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Relações Internacionais - Demétrio Magnoli


  4/8/2003  Desencaixotando Bush

“O governo de Bush filho é mais reacionário do que os do Bush pai e seu antecessor, Ronald Reagan, em geral visto como impulsionador de uma ‘revolução’ conservadora nos EUA. Rondaram a Casa Branca na época do ‘velho’ as mesmas figuras que agora arquitetam a doutrina do ataque preventivo (...). Foram contidos como radicais perigosos. Ao assessor de segurança nacional na época, Brent Scowcroft, faltou pouco para chamá-los de loucos.”
Uma rajada de metralhadora. Esse é o ritmo do novo livro de Newton Carlos, Bush e a doutrina das guerras sem fim, que acaba de ser lançado pela editora Revan. São apenas 125 páginas, organizadas em cápsulas explosivas de quatro ou cinco páginas que funcionam como clarões intensos, iluminando os diferentes ângulos da política externa dos EUA de Bush.
Newton Carlos é um jornalista da velha estirpe. Escreve com estilo singular, inconfundível. Não existe palavra supérflua ou concessão ao academicismo. Mas é, ao mesmo tempo, um dos mais profundos estudiosos da política internacional no Brasil. Abaixo de cada parágrafo, há uma sólida estrutura oculta, de teoria e erudição histórica.
O governo Bush é muito mais que a máquina das vontades de um cowboy do Texas, como geralmente se imagina. O presidente está cercado e sustentado por duas coalizões distintas, cada qual com a sua agenda. Uma é a dos neoconservadores republicanos, os neocon – os tais que o conservador Scowcroft considera loucos. Outra é a direita fundamentalista cristã – a turma da Christian Coalition, que abrange os criacionistas, inimigos do ensino da biologia evolucionista. Newton Carlos dá as pistas para entender a febril atividade “evangelizadora” deflagrada pelas seitas cristãs americanas no Iraque ocupado.
Desde o 11 de setembro, a imprensa americana fechou-se num invólucro de jogos patrióticos, soterrando as vozes das crítica. O discurso contra a guerra no Iraque do senador democrata Robert Byrd, um patriarca do Capitólio, pronunciado dias antes da invasão, teve que ser publicado como matéria paga. Newton Carlos usou, principalmente, fontes jornalísticas de origem européia. Na Grã-Bretanha, em especial, a mídia séria transformou a decisão do gabinete de ir à guerra num debate nacional, contribuindo para aprofundar a crise do governo Blair.
O livro recusa o maniqueísmo. Não faz concessões ao antiamericanismo de fundo de quintal que emana de uma esquerda órfã do Muro de Berlim, sempre pronta a aplaudir um fuzilamento cubano. Newton Carlos sabe que a Doutrina Bush, com a sua visão neoimperial, reflete correntes profundas da política externa americana mas enfrenta forte resistência no próprio establishment e, até mesmo, nas ruas. O capítulo “EUA antiguerra” mostra isso.
Outro capítulo, “Islamismo e fundamentalismo”, detona o argumento dos promotores do “choque de civilizações”. Desvenda as origens recentes do radicalismo fundamentalista islâmico e as suas conexões estreitas com as políticas dos EUA. Como registra Newton Carlos, durante a resistência afegã à invasão soviética, ocasião da entrada em cena de Osama Bin Laden, “há testemunhos de instrutores americanos despachando seus milicianos islâmicos, a partir de bases no Paquistão, exclamando em voz alta ‘em frente, Alá está com vocês’”. Israel também teve a sua participação, ajudando a implantar o Hamas nos territórios palestinos ocupados, como contraponto à OLP.
A política internacional não é um conflito entre o Bem e o Mal. É um jogo complexo de interesses, camuflado atrás do discurso dos Estados. O livro de Newton Carlos descerra o véu, desencaixotando os segredos da política externa de Bush.

Demétrio Magnoli, 44, é doutor em geografia humana pela USP e editor do jornal Mundo – Geografia e Política Internacional.

 

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