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Idéias
- José Arbex Jr.
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3/4/2005
O espectro do anti-semitismo ameaça o mundo
José Arbex Jr.
A notícia, divulgada pela agência Associated Press, em 23 de janeiro, passou quase despercebida: a partir de março, os Estados Unidos usarão dezoito robôs de um metro de altura e equipados com controle remoto contra os iraquianos. “Ao contrário dos soldados, o robô não requer alimentos, roupas, treinamento, motivação ou pensão. (...) O robô, entretanto, depende do seu operador humano, um soldado que estará à distância estudando as imagens captadas por suas câmeras e acionando os comandos de abrir fogo. De acordo com Bob Quinn, diretor da Foster-Miller, empresa americana que trabalhou com os militares no desenvolvimento do robô, a única diferença para o soldado é que ‘a arma não vai estar pendurada no ombro dele, mas a meia milha (cerca de 750m) de distância’. O ‘robô-soldado’ foi batizado de Swords, um acrônimo de Special Weapons Observation Reconnaissance Detection Systems (Sistemas de Observação Reconhecimento e Detecção para Armas Especiais). (...) Segundo Quinn, há planos de modificar a tela de computador, joysticks e teclados por uma unidade de controle remoto semelhante aos controladores de Gameboy, com óculos de realidade virtual.” (BBC Brasil, na Folha On Line, 23.jan.2005)
Difícil saber o que é mais espantoso: a notícia em si – o uso de robôs contra seres humanos na frente de batalha, no estilo “exterminador do futuro” - ou a apatia com que a informação foi recebida. Como entender a indiferença?
Uma das explicações, genérica, é encontrada numa das poucas frases aproveitáveis de Stalin: “A morte de um ser humano causa impacto, a de um milhão é estatística”. Dezenas de robôs empregados contra milhares de árabes são fatos tecnológicos que produzem estatísticas. Outra explicação, específica, é também muito mais preocupante: está em curso um processo de negação da natureza humana dos árabes. Trata-se do mesmo processo que, em 1991, convenceu a opinião pública mundial de que “ninguém” havia morrido como conseqüência do ataque a Bagdá, quando hoje se sabe que dezenas de milhares morreram (as cifras variam muito, nunca se saberá ao certo), incluindo crianças, mulheres e idosos. O ataque a Bagdá foi transmitido como um vídeo-game, em que as “armas cirúrgicas” de Bush (pai) acertavam precisamente o alvo, sem atingir seres humanos. Mesmo porque não havia ali seres humanos, mas sim árabes, exemplares de uma raça humanóide atrasada e subdesenvolvida (assim como eram tratados negros e índios pelos cristãos europeus).
Como se produz o apagamento da natureza humana dos árabes? O método, relativamente simples, foi ensinado por gente como Adolf Hitler e Joseph Goebbels (no caso, contra os judeus). Primeiro, insiste-se sobre o seu caráter “exótico” (suas mulheres usam véu, seus usos e costumes são “atrasados”, seu Deus é vingativo etc.). Depois, rotula-se: “árabe” e “islâmico” são sinônimos de terrorismo, autoritarismo etc. Multiplica-se essas imagens por mil, dez mil, um milhão, nos telenoticiários, no cinema, nos artigos e livros de “especialistas”, exatamente como propunha Goebbels. Pronto: árabes são mortos por robôs? Ótimo, as máquinas de limpeza eliminaram mais alguns terroristas.
Pode-se argumentar que nada há de novo nisso tudo: o preconceito contra os árabes e o Islã, tão antigo quanto as Cruzadas cristãs, foi um componente fundamental da construção de um suposto “mundo oriental” culturalmente homogêneo, descrito como exótico, sensual, mágico, política e tecnologicamente atrasado, como demonstrou o brilhante pensador palestino Edward Said. Certo. Mas, o grande problema é a transformação de sentimentos latentes em força política ativa e determinante, com a poderosa e vasta utilização de todos os meios de comunicação de massa.
Hollywood apresenta, invariavelmente, árabes e islâmicos como terroristas. Nos telejornais, aplica-se o adjetivo “terrorista” aos iraquianos que lutam contra a ocupação imperialista de seu país, ao passo que os torturadores estadunidenses são tratados como “exceção”. Na Palestina ocupada, cala-se sobre o assassinato diário de crianças e adolescentes por soldados israelenses que utilizam armas de última geração, para não falar do processo de transformação do país em bantustões, enquanto são qualificados como “terroristas” as suas organizações de resistência. No processo de ocupação da escola russa de Beslan, que resultou na morte de centenas de crianças, os meios de comunicação apressaram-se a macaquear que mais da metade dos terroristas era formada por árabes, mas não se retrataram quando se constatou que não havia um único árabe entre eles.
Em contrapartida, nega-se que houve massacres em Faluja (Iraque), Jenin (Palestina) e aldeias do Afeganistão. Cala-se sobre a responsabilidade na Casa Branca no processo que organizou e armou os fundamentalistas muçulmanos. Não causam escândalo afirmações como aquela feita por Madeleine Albright, secretária de Estado de Bill Clinton, ao defender as sanções econômicas contra o Iraque, mesmo quando confrontada ao fato de que elas causaram a morte de pelo menos 500 mil crianças e jovens iraquianas. Os bombardeios de bairros residenciais habitados por populações civis, no Afeganistão, Iraque e Palestina são descritos como ações inevitáveis, provocadas pelas próprias vítimas (que abrigariam, em suas casas, terroristas e arsenais). A mesma mídia que atacava histericamente o “muro da vergonha” entre Alemanhas agora finge ignorar o significado terrível da muralha construída por Ariel Sharon na Palestina ocupada.
A lista de exemplos é interminável, e não apenas nos Estados Unidos e Israel. No começo de dezembro, o governo francês suspendeu a licença de difusão da emissora de televisão libanesa Al Manar, meses após ter proibido o uso de trajes islâmicos em escolas públicas (medida que também foi adotada na Alemanha e outros países europeus). Na Itália, o fascista Berlusconi notabilizou-se por ter proclamado, entre outras coisas, a superioridade da “cultura ocidental” sobre a dos países islâmicos; na Inglaterra, as mentiras do poodle Tony Blair, bem como as medidas excepcionais contra os estrangeiros previstas pela lei anti-terrorismo (finalmente condenada pelo Tribunal Superior inglês) tinham, como endereço, a comunidade árabe e islâmica do país. Mesmo no Brasil, onde vivem cerca de 15 milhões de árabes e descendentes, as comunidades árabe e islâmica da Tríplice Fronteira foram coletivamente colocadas sob suspeita pela Polícia Federal, segundo informam numerosos relatos de moradores daquela região. Grande parte da mídia brasileira segue o padrão internacional de preconceito, com destaque para o panfleto semanal Veja.
Curiosamente, muitos daqueles que, com razão, denunciam ataques a sinagogas e o anti-semitismo no mundo contemporâneo referem-se, especificamente, aos judeus, mas nada dizem da campanha contra os árabes, também semitas e compartilhando com os judeus uma história milenar. Isso demonstra a existência de um processo particularmente perverso de diferenciação entre semitas de primeira classe (os judeus, particularmente os de origem ocidental) e os de segunda classe (os árabes), como nota Paulo Daniel Farah, em sua tese de doutorado pela Universidade de São Paulo. Tornou-se comum o fato de que campanhas, abaixo-assinados, livros e artigos que denunciam o anti-semitismo não mencionem sequer meia palavra sobre os ataques ao mundo árabe e islâmico.
Nunca será demais alertar para o perigo que isso tudo representa. Campanhas racistas liberam forças incontroláveis, capazes de envolver e arrastar até mesmo os espíritos mais esclarecidos. Como fabricação política, cultural e social, o racismo apela a sentimentos, formas de percepção e condicionamentos que não passam pela racionalidade ou pela cultura formal, desperta sentimentos desagregadores do tecido social e produz comportamentos cegos. Só isso pode explicar o fato de que a maioria da nação germânica, herdeira de sólida tradição cultural (basta enumerar Kant, Goethe, Schiller, Bach e Hegel, entre tantos outros) acreditou nas monstruosas idiotices sobre os judeus e a suposta “superioridade da raça ariana” proclamadas por um agitador vulgar.
Por outro lado, seria uma louca ingenuidade imaginar que 1,5 bilhão de árabes e islâmicos suportem indefinidamente os ataques contínuos às suas crianças e famílias, à sua crença, história e cultura. Washington, sobretudo, ameaça conseguir a proeza nada pequena de inventar, construir e promover a famosa “guerra de civilizações” preconizada pelo farsante Samuel Huttington. Bush júnior confere uma sinistra atualidade ao trágico diagnóstico feito por Theodor Adorno: depois de Auschwitz tornou-se impossível fazer poesia. Seis décadas depois da libertação dos campos de extermínio nazistas, o espectro da punição coletiva novamente ameaça os semitas e assombra o mundo.
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