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Idéias
- José Arbex Jr.
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9/2/2004
Bush impõe adesão de Quito ao Plano Colômbia
José Arbex Jr.
No final do ano, o governo equatoriano anunciou a captura, em Quito, de Ricardo Palmera, ou Simón Trinidad, uma dos mais importantes integrantes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). A notícia, espetacular por si, é também um primeiro resultado da ação conjunta dos serviços de informação dos Estados Unidos, Equador e Colômbia. Mas o mais preocupante, avalia o jornalista Kintto Lucas, do quinzenário equatoriano Tintají, é o fato de que a prisão anuncia uma nova fase do Plano Colômbia, mediante o envolvimento direto do governo equatoriano no conflito. A regionalização do Plano Colômbia caminha a passos acelerados, com a integração do Equador às operações de repressão às Farc.
Não se trata de simples dedução. Coube ao ministro da Defesa da Colômbia, Jorge Alberto Uribe, declarar abertamente que a captura de Ricardo Palmera foi “resultado de uma ação exemplar de nossas forças, policía e exército, com o apoio vital do governo e da polícia do Equador, assim como do governo estadunidense”. Marty Estell, relações públicas da embaixada dos Estados Unidos no Equador, citou a prisão e subseqüente deportação de Palmera como “um exemplo da cooperação entre a polícia do Equador e da Colômbia, uma operação conjunta que funcionou perfeitamente”, “um sucesso na campanha contra o terrorismo regional e um exemplo do que os países podem fazer para promover a estabilidade regional”. Finalmente, os presidentes da Colômbia (Álvaro Uribe) e do Equador (Lucio Gutiérrez) também manifestaram publicamente sua satisfação.
A única voz oficial destoante foi a do ministro equatoriano da Defesa, Raúl Baca, que negou a existência de qualquer operação conjunta. Segundo Baca, Palmera foi preso quase que por acaso: “A captura foi realizada pela polícia nacional como um ato absolutamente normal de controle de imigração na cidade de Quito. O cidadão colombiano (Palmera) foi conduzido à delegacia de polícia, por não portar a documentação exigida para sua permanência em Quito”. Trata-se de um detalhe importante, por refletir tensões dentro do governo e das Forças Armadas. Os setores nacionalistas do Exército equatoriano resistem à estratégia estadunidense de regionalização do Plano Colômbia. Aparentemente, a prisão de Palmera aconteceu com a colaboração da polícia equatoriana, mas sem a participação direta dos militares. O Equador enfrenta uma séria crise política e social, que ameaça produzir no país uma situação fora de qualquer controle, como aconteceu na Bolívia, em outubro passado, quando o presidente Gonzalo Sánchez de Lozada foi defenestrado por uma rebelião indígena nacional, ou como aconteceu na Argentina, em dezembro de 2001.
Não por acaso, no início de dezembro – isto é, um mês antes da prisão de Palmera – Lucio Gutiérrez recebeu a visita de Otto Reich, o famigerado assessor do presidente George Bush para a América Latina, conhecido por seu envolvimento direto nas operações de desestabilização do governo sandinista, nos anos 80, na tentativa frustrada de golpe contra o presidente Hugo Chávez, em 1992, e nas articulações políticas contra o regime cubano. Reich fez a “visita” justamente num momento de grande fragilidade de Gutiérrez, quando pipocavam denúncias, graças a investigações realizadas pelos agentes do DEA (agência estadunidense de combate ao tráfico de drogas), de que parte de sua campanha eleitoral havia sido financiada pelos narcodólares. Outra “coincidência” apontada por Kintto Lucas: o escândalo envolvendo Gutiérrez estourou logo depois que o Congresso equatoriano anulou um acordo feito pelo governo que permitiria ao Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos instalar bases de treinamento no país.
A Casa Branca não está disposta a tolerar que a crise política equatoriana atrapalhe os seus planos de regionalização do Plano Colômbia. Ao contrário, as pressões aumentam, e foi este o sentido da “visita” de Reich. Os generais do Comando Sul exigem abertamente a participação direta de tropas do Equador no combate à guerrilha colombiana. A estratégia estadunidense, batizada de Iniciativa Andina, consiste em cercar e empurrar os guerrilheiros das Farc para a dentro do Equador, onde elas teriam que enfrentar as tropas locais. Além disso, as populações indígenas e camponesas das províncias de Carchi, Sucumbios e Esmeraldas, na fronteira entre Equador e Colômbia, continuo sendo bombardeadas com o “gás verde” (fusarium oxisporum), um fungo transgênico extremamente tóxico para o ser humano, fornecido pela transnacional Monsanto. O pretexto é destruir as folhas de coca, mas na prática o que se consegue é a expulsão das populações locais. Qualquer semelhança com a prática dos Estados Unidos no Vietnã não é mera coincidência.
Mas não é só. Em Manta, área litorânea, os Estados Unidos estão construindo, ou já construíram a maior pista de pouso da América do Sul, com capacidade para receber aviões Galaxy, aqueles que podem transportar até tanques de guerra. O objetivo estratégico de Washington é criar uma situação de fato, em que as forças armadas dos países amazônidas sejam colocadas sob a orientação direta dos generais estadunidenses. Uma das razões que explicam a urgência de Reich, além da óbvia operação de ocupação militar da Amazônia, é a estratégia de isolar o governo bolivariano de Hugo Chávez. Do ponto de vista da Casa Branca, o fracasso do golpe de 2002 e a manutenção do apoio popular ao governo da Venezuela, apesar das contínuas e freqüentes ações de sabotagem das elites, acentuou a necessidade de promover o cerco militar às fronteiras daquele país.
Apesar de todas as pressões da Casa Branca – e até mesmo com a sua ajuda -, o agravamento da crise política e institucional no Equador é inevitável. A própria eleição de Gutiérrez, em XXXXX, foi um resultado dessa crise, que teve um momento de auge em 21 de janeiro de 2000, quando a Conaie (Confederação Nacional dos povos Indígenas do Equador), apoiada por setores nacionalistas do Exército (incluindo Gutiérrez), tomou o palácio presidencial e exigiu uma série de medidas contra o programa do governo neoliberal de Jamil Mahuad, que acabou sendo deposto. Gutiérrez foi eleito graças à sua participação na rebelião. Nos comícios eleitorais, denunciava o “neocolonialismo estadunidense” (em entrevista a Caros Amigos, publicada na edição XX, de xxx de 2000, ele propunha uma “frente continental contra o imperialismo”). Assim que assumiu o poder, entretanto, adotou uma prática antagônica a tudo o que dizia representar (coisa que parece estar virando moda na América Latina). Em fevereiro de 2003, durante uma viajem a Washington, para reunir-se com Bush, Gutiérrez declarou que queria ser “o melhor aliado dos Estados Unidos”, talvez inspirando-se na famosa pretensão do argentino Carlos Menem, de manter “relações carnais” com os ocupantes da Casa Branca.
O novo governo mantém, essencialmente, a mesma política neoliberal dos antecessores, persistindo o quadro que produziu a tomada do palácio presidencial, em janeiro de 2000. A Conaie, que teve um papel fundamental na eleição de Gutiérrez, foi levada a romper formalmente as relações com o governo, passando à oposição. A desilusão com Gutiérrez, certamente, produziu uma espécie de perplexidade momentânea, ainda mais com a desilusão provocada pelo governo Lula, que também era fonte de grandes esperanças nos povos da América Latina. Em contrapartida, a Conaie, que representa dez nações indígenas equatorianas – espalhadas principalmente na região amazônica, mas também nos Andes e na costa -, tem uma grande tradição de luta e está vinculada à Via Campesina, que organiza movimentos de toda a América Latina (incluindo, por exemplo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil e os cocaleros bolivianos de Evo Morales). A tradição de luta, aliada a uma profunda consciência de tudo o que está em jogo, permite hoje o desenvolvimento da resistência.
Assim, estão dadas as condições para o agravamento da situação. É claro que a prisão de Ricardo Palmera foi um grave golpe contra as Farc, assim como a participação policial do Equador parece mesmo assinalr uma nova fase do Plano Colômbia, como diz Kintto Lucas. Mas a história ainda está muito longe de seu fim – e aqueles que cantaram a vitória cedo demais no Iraque, hoje sabem muito bem disso.
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