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Idéias - José Arbex Jr.


  14/4/2003  Jornalistas na cama do Exército, como as prostitutas

Uri Avnery, de Jerusalém

Na Idade Média, os exércitos eram acompanhados por grandes quantidades de prostitutas. Na Guerra de Iraque, os exércitos dos Estados Unidos e Grã Bretanha são acompanhados por grandes quantidades de jornalistas.

Criei o termo “prenstituição” quando estava publicando uma revista noticiosa israelita, para denotar os jornalistas que transformam os meios em prostitutas. Os médicos estão comprometidos pelo juramento de Hipócrates a salvar vidas na medida do possível. Os jornalistas estão forçados pela honra profissional dizer a verdade, da maneira como a vêem.

Nunca tantos jornalistas traíam tanto o seu dever como na cobertura guerra. O pecado original deles foi aceitar o acordo de participar de unidades do exército. O termo estadunidense embedded soa como sendo posto a cama, e a isso corresponde na prática.

Um jornalista que aceita a cama de uma unidade do exército se torna um escravo voluntário. É agregado aos subordinados ao comandante, é levado para os lugares que interessam ao comandante, vê e escuta aquilo que o comandante deseja. É pior do que ser um porta-voz oficial do exército, por pretender ser um repórter independente. O problema não é que você só vê uma fração pequena do grande mosaico da guerra, mas sim transmitir uma visão falsa daquela pequena fração.

Nas guerras das Malvinas e na primeira do Golfo, foi vetado o acesso dos jornalistas às áreas de conflito. Parece que alguém brilhante no Pentágono teve uma idéia: “Para que afastá-los? Deixemos que entrem. Diremos o que escrever e transmitir, e comerão em nossas mãos, como mascotes."


Vergonha

Desde os 19 anos, sou jornalista. Sempre tive orgulho de ser jornalista. Muitas vezes escrevi: "Profissão: Jornalista."

Hoje, estou envergonhado, ao ver um grande grupo de jornalistas sentado diante de um general cheio de estrelas, escutando avidamente o que chamam de “informações”, sem formular nem a pergunta excelente mais simples. E quando um repórter coloca alguma questão real, ninguém protesta quando o general responde com fórmulas de propaganda banais.

Quase todos os relatos jornalísticos desta guerra formam um espelho deformado. Nele nós vemos um quadro manipulado, deformado e mentiroso. Devemos elogiar os poucos que, como Peter Arnett, estão dispostos a sacrificar a sua carreira no altar da verdade.

O fundo do poço

Estou envergonhado de ser jornalista. Eu estou duplamente envergonhado de ser jornalista israelense. Nesta guerra, todos os meios de comunicação israelenses desceram a profundidades inéditas. Nenhuma crítica é publicada.Até mesmo nos meios estadunidenses foram ouvidas algumas vozes discordantes. Em Israel, isto não é possível. Seria pior que traição.

A única exceção que vi foi o repórter de televisão San Semama, que se infiltrou no Iraque, foi capturado pelos estadunidenses, detido em um jipe e mantido com fome durante 48 horas. Ele viu o que realmente estava acontecendo. Uma parte de seus relatos foi publicada, até que desceram a cortina do silêncio. Os demais repetem como papagaios a linha da propaganda dos Estados Unidos.

O teatro de operações

Li em alguma parte que a sala de imprensa de Tommy Franks foi criada por um projetista profissional, por 250 mil dólares. O exército dos EstadosUnidos investe muito dinheiro no desenho da farsa.

Suponho que uma soma muito maior foi paga aos projetistas que organizam os aparecimentos públicos de Bush. Todos deveriam prestar atenção no cenário, muito mais interessante do que as palavras de George W.

Há alguns meses, quase sempre Bush aparece tendo como fundo muitos soldados. De qualquer ângulo que se olhe para Bush, sempre se verá as faces de soldados cheios de admiração.

Uri Avnery é jornalista israelense

 

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