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Relações Internacionais - Demétrio Magnoli


  6/6/2005  A desconstrução da Europa

Demétrio Magnoli

“O confronto entre Leste e Ocidente era uma ‘cola’ que nos unia. Agora, alguma outra coisa tem de substituir a força coesiva que emanava da ameaça comum.” (Kurt Biedenkopf, governador do estado alemão da Saxônia, 1993). O projeto europeu deitou raízes no solo geopolítico da Guerra Fria. A aliança franco-alemã era o motor da unificação européia. O temor comum do “expansionismo soviético” era a “cola” que unia França e Alemanha. O grande non francês ao tratado constitucional revela a falência desse motor.
Os franceses votaram na nação, contra a Europa. Não há surpresa nisso: ao contrário do que reza a lenda, o projeto europeu nasceu e se consolidou sob o influxo das motivações nacionalistas. O Plano Schuman, de 1950, que integrou a siderurgia franco-alemã na Comunidade Européia do Carvão e do Aço (Ceca), foi o instrumento da França para prender a Alemanha na teia da Europa. O método da fusão de soberanias, que gerou o mercado comum, servia ao empreendimento americano de “invenção” de uma Europa Ocidental anti-soviética mas, sobretudo, proporcionava à França a segurança de saber que o destino da Alemanha estava enlaçado ao seu.
O projeto pós-nacional da integração européia repousa sobre o interesse nacional francês. A reunificação da Alemanha, em 1990, ressuscitou o fantasma de uma “Europa alemã”, que freqüenta os pesadelos franceses desde 1871. A solução, negociada entre François Miterrand e Helmut Kohl, foi o Tratado de Maastricht, pelo qual a Alemanha pagava o preço da unidade nacional sacrificando o marco no altar da Europa. O método da fusão de soberanias servia, uma vez mais, a objetivos nacionais: “Toda a Alemanha para Kohl, metade do marco alemão para Miterrand”, na síntese espirituosa da época.
A campanha do referendo francês representou um exercício de interpretação do interesse nacional. Jacques Chirac e os principais líderes socialistas defenderam o tratado constitucional como meio de consolidação de uma Europa-potência, capaz de contrabalançar o poder dos EUA e da China. O argumento esbarrou no ceticismo popular, alimentado pelas divisões européias em torno do Iraque e pela degradação da influência francesa numa União Européia de 25 membros.
Os defensores do non, um arco-íris ideológico estendido entre os dois extremos do espectro e equilibrado sobre o dissidente socialista Laurent Fabius, acusaram o texto constitucional de ameaçar os fundamentos da nação francesa. A sua pregação ressoou entre os trabalhadores e os jovens assustados com o desemprego, a imigração, as reformas trabalhistas e os planos de flexibilização de direitos sociais. Marianne e Joana D’Arc, os símbolos contraditórios da França revolucionária e da França eterna, reconciliaram-se na rejeição ao “atlanticismo”, ao “modelo anglo-saxônico” e a uma “Europa ultra-liberal”.
O empreendimento europeu nasceu de duas guerras totais e da Guerra Fria. Jean Monnet, o genial diplomata francês que elaborou o Plano Schuman, desenhou-o na forma sedutora dos Estados Unidos da Europa. Mas o projeto europeu, formulado pelas elites num tempo de catástrofes, nunca foi mais que um expediente de resgate de Estados arruinados. A Europa carece do estofo que anima as nações: isso é o que os franceses disseram.

 

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