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Idéias - José Arbex Jr.


  22/4/2008  Mate 120 palestinos e descanse

Diante das reações de horror à declaração, vieram as explicações: não foi bem isso o que Vilnai quis dizer... Mas foi o que disse. Os atos falhos da linguagem, nota Sigmund Freud, são os atos mais verdadeiros, significam a vitória do desejo sobre a autocensura. Para entender o mecanismo político e psicológico que levou o general a evocar o espectro do holocausto, reproduzimos, em seguida, trecho de um texto de Uri Avnery, jornalista e escritor judeu israelense (traduzido por Caia Fittipaldi):
“Lembrei-me, esta semana, daquela velha história de uma mãe judia, separando-se do filho convocado para servir o exército do czar contra os turcos. ‘Não se dedique demais’, aconselhava ao filho. ‘Mate um turco, e descanse. Mate outro turco, e descanse outra vez.’ ‘Mas, mamãe’, diz o filho, ‘e se o turco me matar?’ ‘Matar você?’, ela grita, indignada, ‘por quê? Que mal você fez a ele?!’
Aí está uma lição de psicologia. Lembrei-me dela, ao ler que Ehud Olmert declarou que o que mais o enfureceu foi a explosão de alegria em Gaza, depois do ataque em Jerusalém, no qual foram mortos oito estudantes yeshiva. Antes disto, semana passada, o exército de Israel matara 120 palestinos em Gaza, metade dos quais civis, além de dúzias de crianças. Não foi ‘mate um turco, e descanse’. Foi ‘mate 120 turcos, e descanse’. Isto, Olmert não entende.
A Guerra dos Cinco Dias (...) começou com o ‘assassinato seletivo’ por Israel de cinco altos militantes do Hamas, na Faixa de Gaza. A ‘resposta’ foi uma chuva de foguetes e, desta vez, não só sobre Sderot, mas também sobre Ashkelon e Netivot. A ‘resposta’ à ‘resposta’ foi a incursão pelo exército de Israel e a matança. O objetivo declarado foi, como sempre, fazer parar os foguetes. O meio: matar o maior número possível de palestinos. A decisão baseou-se num tradicional conceito vigente entre os israelenses: mate civis, mate e mate, até que os líderes caiam. Cem vezes Israel já tentou esta ‘solução’; cem vezes fracassou.
Como se faltasse algum exemplo da loucura dos que divulgam este conceito, lá estava, na televisão, o general Matan Vilnai, para ‘declarar’ que os palestinos ‘trazem a Shoah para eles mesmos’. A palavra Shoah, em hebraico, só significa uma coisa, em todo o mundo, e só uma: é o holocausto dos judeus, pelos nazistas. A fala de Vilnai incendiou o mundo árabe e provocou uma onda de choque. Também eu recebi dúzias de telefonemas e mensagens de e-mail, de todo o mundo. Como convencer as pessoas de que, no hebraico coloquial, Shoah significa ‘apenas’ uma catástrofe, e que Vilnai, que já foi candidato a presidente, nunca foi o mais inteligente dos homens?
Há alguns anos, o presidente Bush convocou uma ‘cruzada’ contra o terrorismo. Não sabia que, para centenas de milhões de árabes, a palavra ‘cruzada’ evoca um dos maiores crimes jamais perpetrados na história, o horrendo massacre de muçulmanos (e judeus) pelos primeiros ‘cruzados’, nas vielas de Jerusalém. Um concurso de inteligência, entre Bush e Vilnai, provavelmente, acabaria empatado.
Vilnai não entende o que significa a palavra ‘Shoah’, para os diferentes dele; e Olmert não entende por que houve júbilo em Gaza depois do ataque à escola yeshiva, em Jerusalém. Sábios como estes dois dirigem o Estado, o governo e o exército. Sábios como estes dois controlam a opinião pública, porque controlam a mídia. O que há de comum entre todos estes sábios: a mesma insensibilidade, a mesma cegueira, que os impede de ver o que sentem os não-judeus, os não-israelenses. Desta cegueira nasce a incapacidade para entender a psicologia do outro lado; e, depois, tampouco entendem as conseqüências de suas palavras e atos.”


José Arbex Jr.

 

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