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Idéias - José Arbex Jr.


  13/7/2001  Ainda o imperialismo

Na edição anterior, notamos a total ausência de referências ao “imperialismo” nos debates sobre conjuntura internacional travados ao longo da última década. Essa mesma questão acaba de ser recolocada pelo livro Império, de Michael Hardt e Antonio Negri, que acaba de ser lançado no Brasil. Para os autores, acabou o imperialismo, consagrado pelas potências européias e Estados Unidos entre o final do século 19 e início do século 20. Nenhum estado-nação constitui hoje, isoladamente, um centro hegemônico. A ordem que se ergueu sobre os escombros do Muro de Berlim é assegurada por um poder supranacional, que fundamenta a sua legitimidade em um discurso de defesa da vida humana, acima e além das ideologias (aquilo que os autores qualificam como “biopolítica”). Esse poder supranacional, cuja sede não pode ser fisicamente apontada, é o império.

Império é, na verdade, uma monumental tentativa de síntese analítica do mundo contemporâneo. O livro foi qualificado por Slavoj Zizek como nada menos que “o Manifesto Comunista do século 21”, e pelo crítico marxista do pós-modernismo, Fredric Jameson, como “a primeira grande síntese teórica do novo milênio”. Seus autores recorrem a Maquiavel, Spinoza, Hegel, Marx, Deleuze e Foucault, entre outros, para pensar a formação do Estado-nação, a questão da soberania e o estatuto do indivíduo no quadro da “transição” do moderno para o pós-moderno, no âmbito da cultura, política, economia e da relação entre os países.

Se um livro tão denso e ambicioso pode ser resumido em uma simples fórmula, esta seria algo mais ou menos assim: o “império” está para o “imperialismo” como o “pós-moderno” para o “moderno”. Se, no século 20, o Estado-nação estabelecia uma clara definição de fronteiras entre o “doméstico” e o “estrangeiro”, o “dentro” e o “fora”, hoje isso não é mais possível. As fronteiras entre os países não desapareceram, mas foram engolfadas por um processo irresistível e irreversível de trocas econômicas, financeiras, comerciais e culturais. O Estado-nação não desapareceu, mas adquiriu um novo estatuto: os processos políticos, econômicos e culturais “externos” confundem-se com os “domésticos”. As fronteiras, nesse sentido, tornaram-se absolutamente porosas: é perfeitamente possível encontrar o “primeiro mundo” em São Paulo ou Moscou, e o “terceiro mundo” em Paris ou New York.

O virtual desaparecimento das fronteiras também ocorreu no âmbito das relações entre homem e natureza (não porque a natureza tenha “desaparecido”, mas porque ela já não pode ser vista como uma totalidade original e independente da cultura), entre o público e o privado (basta lembrar os shopping centers, espaços privados que simulam a via pública, ou a publicidade da vida privada dos artistas e políticos), e no sentido militar (as guerras entre países cederam lugar à multiplicação das guerras civis, “domésticas”). Hoje, o estado-nação subordina-se a um “poder global” – o império – que se manifesta sob a forma de alianças e instituições globais (Banco Mundial, FMI, ONU). Para o império, não existe mais o “fora” (faz sentido, portanto, a proposta americana de armar um escudo de defesa em torno do planeta; o “inimigo universal”, que já não existe, é criado como uma possível ameaça extra-planetária).

No contexto do império, dizem os autores, os Estados Unidos são um país privilegiado, mas não “imperialista”. Sua prática contemporânea não pode ser equiparada à das antigas potências colônias, incluindo os próprios Estados Unidos, que anexavam territórios e impunham sua dominação sobre outros países, unicamente com base na força militar. Para Hardt e Negri, no Vietnã os Estados Unidos travaram a sua última guerra imperialista, e foram derrotados, em seu próprio país, pelas forças da democracia americana. Nos anos 90, dizem os autores, “as organizações internacionais (a ONU, as organizações monetárias e até as organizações humanitárias) pediram aos Estados Unidos que assumissem o papel central numa nova ordem mundial”. O problema, então, é explicar historicamente esse processo.

Para Hardt e Negri, a formação do império mundial foi conseqüência dos desdobramentos de uma “vocação” presente nas concepções de poder e soberania constituintes defendidas por Thomas Jefferson. O poder seria o resultado de “redes de poderes auto-reguladores” e a soberania a “ocupação dos espaços ilimitados”. Essas concepções, que liberaram o espírito de aventura e conquista dos colonizadores, só poderiam ser desenvolvidas nas condições específicas da história americana. Os fundadores da nação americana não foram obrigados a enfrentar, como na Europa, os obstáculos representados pela herança feudal.

Essas concepções, ancoradas na ideologia do “destino manifesto”, permitiram aos Estados Unidos ampliar o seu território, sua “esfera de influência” no mundo e estabelecer alianças. Para levar a cabo o seu projeto, foram obrigados a dizimar os índios, a empregar o trabalho escravo nas plantations e a desenvolver uma política francamente imperialista, enunciada pela Doutrina Monroe (1823). Criou-se, assim, uma tensão entre a prática imperialista (na mais pura tradição européia) e a vocação imperial enunciada pelos princípios jeffersonianos.

Essa tensão determinou, segundo os autores, quatro grandes períodos na história constitucional dos Estados Unidos. O primeiro vai da Independência ao final da Guerra Civil (1861 – 65) e a reconstrução do país; o segundo, extremamente contraditório, vai da virada do século até aproximadamente a quebra da bolsa de New York, e inclui o imperialismo de Theodore Roosevelt e o “reformismo internacionalista” de Woodrow Wilson, que propôs a formação da Liga das Nações; o terceiro abarca o New Deal, a Segunda Guerra e o auge da Guerra Fria, quando os Estados Unidos consolidaram a sua posição como superpotência; o quarto período, finalmente, começa com os grande movimentos sociais da década de 60, atravessa a dissolução da União Soviética e do bloco socialista europeu, chegando até o início da nova ordem mundial, marcado pela Guerra do Golfo (janeiro – fevereiro de 1991).

Após a Segunda Guerra e a instalação da Guerra Fria, a estratégia de reconstrução da Europa com base no dólar (Plano Marshall), no marco das instituições globais de Bretton Woods e da ONU, e associada à criação de uma aliança militar multinacional em solo europeu, sob hegemonia dos Estados Unidos (Otan), acelerou o declínio do antigo mundo imperialista, preparando o terreno para a ordem imperial. A Guerra do Golfo já é travada como a “ação punitiva” de uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, em nome da defesa dos direitos humanos e da vida contra um tirano isolado. Todas as outras intervenções militares que contaram com a participação dos Estados Unidos (Somália, Haiti, Kossovo) tiveram como justificativa o discurso “biopolítico” (para empregar um conceito criado pelos autores), e foram legitimadas pela comunidade das nações.

Nesse contexto concreto, a resistência ao império, que começa a se mostrar com força nas recentes manifestações contra as instituições globais do capitalismo (FMI, Banco Mundial, OMC, Alca), só poderá ser oferecida com eficácia pelas populações pobres e marginalizadas das periferias, não açambarcadas pelos tentáculos disciplinadores e sedutores do império (tese também cara ao saudoso professor Milton Santos). O vagabundo de Charlie Chaplin, com sua irreverência alegre, indisciplinável, com seu profundo humanismo e capacidade de se comover com a infelicidade do outro torna-se uma espécie de paradigma do novo rebelde. Essa é a base possível de uma nova esquerda marxista, jovem e internacionalizada, livre dos dogmas de um esquerdismo engessado no século passado.

Claro que se trata de um livro extremamente polêmico. Aborda um sem-número de questões que decorrem dessa percepção central sobre a formação do império. Este, precisamente, é o maior mérito do livro. É um trabalho sério, que procura integrar em um único corpo analítico e conceitual as vastas transformações políticas, econômicas e culturais que atravessam e conformam o mundo contemporâneo. Império exige reflexão. Coisa rara hoje em dia.

 

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