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Relações Internacionais - Demétrio Magnoli


  13/9/2004  Segredos russos

Demétrio Magnoli

Na Espanha, diante dos atentados terroristas de março, em Madri, o governo conservador de José Maria Aznar escolheu deliberadamente o caminho da mentira. Contra todas as evidências, apontou o dedo acusador para o grupo basco ETA, ocultando a culpa da Al Qaeda. O interesse do governo era desvincular a tragédia da sua política de apoio incondicional à Doutrina Bush. A mídia espanhola, vergonhosamente, repercutiu a barragem governamental de contra-informação mas toda a operação desmoronou em questão de dias. Nas urnas, o povo repudiou a mentira e a adesão espanhola à guerra de Bush no Iraque, elegendo o candidato de oposição e removendo o país da coalizão militar liderada por Washington.
A mentira deliberada é, também, a opção do governo russo de Vladimir Putin, confrontado com a ação terrorista em Beslan. Ironicamente, dessa vez, o dedo acusador aponta na direção da Al Qaeda, pois interessa a Moscou apagar o contexto interno no qual se insere a tragédia. A guerra na Chechênia virtualmente inexiste na mídia russa e o discurso oficial sustenta que o separatismo foi derrotado em definitivo.
A lista de mentiras de Putin não deve ser subestimada. No ponto de partida, Moscou “informou” que os reféns eram cerca de três centenas. Essa versão foi desmentida pelas fontes oficiais apenas depois da consumação da tragédia. As causas do desenlace permanecem recobertas pelo manto do segredo. O governo russo inicialmente acusou os terroristas de abrirem fogo contra reféns em fuga. Depois que essa versão desmoronou, seu lugar foi ocupado pela história fantástica de uma ação armada de pais e parentes contra os seqüestradores entrincheirados na escola cercada pelas forças de segurança. Já circula uma versão oficiosa, que serviria como recurso de última instância, baseada na admissão de que as forças de segurança obedeciam a diferentes comandos e uma ordem de invasão teria precipitado a tragédia.
A Rússia tem um triste histórico recente de ações desastrosas de resgate de reféns, com saldos de centenas de mortos, cujos detalhes permanecem envoltos em mistério. Nesse caso de Beslan, a verdade pode ser simples e absurda: uma ação premeditada de uma força paralela, uma “terceira força” sob comando direto mas secreto de Moscou. Quando Putin se recusa a permitir um inquérito público sobre o que aconteceu na escola, certamente está engajado em esconder algo muito relevante.
Entre as mentiras de Moscou, a primeira e a mais significativa foi a atribuição do seqüestro a militantes “árabes”. Isso serviu de pretexto para a convocação de uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, destinada a soldar a reação russa ao contexto maior da “guerra ao terror” de Bush. Tratava-se de evitar o debate sobre a política russa na Chechênia, que suprime as lideranças moderadas locais, dinamita as pontes de diálogo e promove uma bárbara e sangrenta repressão.destinada a legitimar a posição do governo russo. Putin insiste em conservar parte da farsa, mesmo diante de evidências definitivas de que os autores do seqüestro foram chechenos, ossétios e ingushétios – ou seja, militantes russos envolvidos na guerra da Chechênia.
Não é evidente que o presidente russo tenha sucesso. As imensas manifestações contra o terror em Moscou ocultam temporariamente a percepção pública, cada vez mais difundida, de que há algo de muito errado na política para a Chechênia. Na Ossétia do Norte, onde ocorreu a tragédia, a revolta contra Putin é quase tão intensa quanto o ódio contra os seqüestradores. Os líderes europeus, distinguindo-se mais uma vez de Washington, solicitaram formalmente explicações do governo russo sobre o desenlace desastroso e reiteraram a visão de que é preciso explorar saídas políticas para o impasse na Chechênia.
A nota dissonante veio da Casa Branca. Durante o seqüestro, Bush emitiu comunicado de apoio incondicional a Putin que situava os acontecimentos de Beslan na moldura da “guerra ao terror”. Donald Rumsfeld, o secretário da Defesa, ignorando as declarações emanadas do Departamento de Estado, continua a se referir à tragédia sem jamais mencionar a palavra “Chechênia”. Evidentemente, a contribuição de Washington para a operação russa de contra-informação tem um olho voltado à campanha presidencial nos Estados Unidos.

Demétrio Magnoli, 45, é doutor em geografia humana pela USP e editor de Mundo – Geografia e Política Internacional.

 

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