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Idéias - José Arbex Jr.


  28/2/2005  O fantasma da liberdade

José Arbex Jr.
Ele convoca os povos do mundo a lutar contra a tirania e pela liberdade, a única “força na história capaz de pôr fim ao reino do ódio e do ressentimento, de expor as pretensões dos tiranos e recompensar as esperanças das pessoas decentes e tolerantes”; condena as “ideologias que alimentam o ódio”; afirma que a sobrevivência da liberdade em seu próprio país “depende cada vez mais do sucesso da liberdade em outras terras”; condiciona a possibilidade da paz no mundo à “expansão da liberdade em todo o planeta”; propõe a interlocução pacífica entre as nações, pois “a liberdade, por sua natureza, precisa ser escolhida e defendida por cidadãos e sustentada pelo domínio da lei e com plena proteção às minorias”. Em nome desses ideais, “encorajaremos as reformas de outros governos deixando claro que o sucesso em nossas relações requererá tratamento decente do povo de cada país por seus governantes. A crença na dignidade humana orientará nossas políticas, mas os direitos precisam ser mais que relutantes concessões de parte dos ditadores; eles são garantidos pela liberdade de dissensão e pela participação dos governados. Em longo prazo, não existe justiça sem liberdade e não pode haver direitos humanos sem liberdade humana.”

Nem Lênin nem Che Guevara: trata-se do discurso de posse do segundo mandato de George Bush júnior, proferido quinta-feira, 20 de janeiro. De um total de 2.140 palavras, Bush usou 44 vezes “liberdade” e 5 vezes “tirania”. Nada falou sobre “terrorismo” nem “armas de destruição em massa”. É um discurso de alguém que se situa na vanguarda dos acontecimentos. Bush promete nada menos do que uma revolução nas relações internacionais e nada indica que esteja blefando. Muito ao contrário. Seu discurso guarda uma extraordinária coerência, nos planos ideológico e estratégico, com a linha neoconservadora por ele implementada na Casa Branca, e elucida o sentido da convocação para o poder de seu círculo mais íntimo de amigos, incluindo Condoleeza Rice, promovida ao cargo de secretário de Estado. Trata-se de mobilizar a opinião pública com uma retórica de força, ignorar estruturas do direito internacional construídas ao longo das últimas décadas e de dar a si próprio o poder de polícia do mundo, legitimado em palavras de ordem de valor tão genérico e universal como “viva a liberdade” e “abaixo a tirania”. É, precisamente, a mesma lógica que determinou o bombardeio do Afeganistão e a invasão do Iraque.

Bush reivindica para si a mais radical tradição democrática de seu país, bem como reafirma a convicção de que Washington é portador do “destino manifesto” de liderar as demais nações. “Os interesses vitais dos Estados Unidos e as nossas mais profundas crenças agora se confundem. Desde o dia de nossa fundação, proclamamos que cada homem e cada mulher nesta terra é dotado de direitos e dignidade e valor sem par, porque foram feitos à imagem do criador do céu e da terra. Ao longo de muitas gerações, temos proclamado o imperativo do autogoverno, porque ninguém está apto a ser mestre e ninguém merece ser escravo. Levar adiante esses ideais é a missão que gerou nossa nação. É a honrosa realização de nossos ancestrais. Agora, tornou-se requisito urgente para a segurança de nossa nação e uma tarefa essencial de nossa era.” Ironicamente, nenhum outro presidente atacou tão profundamente as instituições democráticas estadunidenses. Em nome da liberdade, Bush confere poderes extraordinários à polícia, autoriza o uso da tortura, ignora as liberdades civis.

O mesmo discurso libertário – e isso é o mais importante, do ponto de vista da política internacional – é utilizado para justificar, previamente, eventuais intervenções da Casa Branca em qualquer parte do planeta: “Assim, é política dos Estados Unidos procurar e apoiar o crescimento dos movimentos e instituições democráticos em todos os países e culturas, com o objetivo último de pôr fim à tirania em todo o mundo.
Essa tarefa não deve ser realizada primordialmente pela força das armas, ainda que pretendamos defender nossa terra e os nossos amigos com o uso de armas, quando necessário. (...) Nosso objetivo é ajudar os demais a encontrar suas vozes, conquistar suas liberdade e agirem a seu modo. O grande objetivo de pôr fim à tirania é um trabalho concentrado que vai levar gerações. (...) Persistiremos em apresentar com clareza a escolha que cada governante e cada país precisa enfrentar: a escolha moral entre a opressão, que é sempre errada, e a liberdade, que é eternamente certa.”

Em um dos trechos mais significativos do discurso, Bush praticamente convoca à rebelião as forças consideradas aliadas, mas em situação de oposição aos seus respectivos governos: “Todos os que vivem sob tirania e desespero devem saber que os Estados Unidos não ignorarão sua opressão ou perdoarão os opressores. Quando vocês se erguerem pela liberdade, nos ergueremos com vocês. Os reformistas democráticos que enfrentam repressão, prisão ou exílio devem estar cientes: os Estados Unidos sabem quem vocês são, e os vê como futuros líderes de seus países livres. Os líderes de regimes ilegais devem saber que continuamos a acreditar no que Abraham Lincoln acreditava: ‘Aqueles que negam liberdade aos outros não a merecem para si; e, sob o domínio de um Deus justo, não poderão mantê-la’. Os líderes de governos com antigos hábitos de controle devem saber: para servir aos seus povos, precisam aprender a confiar neles. Comecem essa jornada de progresso e justiça, e os Estados Unidos caminharão ao seu lado.”

Claro que entre os “reformistas democráticos” contam gente como o megaempresário venezuelano Gustavo Cisneros, a máfia cubana exilada em Miami, políticos e empresários do Oriente Médio e da Ásia que “colaboram” com a CIA, à espera de uma oportunidade para serem empossados em cargos de direção em seu próprio país – como aconteceu com Hamid Karzai (Afeganistão) e Iyad Alawi (Iraque). E entre os “ditadores” estão Fidel Castro, Hugo Chávez e todo e qualquer outro regime que não aceite o mandato da cartilha protestante fundamentalista. Claro, também, que “liberdade” e “justiça” são, antes de mais nada, a liberdade e a justiça de mercado, em nome das quais Bush cortou ainda mais radicalmente os impostos cobrados aos ricos, acentuou as características especulativas da economia globalizada e subordinou a sua política externa à geoeconomia do petróleo e outras fontes de energia.

Bush não apenas fala sério, como se mostra disposto a mobilizar a maior potência militar e econômica do planeta para fazer valer a sua plataforma: “Peço que nossos cidadãos mais jovens acreditem no testemunho de seus olhos. Vocês viram o dever e o orgulho nos rostos determinados de nossos soldados [em missão no Iraque]. Vocês viram que a vida é frágil, o mal é real, e a coragem triunfa. Façam a escolha de servir a uma causa maior do que suas necessidades, maior do que vocês e, nos dias que vivemos, vocês não só acrescentarão valor ao seu país mas também melhorarão seu caráter. Os Estados Unidos precisam de idealismo e coragem, porque temos tarefas essenciais a realizar em casa, o trabalho inacabado da liberdade.”

É sempre arriscado fazer previsões, ainda mais no terreno pantanoso da política, mas aqui vai uma: o discurso de posse de Bush está destinado a ser considerado um dos mais importantes entre todos os pronunciados na Casa Branca. Ele é uma plataforma estratégica de mobilização permanente, muito ao estilo de outros regimes totalitários que se enxergam como força motriz da revolução mundial, em nome de valores supostamente universais. Este é, aliás, um traço fundamental do totalitarismo, como mostra Hannah Arendt. No momento em que o mundo comemora o 60º aniversário da libertação de Auschwitz, o “fantasma da liberdade” evocado por Bush anuncia futuras catástrofes.

 

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