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Idéias - José Arbex Jr.


  24/12/2003  Retratos da Venezuela

Cena 1: “Temos informações de que algumas empresas transnacionais, incluindo a Coca-Cola, a Pepsi-Cola e outras pressionam os seus empregados, para que participem do firmazo”, afirma a ministra do Trabalho, Maria Cristina Iglesias, no canal 8 (televisão estatal venezuelana). O firmazo, medida prevista pela Constituição Bolivariana, é um processo de coleta de assinaturas que permite exigir a convocação de um plebiscito para revogar o mandato dos políticos eleitos (incluindo o presidente da república e deputados). Basta com que o número de assinaturas coletadas seja superior a 20% do número total dos eleitores que participaram da disputa que elegeu os ocupantes dos cargos. No caso concreto do presidente Chávez, seriam necessárias pelo menos 2,4 milhões de firmas. A burguesia venezuelana, estrondosamente derrotada em abril de 2002, quando tentou um golpe para depor Chávez, tenta agora, com o firmazo (realizado entre os dias 28 de novembro e 1 de dezembro), reorganizar as suas fileiras e preparar uma ofensiva de grande envergadura.
Ouço a declaração da ministra ao chegar no aeroporto de Caracas, dia 26, como integrante de uma comissão internacional convidada pelo governo Chávez para observar a realização do firmazo. Participam da comissão 52 senadores, deputados, juízes, líderes de movimentos sociais e intelectuais de 35 países dos cinco continentes. Para um brasileiro, as denúncias de Maria Cristina contra a Coca-Cola e as transnacionais soam como uma bomba (ou grande sinfonia, dependendo do ponto de vista). Claro: não passaria pela cabeça de nenhum dos ministros do governo “Lula light”, sequer longinquamente, a idéia de atacar qualquer transnacional, menos ainda tão simbólica quanto a Coca-Cola. Ao contrário, os ministros brasileiros, como se sabe, aprimoram, diariamente, a arte de servir docilmente aos banqueiros, ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e às corporações do mundo globalizado.

Cena 2: A delegação de observadores visita vários postos do firmazo. Chovem denúncias de fraude, segundo relatos que ouvimos de populares. As denúncias são encaminhadas a um Conselho Nacional Eleitoral (CNE). Médicos ameaçam seus pacientes: ou assinam ou não receberão tratamento. Na maior parte dos postos de assinatura, os fiscais da oposição distribuem uma tarjeta (cartão) a toda pessoa que assina a petição, sobre a qual é gravado o seu nome e impressão digital; somente com a apresentação da tarjeta poderá manter o seu emprego. Cidadãos pagos pela oposição percorrem casas e apartamentos com planilhas itinerantes para recolher assinaturas, quando, legalmente, esse tipo de planilha deveria servir apenas aos portadores de alguma doença ou impedimento físico de comparecer aos postos do firmazo. Rafael Vargas, assessor especial de Chávez (algo como chefe informal da Casa Civil), um sujeito muito simpático, médico, sósia de Aloysio Biondi, comunica a apreensão de 5.000 planilhas clonadas de assinaturas. Como essas planilhas são feitas pela Casa da Moeda, com papel especial e numeradas, sua clonagem requer equipamentos de alta sofisticação, não existentes na Venezuela. Finalmente, para dar o toque que faltava ao grande edifício da fraude (ou fraudazo), somos informados de que o embaixador dos Estados Unidos solicitou uma audiência com os cinco integrantes do CNE.
A mídia venezuelana constitui um capítulo especial em todo esse processo. Falsifica descaradamente as informações. Usa técnicas de movimentação de câmera para mostrar, por exemplo, filas imensas onde há apenas um pequeno número de participantes; não menciona a enxurrada de denúncias de fraude; faz uma campanha pela participação no firmazo, sob a forma de “notícia” (manchetes garrafais anunciam um número absurdo de assinaturas). Um pequeno episódio ajuda a ilustrar a situação: ao final do primeiro dia, nossa equipe de observadores elege um grupo que solicita uma audiência com o pessoal do CNE. Depois disso, esse grupo convoca uma entrevista coletiva. A mídia não se interessa, evidentemente. Porém, por um desses acasos que de vez em quando acontecem, um operador de câmera da principal rede venezuelana deixou o canal aberto, por distração, justamente quando falava Isaías Vedovato, representante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Isaías faz uma intervenção vibrante, de denúncia da fraude, que inclui um chamado à união entre os trabalhadores venezuelanos, brasileiros e de toda a América Latina. A intervenção é quase que totalmente transmitida, até ser cortada por alguém no estúdio central da rede. Somos informados, depois, que o operador de câmera distraído é sumariamente demitido.

Cena 3: Aproveitando a presença de vários jornalistas da América Latina e da Europa, a jovem Blanca Eekhout convoca uma reunião para apresentar o mais recente projeto midiático do governo Chávez: a formação da TV Vivo, dedicada à promoção da arte da cultura popular venezuelana, com ênfase nos grupos indígena, camponês e afrodescendente. A idéia é estimular ao máximo a produção de programas por parte dessas comunidades, sem qualquer espécie de controle ou limitação política e/ou ideológica. Blanca informa que o seu governo destinou às comunidades mais pobres uma parte importante das verbas para a comunicação. Em parte, a generosidade do governo Chávez deve-se à experiência de abril de 2002: as redes de rádios comunitárias tiveram participação decisiva na derrota da burguesia. A própria Blanca vem de uma grande experiência com veículos comunitários. Por enquanto, a TV Vivo emite apenas duas horas por dia, e alcança a região de Caracas. Até abril, terá uma rede de 24 horas diárias de programação, e poderá ser vista em 70% do território nacional.
Blanca propõe aos jornalistas presentes uma relação de colaboração com a mídia independente latino-americana, e pergunta como está a situação no Brasil. Algo constrangidos, somos obrigados a explicar que o governo Lula não apenas não estimula a imprensa dita “alternativa”, como continua fechando rádios livres e comunitárias. Explicamos também que a quase totalidade da verba publicitária do governo Lula vai para a grande mídia, e que nesse momento o BNDES estuda a destinação de bilhões para salvar os patrões da falência (os mesmos patrões – é ela quem faz a observação – que, em 1989, impediram a vitória de Lula).

Cena 4: Segunda-feira, 1 de dezembro. Encerrado o firmazo, estamos de saída para o aeroporto, quando aparece no saguão do hotel, sorridente, Rafael Vargas, acompanhado de um de seus principais auxiliares, Maximilien Arvelaiz, um rapaz muito ativo e culto, que abandonou os estudos universitários na França e na Inglaterra para participar da revolução bolivariana, e hoje acumula tremendas responsabilidades para sua idade (30 anos). Na despedida, Vargas diz que a oposição, apesar do fraudazo, certamente não conseguiu reunir sequer 2 milhões de assinaturas. “Eles vão dizer que conseguiram 4 ou 5 milhões, vão tentar criar um grande barulho, talvez convoquem a desobediência civil. Mas o mais importante é que o povo e as Forças Armadas sabem que isso é mentira e que houve uma mega-fraude. O Conselho Nacional Eleitoral também sabe. Moralmente, já somos os vencedores absolutos”, diz Vargas, visivelmente aliviado e contente. Penso, por um momento, que nada na aparência despretensiosa, até meio desleixada de Vargas deixa supor sua condição de, provavelmente, o segundo homem mais poderoso do governo. Definitivamente, nada a ver com os engravatados aprendizes de janota que pululam nos corredores de Brasília.
É impressionante a derrota sofrida pela burguesia venezuelana. Todas as suas forças juntas não somaram 20% dos eleitores, mesmo com toda a fraude! Não é difícil entender. Pela primeira vez na história do país, por exemplo, os milhões de favelados têm agora acesso a tratamento médico gratuito (8 mil doutores cubanos prestam solidariedade à revolução bolivariana), como pudemos constatar pessoalmente, a partir de depoimentos de gente na rua. Também é a primeira vez que o governo tem um projeto nacional real, que não se limita a sugar de forma parasitária as riquezas propiciadas pelo petróleo. A Venezuela passa, enfim, por uma mudança radical e profunda. Uma cena bastante simbólica ajuda a esclarecer o alcance disso tudo: logo depois que Isaías Vedovato terminou seu chamado televisivo à união dos trabalhadores latino-americanos, recebeu um abraço inesperado de um rapaz que circulava pelo estúdio. O detalhe é que ele estava fardado e era um oficial do Exército. “É a primeira vez que um oficial militar me cumprimenta desse jeito”, diz Isaías. E brinca: “Se fosse no Brasil, eu sairia correndo, pois pensaria que o cara queria me prender.”
Pois é...

 

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