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Idéias - José Arbex Jr.


  5/12/2005  Maradona 10 x Bush 0

José Arbex Jr.,
George Bush sofreu uma amarga derrota na 4ª Cúpula das Américas, realizada em Mar del Plata, nos dias 4 e 5 de novembro. Não alcançou o seu principal objetivo, acelerar a implantação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas): a declaração final do encontro faz apenas alusões genéricas à eventual constituição da organização. E foi repudiado por grandes manifestações, lideradas por Don Diego Armando Maradona, ao lado do presidente venezuelano Hugo Chávez e do líder cocalero boliviano Evo Morales (duas semanas, depois, o repúdio seria reproduzido em algumas das capitais asiáticas, durante a Cúpula da Apec, que reúne países do Pacífico). Júnior vive um inferno astral. O número oficial de soldados estadunidenses mortos no Iraque ultrapassou a marca dos dois mil, agitando o fantasma do Vietnã. Na frente doméstica, o seu governo é marcado por uma sucessão de desastres – da trágica “operação Katrina” ao escândalo provocado pela comprovação de que Lewis Libby, braço direito do vice Dick Cheney é mentiroso e dedo duro: “vazou” para a imprensa a identidade de uma agente da CIA, por represália política. O escândalo também envolve Karl Rove, o principal conselheiro de júnior. Resultado: as pesquisas de opinião indicam os mais baixos índices de popularidade desde que assumiu a Casa Branca, em 2001. Em meio a tantas tormentas, Bush encontrou um ombro amigo: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem trocou rasgados elogios e passou agradáveis horas, em Brasília, no dia 6. Nunca foi tão adequado o nome da Granja do Torto.

O espetacular fracasso de Bush em Mar del Plata foi realçado, por efeito de contraste, pela brilhante atuação de Maradona. O ex-craque enterrou deixou no passado – tomara que para sempre - as deprimentes imagens do ser atormentado pela cocaína, pela obesidade mórbida (superada apenas com uma operação de redução do estômago) e por um estilo de vida autodestrutivo. Lavou a própria alma, e a de milhões de latino-americanos, ao liderar as manifestações contra Bush. Don Diego havia anunciado, uma semana antes da cúpula, a sua disposição militante antiimperialista, durante uma entrevista que realizou com Fidel Castro, em Cuba, para o seu programa televisivo La Noche del 10. “Na Argentina tem gente que é contrária à presença de Bush, e eu sou o primeiro. Ele nos fez muito mal. No meu humilde modo de pensar, acredito que é um assassino. Pisa em nós, e ainda temos que aturá-lo. Vamos concordar com isto? Eu e muitos argentinos não”, disse Maradona, que usava uma camiseta azul com a imagem de Che Guevara. Fidel, em resposta, declarou que quem preside o império é “persona non grata”. No final da entrevista, o líder cubano autografou e deu de presente a Maradona um par de luvas de boxe que pertenceu ao ex-pugilista cubano Teófilo Stevenson, três vezes campeão olímpico e mundial dos pesos pesados.

Passando das palavras à ação, Maradona percorreu os 400 km entre Buenos Aires e Mar del Plata a bordo do “Expresso Alba”, apelido dado ao trem formado por cinco vagões, especialmente organizado para transportar manifestantes contra Bush. O nome faz referência à Alternativa Bolivariana das Américas, proposta feita por Chávez em contraposição à Alca). Por onde passava, o trem atraía a atenção e o apoio de milhares de manifestantes, preparando o clima das manifestações de rua. Em Mar del Plata, Chávez foi a grande estrela da “cúpula paralela”, um encontro entre movimentos sociais e populares das Américas, para o qual Lula foi convidado mas ao qual não compareceu.

Mas a derrota de Bush na Argentina não significa que a guerra está vencida. Longe disso. Face à impossibilidade implantar a Alca segundo um prazo definido, a Casa Branca adotou a estratégia de “comer pelas bordas”: envolverá o maior número possível de países americanos em acordos regionais e bilaterais, com o objetivo de pressionar e isolar os mais renitentes. Um claro indício dessa estratégia foi a aprovação da Área de Livre Comércio da América Central (Cafta), em agosto, pelo Congresso estadunidense. Para aprovar o acordo, a Casa Branca teve que vencer grandes resistências, até mesmo entre os congressistas republicanos (partidários de Bush), como comprova o resultado final da votação: 217 a 215 votos. As resistências ao acordo refletem o temor dos trabalhadores estadunidenses de perder os seus empregos, com o deslocamento de fábricas e montadoras para os países americanos, onde os salários praticados são muito menores, as vantagens fiscais muito maiores e as empresas mais facilmente burlam as leis trabalhistas, de proteção ao meio-ambiente e outras. Outro indício são as crescentes pressões sobre a Venezuela exercidas pelo presidente do México, Vicente Fox, qualificado por Chávez como “cachorro de Bush”. A tensão entre os dois presidentes quase produziu o rompimento das relações diplomáticas, em meados de novembro.

A urgência da Casa Branca só pode ser entendida à luz da lógica neoconservadora e imperial que norteia as suas ações. A Alca, com tudo o que ela significa em termos de anexação econômica e financeira, é apenas um dos braços da estratégia mais geral de recolonização das Américas, que implica também o domínio militar e cultural da região. A recolonização é necessária, do ponto de vista do império, não apenas para assegurar o controle dos mercados (e criar plataformas de exportação com base em mão de obra escrava), mas também para garantir o suprimento de matérias primas cada vez mais valiosas e estratégicas, como aquelas existentes em abundância na Amazônia. Entre elas, contam o petróleo (as reservas dos Estados Unidos dão para apenas mais três anos) e água doce. Não por acaso, aliás, a nova base militar estadunidense instalada no Paraguai fica sobre o aqüífero Guarani, já considerado absolutamente estratégico como fonte de água potável, cujas reservas são suficientes para abastecer o mundo por três séculos ou o Brasil por três milênios. Trata-se, no fundo, da mesma lógica que levou Bush a ordenar o bombardeio do Afeganistão e a invasão do Iraque. Nada disso tem a ver com a chamada “luta contra o terror”, que funciona apenas como pretexto para as operações militares.

A crise política doméstica representa, hoje, um obstáculo para Bush e acólitos, ainda mais porque ela se combina com a percepção internacional, cada vez mais sedimentada, de que a atual equipe que comanda a Casa Branca oferece um perigo para o equilíbrio planetário (como, aliás, reconhece e lamenta a revista The Economist, uma espécie de intelectual orgânico do capital financeiro internacional). O que fará Bush em face da crescente fragilidade, isolamento e desmoralização de seu governo? É difícil responder, por se tratar de um aventureiro que chefia uma gangue de mentirosos e malfeitores. Pior ainda: é um aventureiro fundamentalista, que se acredita guiado por Deus. Ninguém pode descartar a eventual fabricação de uma nova crise, agora com a Síria ou com a Venezuela, por exemplo, para novamente convocar a união nacional e patriótica, como forma de abafar a crise. Na melhor das hipóteses, terminará melancolicamente o seu mandato. Como o querido neocompanheiro Lula.

 

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