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Idéias - José Arbex Jr.


  13/6/2005  A nova corrida armamentista

José Arbex Jr.
Geórgia (novembro, 2003), Ucrânia (novembro, 2004), Quirguistão (março, 2005) e, mais recentemente, em maio, Uzbequistão: um a um, caem ou sofrem sérios desafios todos os governos dos países integrantes da Comunidade de Estados Independentes (CEI), formada após o fim da União Soviética, em 1991. Em todos os casos, os movimentos de oposição reclamavam eleições livres, democracia e eram, em grande parte, financiados por organizações não governamentais e fundações estadunidenses. É fácil supor, portanto, que Washington promove a subversão de regimes considerados hostis e situados na “esfera de influência” da Rússia, como fez tantas vezes no passado, em todas as partes do planeta. Mas, desta vez, a questão é mais complicada: os governos que caíram eram aliados, e não adversários da Casa Branca.

Eduard Shevardnadze, que chefiava o governo deposto da Geórgia, não era nenhum socialista. Ao contrário, durante a Perestroika promovida por Mikhail Gorbatchov, representava a ala mais liberal e simpática ao capitalismo no antigo governo soviético. Coube a ele a iniciativa de abrir a região do Cáucaso (Geórgia, Armênia e Azerbaijão) para “assessores militares” estadunidenses. Ascar Acaiev, deposto no Quirguistão, permitiu a instalação de bases militares dos Estados Unidos em seu país. Leonid Kuchma, o perdedor na Ucrânia, foi eleito, em 2004, com uma plataforma de maior aproximação com os Estados Unidos e, a pedido de George Bush, enviou tropas ao Iraque. Islam Karimov, presidente do Uzbequistão, desafiado por grandes manifestações de rua nas primeiras semanas de maio, é considerado um quase representante da Casa Branca na Ásia Central.

Como explicar, então, o comportamento aparentemente contraditório do governo Bush?

A explicação radica no amadurecimento da doutrina da “guerra preventiva”, formulada pela equipe neoconservadora que inspira a estratégia de política externa da Casa Branca, e publicamente anunciada por Bush, logo após o atentado de 11 de setembro de 2001. A “guerra preventiva” – conceito caro a Adolf Hitler – abriu aos Estados Unidos a possibilidade de atacar qualquer país, região ou grupo considerado uma ameaça potencial à segurança nacional estadunidense, especialmente aqueles integrantes do famoso “eixo do mal” (Irã, Síria, Coréia do Norte, Cuba e Iraque e Afeganistão antes da invasão).

Esse conceito foi superado por outro, bem mais agressivo e abrangente: o de “dominação militar global”, discretamente anunciado pelo Pentágono, em março de 2005. A nova estratégia de política externa da Casa Branca passou quase que completamente despercebid pela mídia, observa o professor canadense Michel Chossudovsky (), exceto por uma pequena nota dada pelo Wall Street Journal, um dos porta-vozes do pensamento neo-conservador.

O documento atribui, explicitamente, aos Estados Unidos, um mandato militar global, isto é, o direito de agir militarmente mesmo em situações onde não ocorram guerras e conflitos. E mais: a Casa Branca concede a si própria o direito de promover operações militares dirigidas contra países não hostis aos Estados Unidos, mas considerados estratégicos do ponto de vista de seus interesses. Como explica o Wall Street Journal (edição de 11 de março de 2005):

“Essencialmente, o documento expressa a convicção de que os Estados Unidos estão engajados numa luta global contínua que se estende para muito além de campos de batalha específicos, como o Iraque e o Afeganistão. A ação militar passa a ser vista de uma forma muito mais positiva, focada na mudança do mundo e não apenas em resposta a conflitos, como a eventualidade de um ataque da Coréia do Norte à Coréia do Sul, assim assumindo uma importância maior em países que não estão em litígio com os Estados Unidos.”

Ainda segundo o WSJ, o documento trata de quatro tipos de problemas centrais, que devem ser atacados por forças especialmente treinadas, nenhum deles envolvendo confrontações militares tradicionais: “Construção de parcerias para derrotar ameaças terroristas domésticas; defesa do país, incluindo ataques contra grupos terroristas que planejam atentados; influenciar as escolhas de países que se encontrem em situação de ter que optar por alguma decisão estratégica, como a China e a Rússia; impedir a aquisição de armas de destruição em massa por Estados hostis e grupos terroristas.”

Não basta, portanto, a um governo qualquer proclamar suas juras de amor a Washington. Além disso, ele deve provar-se politicamente capacitado a integrar-se ao processo de “mudança do mundo” nos termos postos pela Casa Branca. Caso não esteja à altura da tarefa, não importa o motivo, será derrubado pelos meios considerados mais convenientes por Washington, incluindo financiamento de grupos de oposição, treinamento de mercenários e, se necessário, intervenção direta (o dramático aumento de verbas destinadas a financiar publicações e a atividade da oposição em Cuba, aprovada em maio de 2004 pelo Congresso dos Estados Unidos, é um bom exemplo disso). O importante é que os governos façam sempre a “opção estratégica” mais “correta”.

Torna-se compreensível, nesse quadro, a derrubada dos governos aliados mas “instáveis” dos países integrantes da CEI. A Rússia nunca deixou de ser considerada uma rival pelos Estados Unidos, especialmente por sua localização geo-estratégia, no coração da Eurásia. Desde 1992, o stablishment estadunidense proclamou sua intenção de isolar a Rússia e impedir sua reconstrução como potência euro-asiática. Por isso, torna-se necessário garantir a posse de governos “estáveis” nos países que formam sua antiga “esfera de influência”, com o objetivo de criar um “cordão sanitário”.

A nova doutrina prevê também que Washington deve “dissuadir” a Rússia e a China, abertamente consideradas potências rivais, a abandonar qualquer pretensão de competir militarmente com os Estados Unidos. Com esse fim, a indústria bélica deve constituir um poderio tão esmagador, que tornaria ridículo sequer alimentar a idéia de um enfrentamento (este é o fundamento doutrinário do gigantesco orçamento militar dos Estados Unidos, que em 2005 atingiu uma cifra equiparável ao PIB brasileiro).

O tratamento dispensado à União Européia é um pouco mais sutil, pois, em tese, os europeus são considerados aliados. Ainda assim, é óbvio que existe uma disputa, movida principalmente contra o imperialismo franco-britânico, explicitamente demonstrada durante as preparações da invasão do Iraque (jamais aprovada por Paris e Berlim). Concretamente, delineia-se o eixo integrado por Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Austrália e, subsidiariamente, Israel, contra a UE e as outras potências rivais. O principal foco é a Eurásia (o que não exclui, obviamente, as outras partes do planeta, incluindo a Amazônia Internacional).

Essa disputa não declarada explica a ansiedade dos governos alemão e francês por aprovar a nova constituição européia, contra a posição dos movimentos de esquerda: trata-se de preparar a UE para entrar de solo na nova corrida armamentista com os Estados Unidos. E explica também a euforia com o lançamento, em 19 de janeiro, do super-jumbo A380, um avião gigante com capacidade para 555 passageiros, fabricado por um consórcio europeu, com o objetivo de competir com a estadunidense Boeing. Os mais importantes líderes europeus participaram da cerimônia que marcou o primeiro vôo do avião, e enalteceram a capacitação tecnológica da Europa.

O resultado disso tudo não poderia ser mais nefasto. Os Estados Unidos promovem uma nova corrida armamentista, envolvendo cifras e capacidade de destruição muito superiores às verificadas à época da Guerra Fria. Para manter os investimentos militares, os Estados terão que cortar ainda mais os gastos com as áreas sociais; terão que acentuar as características repressivas, policiais e militares, com o objetivo de reprimir movimentos e manifestações populares; por fim, terão que atacar de maneira cada vez mais radical e profunda qualquer vestígio de democracia.

Receita de grandes explosões. O preço, todos sabemos quem paga.

 

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