol, em Haia, criada para combater o crime organizado e o narcotráfico.

Otto Schily, ministro do Interior da Alemanha, havia proposto medidas ainda mais “duras”: queria a criação de uma espécie de “FBI europeu”, isto é, uma polícia européia autônoma, independente dos serviços nacionais. A proposta só não foi aceita porque os outros ministros avaliaram não existir um clima político favorável. Ainda assim, as novas leis aprovadas estabelecem o Sistema Schengen de Informação (SSI) e um comitê permanente (também conhecido como K4) para a troca de informações. O SSI será apoiado pela rede Sirene de Requisição de Informação Suplementar. A Sirene permite que a polícia de determinado país troque registros de impressões digitais e fotografias com todas as agências da UE, cada vez que um “suspeito” entre no país.
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Para Tony Bunyan, editor da revista Statewatch, as novas “medidas de segurança” – anunciadas após– permitirão que os serviços secretos coloquem sob vigilância pessoas cujas atividades são integralmente democráticas. Já Thomas Mathieson, professor de sociologia da Universidade de Oslo diz que as novas leis, se aprovadas, permitirão que a polícia tenha acesso a informações “muito provadas” sobre a vida sexual, a opção religiosa e as atividades políticas das pessoas: “É uma situação muito perigosa, do ponto de vista da defesa das liberdades civis.” Nicholas Busch, coordenador da rede Fortress Europe de defesa das liberdades civis afirma: “Pessoas que nunca fizeram nada contra a lei deveriam ter a garantia de que não serão espionadas. Ao criminalizar atividades políticas, como as manifestações de protesto, você estimula o enfrentamento e o conflito.”

Durante as manifestações de Gênova, a ação da polícia evidenciou a existência de uma “coordenação européia”. Mas o mais preocupante foi a atuação de um grupo de cerca de dois mil agentes provocadores, extremamente violentos, que se infiltraram no grupo anarquista Bloco Negro. Contando com a cumplicidade da polícia italiana, os agentes – que falavam diversos idiomas, principalmente o alemão – espancaram líderes sindicais e ativistas dos direitos humanos. Não contentes com isso, invadiram a sede do Fórum Social de Gênova, onde estavam os computadores e arquivos fotográficos que documentaram o assassinato de Carlo Giuliani e a brutalidade da polícia. Foi tudo destruído – fitas de vídeo, fotos, gravações sonoras, arquivos de computador.

E, finalmente, um dado bastante simpático: centenas de militantes presos foram obrigados, nas delegacias de Gênova, a ajoelhar-se diante de fotos de ninguém menos que Benito Mussolini, e a gritar “viva o Duce”. O neoliberalismo, enfim, produz os seus verdadeiros resultados.

 

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