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Idéias - José Arbex Jr.


  18/5/2001  A razão cínica de FHC

A notícia não deve ter sido uma surpresa para ninguém: foi um grande sucesso a assim chamada "operação abafa", realizada pelo governo Fernando Henrique Cardoso para impedir a instalação de uma "CPI da corrupção". Aquilo que parecia improvável – disciplinar a "base governista" para barrar uma ofensiva da "oposição" ancorada em uma opinião pública indignada – foi concretizado, claro que com a ajuda de liberações de verbas e de "argumentos políticos" – sabe Deus quais - destinados a convencer os deputados peessedebistas "recalcitrantes" a retirar os seus nomes da lista de convocação da CPI. E, mais uma vez na história do Brasil, as "elites" souberam costurar suas fissuras às custas da democracia.

Não importa aqui, minimamente, o fato de que parte da “oposição” – talvez, até mesmo a maior parte – quisesse utilizar a CPI como “palanque” eleitoral. Não é essa a discussão. O problema é a perigosa transformação do sentido da atividade política parlamentar: ao contrário de consistir no debate público e transparente para resolver problemas públicos, torna-se refém de uma operação secreta e opaca, fora do controle do próprio parlamento, com o objetivo de proteger interesses privados de homens públicos. A “operação abafa” assumiu, por isso mesmo, uma natureza idêntica à de qualquer ato de corrupção, mesmo que as verbas “liberadas” não tenham ido parar nos bolsos dos deputados que resolveram retirar os seus nomes da lista.

Ao referir-se à “operação abafa”, em entrevista a um jornal carioca, o professor e filósofo José Arthur Gianotti afirmou que “moral e política não se confundem”, o que é apenas uma outra forma de defender o antigo aforismo segundo o qual os fins (políticos) justificam os meios (mesmo que sejam imorais). No caso, a operação teria servido para impedir que a eventual instalação da CPI paralisasse os debates no Congresso sobre outros temas urgentes para o país (incluindo o da reforma tributária). Mas o professor sabe, com certeza, de que não é disso que se trata. No caso específico da “operação abafa”, o argumento que propõe a separação radical entre “política” e “moral” não tem nada a ver com uma discussão acadêmica, teórica, sobre a especificidade de cada uma das atividades humanas e sua relação com a consciência. Colocada no contexto concreto da conjuntura, essa explicação serve como “justificativa” de um ato que, pura e simplesmente, foi tramada nos porões do Planalto e violou a democracia.

Além disso, o professor certamente sabe que bem mais de uma vez, ao longo da história, aconteceram catástrofes quando fins supostamente “nobres”, especialmente a “Razão de Estado”, foram invocados para justificar atos infames. O professor sabe que os fins nunca justificam os meios, ou, dito de outra forma: meios espúrios conduzem a fins de mesma natureza (se não sabe, não deveria ser professor, e muito menos filósofo). Ora, esgrimir um argumento sabendo, de antemão, que ele é falso, consiste – para dizer o mínimo – em cinismo. E aqui reside o grande perigo: quando a “razão cínica” é utilizada como instrumento para justificar atos políticos, está aberto o caminho para o autoritarismo. Não por acaso, se há um traço comum a todos os regimes autoritários – de esquerda e de direita – é o uso pleno e abundante da “razão cínica”.

A “operação abafa” revelou a natureza extremamente autoritária do governo FHC. É o autoritarismo travestido de “democracia”, a farsa apresentada como “debate”, a vontade de poder do governante central modulada pelo discurso do “bom senso” e pelos supostos “interesses da nação”. Nada de novo, tampouco, quando se trata de um Poder Executivo que, por meio de milhares de “medidas provisórias”, acaba produzindo mais leis do que o próprio Poder Legislativo. Só que o Brasil não é a Suíça. Houvesse no país uma situação de pleno emprego, de abastança e bem-estar social, a falência do Parlamento ainda poderia ser percebida com indiferença. No quadro de desespero em que vive hoje boa parte da população, o discurso cínico torna-se uma boa receita para produzir desespero, frustração e explosões por parte de quem já não agüenta mais esperar.

Pior ainda: a população está sendo permanentemente provocada por um cruel jogo de encenações políticas que nunca cumpre a justiça que sempre promete. Agora, é a vez do processo de cassação dos mandatos dos senadores ACM e Arruda, aberto quando o ar ainda estava infestado pelo cheiro podre da “operação abafa”. Novamente, cria-se a sensação de que “desta vez, vai”. Uma nova frustração de expectativas, às vésperas do “apagão” e no contexto de uma nova crise internacional da economia joga muito mais lenha na fogueira, se não for o suficiente para provocar uma grande explosão.

A “razão cínica” saberá responsabilizar os “agitadores”, os “oportunistas da oposição”, o MST, Satanás e seus seguidores, sempre que a revolta da população se manifestar nas ruas. Professores para isso não faltam.




 

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