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Idéias - José Arbex Jr.


  23/8/2004  Fiasco põe neocons de Bush na berlinda

José Arbex Jr.

A recente manobra estratégica feito pelos Estados Unidos no Iraque (isto é, a suposta “devolução da soberania” aos iraquianos, como se a soberania de uma nação pudesse ser negociada) é resultado de uma situação complicada e contraditória. De um lado, dá prosseguimento a um plano elaborado com antecedência, cujo objetivo era empossar um governo iraquiano fantoche (o novo primeiro-ministro Iyad Alawi tem notórios vínculos com a CIA), capaz de promover a “guerra suja” contra a resistência antiimperialista, devidamente apoiado pelas tropas de ocupação estadunidenses. De outro lado, marca uma derrota política e moral da Casa Branca, dadas as circunstâncias: isolamento internacional, denúncias de prática de tortura pelas tropas de Tio Sam, desmascaramento das mentiras que deram pretexto à invasão do Iraque. No âmbito do Oriente Médio, a invasão do Iraque produziu um desastre para Washington: acelerou a crise do governo saudita (tradicional aliado da Casa Branca), elevou extraordinariamente a tensão na entre Israel e Palestina e alimentou as correntes fundamentalistas de todos os lados. E, talvez mais importante do que tudo isso, o fiasco de George Bush no Iraque colocou os neoconservadores (neocons) na berlinda.

O neoconservadorismo, ideologia dominante na Casa Branca de Bush, propõe uma espécie de síntese entre valores éticos e morais extraídos da religião judaico – cristã e a consolidação prática da idéia de que os Estados Unidos são portadores do “destino manifesto” de serem a primeira entre todas as nações do planeta (noção que presidiu a própria formação do país, no século 18). Ele é fortemente inspirado na obra de Leo Strauss, matemático e filósofo alemão que, em 1932, foi forçado a emigrar para os Estados Unidos, para escapar à perseguição nazista dos judeus, onde passou a lecionar em várias universidades até morrer, em 1973. Strauss desprezava a concepção moderna de democracia e de direitos individuais; elogiava a “sobriedade” e “largueza de visão” do imperialismo britânico; defendia o direito de um dirigente político mentir para o público, em nome da razão de Estado; e acreditava na possibilidade de existência do “bom César”, isto é, na hipótese de que nem todo império seja sinônimo de tirania. Strauss tirava suas conclusões da debilidade política da república de Weimar, cujas oscilações e incapacidade de governar abriram espaço para o surgimento e implantação do nazismo. Ao contrário, porém, de concluir que a única solução seria o fortalecimento da democracia e da participação popular, optou por defender o governo de uma elite supostamente esclarecida.

Um dos mais influentes discípulos de Strauss, responsável em grande parte pela difusão de suas idéias é o professor, editor de livros e jornalista Irving Kristol. Hoje, boa parte da elite estadunidense é neoconservadora ou é simpática às suas idéias, incluindo professores, juízes, estrategistas políticos e intelectuais, como Paul Wolfowitz (vice-secretário da Defesa de George Bush e um dos principais articuladores da estratégia de política externa da Casa Branca), Clarence Thomas (da suprema corte) e o professor Allan Bloom, (autor do livro The Closing of the American Mind, que responsabiliza a democracia liberal pela suposta “decadência cultural” estadunidense). Entre os políticos neocons estão o vice-presidente Dick Cheney e os secretários de Estado Donald Rumsfeld (Defesa), John Ashcroft (Justiça). Nas palavras de Kristol, “a tarefa histórica e os propósitos politicos do neoconservadorismo podem ser definidos da seguinte maneira: converter o Partido Republicano e o conservadorismo americano em geral, contra a sua própria vontade, em um novo tipo de política conservadora, adequada ao governo de uma democracia moderna. Não há dúvida de que essa nova perspectiva conservadora é especificamente americana.” (“The Neoconservative Persuasion”, Weekly Standard, 25.ago.2003, encontrada no endereço http://weeklystandard.com/Content/Public/Articles/000/000/003/000tzmlw.asp, 25.ago.03) O pequeno trecho demonstra com notável clareza a concepção elitista e arrogante dos neocons. Trata-se de impor aos antigos conservadores, “contra a sua própria vontade”, uma nova noção de valores e estratégias. Não é uma mera coincidência as semelhanças com a concepção nazista de formação de um movimento de “homens fortes” que arrasta os indecisos e destrói os opositores.

A diferença básica entre neocons e conservadores é precisamente essa. Os “conservadores”, isto é, os presidentes republicanos do passado e seus apoiadores, agiram dentro de certos limites impostos por uma noção de ordem. Mesmo o presidente George Bush (pai), por exemplo, não ousou ignorar solenemente a Organização das Nações Unidas (ONU) e transformar o ataque a Bagdá, em 1991, em pura e simples ocupação colonial (hipótese defendida, na época, por Paul Wolfowitz). Dentro dos Estados Unidos, mesmo os presidentes mais reacionários e conservadores, como Richard Nixon, jamais tentaram algo como a promulgação do Decreto Patriótico de 2001, que, na prática, com o pretexto de combater o terrorismo, suspendeu a vigência dos direitos civis e colocou potencialmente sob suspeita o conjunto dos cidadãos estadunidenses. Os neocons não reconhecem limites. O movimento que tudo arrasta traz no seu bojo a sua própria justificativa.

Na política externa, a plataforma neoconservadora foi definida, em 1992, por Wolfowitz, e pode ser resumida em três grandes pontos: o primeiro objetivo dos Estados Unidos deve ser o de impedir o surgimento de qualquer superpotência rival; deve defender os interesses e promover os valores estadunidenses; se necessário, o país deve estar preparado para assumir adotar ações unilaterais. Estes pontos fazem parte de um documento de 46 páginas que circulou entre as altas esferas do Pentágono, antes de “vazar” para o New York Times. Nota-se aí a defesa das táticas “preventivas” (desse ponto de vista, ocupar o Afeganistão e o Iraque tem, como justificativa, fazer um “cordão sanitário” em volta da China e da Rússia na Ásia Central, assim impedindo o surgimento de uma potência rival). No plano da política doméstica, outra diferença notável entre neocons e conservadores é o cuidado com a guerra ideológica e cultural. Não foi por acaso que George Bush (filho) dedicou uma grande energia à recente condenação dos casamentos entre parceiros do mesmo sexo, mesmo que isso lhe custe votos nas eleições presidenciais. Novamente, Kristol explica:

“O permanente declínio de nossa cultura democrática, afundando em novos níveis de vulgaridade, une neocons ao conservadores tradicionais – mas não aos conservadores liberais, que são conservadores em economia mas não se importam com a cultura. O resultado é uma surpreendente aliança entre neocons e uma parcela razoável de intelectuais secularistas e religiosos tradicionalistas. Eles estão juntos no que se refere à qualidade da educação, relações entre igreja e Estado, regulamentação da pornografia e outros assuntos que merecem a atenção do Estado. E já que o partido Republicano tem agora uma substancial base de apoio entre os religiosos, isso dá aos neocons alguma influência e até poder. Porque o conservadorismo religioso é tão frágil na Europa, o seu potencial neoconservador é proporcionalmente mais fraco.” Não causa espanto, assim, que Bush tenha pedido aos administradores do sistema nacional de parques que exiba a versão religiosa da criação do universo ao lado da apresentada pela história natural (v. ). Ironicamente, Bush acusa os seus adversários de “fanatismo” e de “intransigência religiosa”, justamente as principais características de seu governo. A vocação neoconservadora é implantar um regime de tipo Talibã nos Estados Unidos.

As iniciativas assumidas pela Casa Branca após o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 (particulamente, invasão do Afeganistão e Iraque, carta branca para os “ataques preventivos” e chacinas contínuas promovidas por Ariel Sharon na Palestina) pareciam provar a invencibilidade da máquina de guerra neoconservadora e a inutilidade das instâncias internacionais multilaterais. Mas o fiasco no Iraque – e, por extensão, no Oriente Médio - colocou um claro limite ao movimento que tudo arrasta. Assim como, no plano interno, o tremendo sucesso de público e bilheteria do novo documentário de Michael Moore, Fahrenheit 9/11, é um sintoma de profundo desgaste de Bush e sua equipe.

Nem tudo é má notícia.

 

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