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Idéias
- José Arbex Jr.
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22/6/2001
“Imperialismo” está fora de moda
“Proferi, recentemente, uma palestra na Universidade de Sussex sobre o ‘novo imperialismo’. O dado mais extraordinário foi o mero fato dela ter acontecido. Julian Saurin, professor de estudos africanos e asiáticos em Sussex, afirmou desconhecer a ocorrência, nos últimos dez anos, de outro debate aberto sobre imperialismo. Cerca de 80% de estudos sobre relações internacionais nas universidades britânicas referem-se aos Estados Unidos e à Europa. A maior parte do resto da humanidade só é levada em consideração de acordo com a sua importância para os ‘interesses ocidentais’, o eufemismo para designar poder ocidental e imperialismo.”
É extremamente oportuna a observação do jornalista australiano John Pilger (www.johnpilger.com), um veterano correspondente de guerra e documentarista da BBC e dos mais importantes jornais do mundo (incluindo o New York Times e Guardian). Falar em imperialismo está fora de moda. As relações de dominação política, cultural e militar passam a ser descritas como meras relações “econômicas” entre “grandes blocos”. À luz da razão cínica, que mede o conjunto das relações entre seres humanos pelo seu valor comercial e monetário, a legitimidade de uma operação qualquer é determinada pela sua “eficácia” e “produtividade”, pelo lucro que dela vai resultar. Tudo é relativo, finalmente, ao lucro. Todas as demais considerações são descartadas como “ideologia” (como se o discurso que sustenta a busca do lucro não fosse, ele próprio, a mais pura ideologia).
Observação semelhante é feita pelo professor Samir Amin, coordenador do Fórum do Terceiro Mundo, organização independente, com sede no Senegal, que reúne intelectuais da África, Ásia e América Latina. Entrevistado recentemente por mim, para a revista Caros Amigos, Amin critica o “money-teísmo” consagrado no mundo contemporâneo. Observa que “a utopia liberal – utopia no mau sentido da palavra, retrógrada – de administrar a sociedade como mercado, a tentativa de submeter as outras dimensões da realidade social, política e cultural à lógica unilateral do mercado é um projeto inviável.” Para ele, o imperialismo, muito longe de ter desaparecido, vive uma nova fase. O “antigo imperialismo” entrou em colapso, junto o mundo que existia a leste do o Muro de Berlim. No “novo imperialismo”, os Estados Unidos – centro do poder financeiro mundial – surgem como uma economia integralmente parasitária, importador maciço de capital.
“O sistema imperialista hoje parece estar unificado, mas se olharmos para uma característica específica desse sistema, encontramos uma grande diferença entre esse sistema e o anterior, que é a relação centro-periferia – diz o professor Amin. No sistema que existia no começo do século XX, os países centrais exportavam capital para as periferias. Sempre em seu próprio benefício, construíam portos na Argentina, financiando estradas de ferro na Índia etc. Hoje, é justamente o contrário. O maior país dos centros, os Estados Unidos, importa capital maciçamente. O déficit da balança comercial americana é a expressão disso. A sociedade americana sobrevive graças ao capital injetado pelos países capitalistas desenvolvidos, e pelo sul, incluindo os países mais pobres do sul, por meio da dívida externa, da pilhagem de recursos naturais, do controle dos fluxos financeiros e dos sistemas de comunicação. Os Estados Unidos são, hoje, uma sociedade totalmente parasita. (...) A verdade é que o sistema todo entrou em colapso. Não foi só o sistema soviético que entrou em colapso, foi também a social-democracia e o sistema de bem-estar do Ocidente, também a ilusão, o sonho, o projeto populista nacionalista de tornar modernos os países do sul. A atual globalização é uma espécie de colonização ou recolonização compartilhada, dominada pelos Estados Unidos e compartilhada por suas províncias: o Canadá, os europeus ricos e o Japão.”
A pergunta óbvia, aqui, é: se a economia norte-americana é tão débil assim, se a sua pujança é ancorada em relações parasitárias, o que leva os europeus e os japoneses a aceitarem esse quadro? “É claro que eles não são estúpidos, e vêem isso – como todos deveriam ver, infelizmente muito poucas pessoas na esquerda falam disso, Celso Furtado e eu mesmo estamos entre os poucos que denunciam essa vulnerabilidade da hegemonia americana. Por que eles aderem à política americana? Porque a hegemonia americana é baseada em outra, a militar. Isso é muito importante. Acho que não há como analisar o capitalismo sem levar em conta o poder militar.”
Falar em repressão, pura e simples, é outra coisa que está fora de moda. As intervenções militares imperialistas no mundo agora recebem o nome de “ajuda humanitária”, como nota Pilger: “Os intervencionistas dividem o mundo entre vítimas e bandidos. No Iraque, os curdos merecem a ‘proteção’ anglo-americana. Na Turquia, os curdos que lutam contra o regime terrorista são bandidos. A Turquia é país-membro da Otan.” Esse sistema de referências só pôde se instalar com a participação conivente e consciente de intelectuais muito bem pagos pelas corporações e estados interessados.
“O estudo das relações internacionais do pós-guerra foi inventado nos Estados Unidos – continua Pilger -, e amplamente respaldado no patrocínio daqueles que arquitetaram e controlaram o moderno poder econômico norte-americano: uma rede que inclui as fundações Ford, Carnegie e Rockefeller, a OSS (serviço de inteligência) e o Conselho de Relações Internacionais, um braço efetivo do governo. Assim, nas grandes universidades americanas, intelectuais eruditos justificam a guerra fria e o novo imperialismo liderado por Washington. Neste país [Grã-Bretanha], com honrosas exceções, essa perspectiva ‘transatlântica’ encontrou eco. Há variações conhecidas por seus eufemismos imperialistas. Na Grã-Bretanha, é de bom tom falar em ‘terceira via’ e no ‘bom cidadão internacional’.”
Mas não se trata, obviamente, de uma “conspiração”. Simplesmente, é assim que as coisas funcionam: aqueles que adotam um discurso “razoável” e adequado aos “novos tempos”, adquirem ampla visibilidade na mídia, são promovidos rapidamente, recebem convites. Aqueles que não sustentam tais discursos são estigmatizados como “dinossauros”, “atrasados”, “ideólogos” etc. O Brasil está repleto de exemplos – do próprio presidente, que pede que todos “esqueçam” o que escreveu (e agora parece ter “esquecido” aquilo que de fato pediu) a filósofos “amigos” que separam radicalmente “moral” e “política”, passando por jornalistas que incorporam a “lógica do mercado” como instrumento de análise das relações entre os estados e os seres humanos).
Uma das operações psicossociais mais vitais ao “novo imperialismo” é a divisão do mundo entre “nós” e “eles”. “Nós” somos, sempre, os aliados, os que estamos do “lado certo” da civilização, dos elevados valores espirituais da democracia e do ocidente. A defesa de “nossos” valores é sempre invocada como pretexto justificador dos maiores absurdos – incluindo, por exemplo, a invasão militar da Amazônia para “combater o narcotráfico”. Como diz Pilger, “ninguém tentou interceptar o envio de caças britânicos Hawk ao regime genocida da Indonésia. Ninguém falou em interromper o fornecimento de armas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha para os regimes terroristas da Arábia Saudita, Israel, Turquia, Iraque, Irã, Paquistão, Colômbia. Ninguém discute a hipótese de condenar os líderes ocidentais por crimes contra a humanidade, que poderiam ser facilmente comprovados por uma abundante quantidade de evidências.”
Bem a propósito: em 17 de julho de 1998, uma conferência da ONU aprovou, em Roma, o estatuto do Tribunal Penal Internacional, que tem, como uma de suas atribuições, julgar chefes de estado por crimes contra a humanidade. Depois de anos de negociações, o documento recebeu o apoio da maioria absoluta das delegações: 120 votos favoráveis, 7 contrários e 21 abstenções. O tribunal se instalará em Haia, na Holanda, nos próximos anos, quando pelo menos 60 países aderirem ao tratado internacional. Houve apenas um “núcleo duro” que ousou contrariar o “espírito da época”, amplamente favorável ao respeito aos direitos humanos – o mesmo espírito que possibilitou a detenção de Augusto Pibonhet – e votou contra a resolução: Estados Unidos, Israel, China, Filipinas, Índia, Sri Lanka e Turquia. Não é nada difícil saber a causa.
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