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Idéias - José Arbex Jr.


  15/9/2003  Antes que seja tarde

Quarta-feira, 10 de setembro: o Grupo de Operações Especiais (GOE) da polícia civil de São Paulo cerca a sede nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A operação policial, montada para causar grande impacto, mobiliza helicópteros e movimenta agentes que, nas imediações da sede, exigem que todos os transeuntes apresentem carteiras de identidade. Os policiais querem invadir a sede do MST, mas não portam mandato judicial para tanto.

A explicação oficial: os policiais buscam o ativista Roberto Rainha, cuja prisão, junto com a de outros dez integrantes do MST, acaba de ser decretada pelo juiz da
Comarca de Teodoro Sampaio, Átis de Araújo Oliveira, por suposta “formação de
quadrilha”. No Pontal do Paranapanema, praticamente no mesmo momento, são presos Diolinda de Souza, Valmis Chaves e Cido. Deolinda, companheira de José Rainha, é presa diante de seus dois filhos pequenos. O próprio Rainha e Felinto Procópio dos Santos, o Mineirinho (membro da coordenação regional do MST) haviam sido presos dias antes.

Alertados sobre o cerco à sede, em poucos minutos chegam ao local Luiz Marinho, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), dirigentes do MST, representantes de movimentos sociais e advogados. A tentativa de invasão da sede fracassa, mas a perseguição policial continua, em todo o país. No dia 12, outros sete são detidos no Estado do Sergipe, elevando para 35 o número de lideranças do MST presos em todo o país, sob acusação de formação de quadrilha: cinco no Paraná, seis no Mato Grosso do Sul, seis em Goiás, oito na Paraíba, além dos já citados em São Paulo e Sergipe.

Os fatos são tão óbvios que dispensam argumentação. Está em curso uma campanha nacional de criminalização dos movimentos sociais, cujo expoente mais óbvio, hoje, é o MST.A campanha apóia-se na ação de juízes com influência regional (como é o caso notório de Átis de Araújo de Oliveira) é particularmente intensa nos estados governados pelo PSDB e pelo PFL (embora não se restrinja a eles).

O terror praticado pelo braço armado do latifúndio combina-se com a perseguição policial. Apenas neste ano, 47 trabalhadores rurais já foram assassinados no Brasil, sem que qualquer proprietário de latifúndio fosse detido. O terror conta com a conivência da mídia, que, contra todas as evidências, acusa o MST de promover a baderna e a violência.

Várias vozes se elevam, no governo federal, contra tamanho absurdo, incluindo a condenação veemente do secretário especial de Direitos Humanos, Nilmário Miranda. Em outras ocasiões, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o seu chefe da Casa Civil, José Dirceu, já deixaram claro que não aceitarão as provocações da direita e do latifúndio.

Mas os fatos estão expostos e são graves. A tentativa de invasão da sede do MST, em São Paulo, foi o sintoma de uma escalada. O governo federal precisa mostrar determinação para impedir que a situação se deteriore. Mas precisa, sobretudo, acelerar a implementação do programa de Reforma Agrária, passando das palavras e promessas aos fatos.

Antes que seja tarde demais.

 

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