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Idéias - José Arbex Jr.


  17/2/2003  Um front para lá de Bagdá

Luis Fernando Novoa Garzon (*)

A nova guerra ao Iraque se instala como o processo constituinte de uma nova ordem mundial, unipolar e unilateral. É um assalto ao mundo. Um mundo pequeno demais para o grande capital e sua onipotente máquina de guerra. O clube privativo dos incluídos procura ampliar as fronteiras dos seus privilégios. A exclusão deixa de ser uma externalidade para se tornar um investimento ou uma proteção do investimento. As áreas de exclusão passam a ser zonas de guerra. Guerra contra os diferentes, contra os pobres, contra os fracos.
Rompe-se o casulo da teoria dos dois teatros de operação simultâneos, característico da Guerra Fria. Vem à tona a doutrina da dominação de amplo espectro: assegurar a capacidade das forças dos EUA de suprimir qualquer inimigo em qualquer parte do mundo, de forma unilateral ou assistida, com controle sobre qualquer variável ao longo de toda a cadeia de operações militares.
Tolerância zero frente a qualquer resistência ou concorrência. A supremacia norte-americana deixou de ser apenas um dado objetivo para se tornar indispensável e obrigatória. Os EUA têm o direito de intervenção unilateral porque tem o dever de salvar a civilização ocidental e cristã. A superioridade bélica torna-se automaticamente superioridade universal. Porque feita em nome da paz perpétua e da segurança mundial, esta guerra tem caráter exemplar e disciplinador.
Os procedimentos formais da guerra foram banidos. Convenção de Genebra, critérios de guerra justa, de danos excessivos e de castigos desnecessários são válidos apenas para adversários reconhecidos. Nada disso vale para a nova categoria de inimigos que foi criada. Uma “guerra sem compromissos e sem regras” é o que promete o Secretário de Defesa e principal arquiteto da estratégia da guerra contra o terrorismo. Para Rumsfeld, os terroristas e os regimes que os acobertam não podem merecer as salvaguardas da “civilização”, que os mesmos procuram destruir.
Para defender a democracia e a liberdade aprisionem-nas em porões inacessíveis. Para que a pluralidade seja mantida proíbam e suprimam as diferenças. É assim que se faz a jurisprudência da guerra total.
Não se pedem provas a Guerras intrinsecamente justas e santas. Insinuações e indícios bastam. As provas plantadas e colhidas pela CIA falam por si mesmas e confessam tudo em lugar dos suspeitos. Em uma ogiva , em uma foto de satélite e em uma cabeça cabe de tudo, inclusive nada. Não importa que o Iraque possua ou não “armas de destruição em massa”, importa seu maligno desejo.
Muitos passos atrás do Código de Hamurabi. Na insígnia “olho por olho, dente por dente” há o reconhecimento mútuo dos litigantes e a estipulação da proporcionalidade da pena e da reciprocidade da ação. A sentença aplicada pelo Imperador babilônico no século XVIII aC nunca pareceu tão civilizada comparada à Doutrina Bush, consagradora do direito de revide antecipado, isto é, da eliminação prévia de qualquer grupo, pessoa ou país considerado ameaçador.
O zeitgeist norte-americano vai fundo na sua matriz judaico-cristã-puritana. Maniqueísmo, danação, salvação, bode expiatório. O fundamentalismo cristão de direita postula a hegemonia ideológica do Império em sua fase totalizante. Se são as intenções que valem, as “boas” intenções podem tudo contra as “más”. Bem vindos ao inferno.


Operação “mãos sujas”

Essa guerra não é apenas de Bush, mas de todo o establishment capitalista. Os pactos e consensos mais profundos são conduzidos por uma dinâmica financeiro-industrial-militar. As exaustivas negociações da ONU quanto à invasão ao Iraque e seus critérios refletem as últimas reacomodações deste novo bloco de poder global que se instaura. Essa recomposição dos centros decisórios do capitalismo global refletiu-se simultaneamente em diferentes campos:

a) no retrocesso das negociações multilaterais da OMC e na cristalização das políticas protecionistas dos países centrais.

b) no avanço das forças de direita na Europa e na reformatação da UE segundo os interesses dos oligopólios.

c) na legitimação da política de genocídio na Palestina praticada por Ariel Sharon.

d) na interrupção do diálogo e/ou no endurecimento da repressão na Irlanda do Norte, País Basco, Chechênia e Colômbia .

A produção e distribuição de petróleo é por hora a questão de maior relevo. Os reclamos e reservas da França e Alemanha contra a guerra ao Iraque não pretendem impedir a guerra, mas criar condicionantes que garantam maior permeabilidade ao processo de reordenamento do Oriente Médio. A Inglaterra, satisfeita com suas reservas próprias no Mar do Norte e com as novas posições que a Royal Dutch/ Shell adquirirá no Iraque, se alia incondicionalmente ao Império em busca de uma co-gestão. Estamos diante de uma nova divisão imperialista do Oriente Médio. Um acordo Sykes-Picot em benefício da única superpotência. Sua anátema aos aliados: mais petróleo aos que derramarem mais sangue. Quem ficará com as mãos limpas?
Os mercados pragmaticamente contabilizaram os riscos e oportunidades desta guerra. Koehler, diretor-geral do FMI, sugeriu uma “guerra rápida e com precisão cirúrgica” de modo a não aumentar as incertezas sistêmicas. Meirelles, Presidente do Banco Central do Brasil, em sintonia fina, disse estar torcendo por uma “guerra bem-sucedida” no Iraque. O instável e fraudulento capitalismo global precisa mais do que nunca de certezas. Desde que o risco se tornou sistêmico deixou de ser louvado. As certezas de retorno e lucratividade irrestritas que venham a ferro e fogo.


A automatização da guerra

O capital financeiro transnacionalizado e o complexo industrial-militar estão ocupando juntos posições-chave nas cadeias de valor, transformando-se em reguladores informais dos fluxos de capitais e de tecnologia. O mercado da guerra, nucleado pelas chamadas tecnologias de duplo uso, antes regulado pelas potências imperialistas em conflito, agora se “auto-regula” a partir de acordos estáveis entre os principais conglomerados.
A corrida armamentista é que mantem os capitais de pé. Novas gerações de bombas são novos ciclos de inovação tecnológica e de investimento. A simbiose privado-militar processada no interior do Complexo Militar-Industrial dos EUA trouxe à luz Forças Armadas de natureza empresarial e empresas de natureza militar. Ambivalentes Institutos de tecnologia de defesa, financiados com capital público e privado, foram alçados a posições superiores no organograma do poder mundial. A disputa entre projetos bélico-tecnológicos é a última Realpolitik a considerar.
As Forças Armadas dos EUA foram desinstitucionalizadas e desprovidas de seu “espírito de corpo” para serem absorvidas em um corpo em busca da plenitude. Um Império militarizado embasado na pesquisa e na especulação científica e tecnológica é capaz de agir e dissuadir por conta própria. Aquilo que o Congresso não autorizar ou a opinião pública não tolerar será obtido por meio de joint ventures, convênios privados e operações secretas. As estruturas de comando das Forças Armadas estão sendo pulverizadas por empresas terceirizadas que fornecem apoio logístico, assistência técnica, treinamento e assessoria militar e por redes paramilitares insubmissas à hierarquia oficial.
O Exército norte-americano não é mais o mesmo. A invasão do Iraque foi meticulosamente planejada por Rumsfeld e Wolfowitz, representantes diretos do conglomerado financeiro-industrial-militar. As novas tecnologias submetem a ação militar à concepção e à simulação puras. Pensar é ao mesmo tempo fazer a guerra. O General Richard Myers, Chefe do Estado Maior, e o General Tommy Franks, Comandante chefe da operação de invasão, apenas repassam e operacionalizam decisões. Executivos-políticos viraram generais. Generais viraram soldados. Soldados viraram máquinas.
Envolto nas entranhas do corpo metálico do blindado ou do avião, o homem aos poucos é digerido. Sistemas de navegabilidade e direcionamento aumentam a precisão e a eficiência das operações. O poder saturador dos novos mísseis e bombas torna sem efeito as volumosas divisões de assalto, típicas das guerras mundiais de padrão fordista-taylorista. A tarefa destrutiva se automatiza da mesma maneira que a tarefa de montagem no chão da fábrica.
Em primeiro lugar bombas anti-radiação são lançadas para destruir os sistemas de informação do país e paralisar seus sistemas de vigilância e defesa aérea e anti-míssil. Valendo-se de microondas e ondas eletromagnéticas estas bombas são capazes de cozinhar as partes moles do corpo humano e de produzir graves distúrbios psicomotores.
Não estão descartadas bombas–E de alto impacto ou a utilização de cargas químicas e nucleares que neutralizem improváveis arsenais de armas de destruição em massa. A eventualidade da posse destas armas por um “país não confiável” justificaria a utilização preventiva justamente dessas mesmas armas contra ele.
Em seguida é a vez dos mísseis guiados de baixo custo e de alto poder destrutivo. A munição de ataque direto integrado (JDAMS) consiste em kits com GPS e aletas de controle instalados em bombas convencionais. A Boeing especializou-se em transformar bombas burras em bombas cyborg inteligentes.
Mas o lançamento mais esperado no salão internacional de bombas que se transformará o Iraque é a Small Diameter Bomb (bomba de pequeno diâmetro), muito mais leve e muito mais explosiva que as antepassadas. Isso quer dizer mais bombas por avião e muito mais alvos destruídos por missão. Produtividade exemplar: em 1991 na Guerra do Golfo eram necessários dez aviões para atingir um alvo, em 2003 um avião apenas é capaz de cobrir três alvos.


A informação serve antes de tudo para fazer a guerra

A função mais complexa de localização e classificação exata dos alvos centrais e de oportunidade fica reservada para as forças especiais (SOF - Special Operations Forces) em plena atuação no Iraque desde janeiro de 2003. São agrupamentos extra-militares, sub-divididos em comandos especializados, que têm autonomia operacional na consecução de projetos específicos e combinados. Agrupamentos polivalentes como o “Seal” (sea, air, land), sigilosos como o “Força Delta”, destrutivos e cooperativos como o “Comando Especial da Força Aérea”, ofensivos como o Ranger e sujos como o “Boinas Verdes”. Atravessando e gerenciando essa rede diferenciada está o Special Operations Group (SOG), vinculado à poderosa Divisão de Assuntos Clandestinos da CIA.
A produção da destruição se torna mais diversificada e integrada. Os centros de gravidade do inimigo, no caso, o Iraque, já foram previamente listados e hierarquizados através de sistemas de comando, controle, comunicações, computadores e inteligência (4CI). O papel dos soldados convencionais se restringe a monitorar o seqüenciamento das metas planejadas. Nada escapa ou fica a salvo depois de montadas as infra-estruturas da ubiqüidade:

a)satélites Lacrosse, USA 144 e Keyhole capazes de acompanhar imagens em movimento quase em tempo real, controlando todos os deslocamentos no território iraquiano.

b)suporte de rastreamento por aviões-espiões ou táticos UAV e AWACS.

c)tratamento de imagens e síntese de dados por sensores.

d)compartilhamento e interoperabilidade das missões.

e)reconhecimento automático de objetivos através de mecanismos de inteligência artificial.

O sucesso de uma guerra que se pretende permanente depende então de como se articulam os planos de invasão, ocupação e de administração do Iraque pós-Sadan. Nada pode ser aleatório ou extensivo. Cada supressão significa uma aliança desfeita, cada ressalva uma outra refeita.
Relacionamentos mais ou menos duradouros precisam ser construídos com os curdos no norte e com os xiitas no sul. Compensações devem ser oferecidas às monarquias corruptas de Omã, do Catar, do Kuwait e ao governo turco, por disponibilizarem seus territórios para a logística da guerra. Minar o regime da família Sa'ud na Arábia Saudita, encontrar uma solução para a questão palestina fora dos seus territórios tradicionais e preparar o terreno para a criminalização do Irã são empreitadas políticas para lá de complexas.
A “normalização” política da região após a guerra é o aspecto mais delicado e nebuloso da mega-operação. A construção de um novo regime no país e na região ainda dependerá de um algum artesanato político para o qual concorrerão Israel e as demais potências da aliança, em espaços mediados pela ONU, intercalados por ataques convencionais.


O campo de batalha não cabe em si

Nas batalhas da guerra psicológica, iniciada formalmente após o 11 de setembro, os árabes islâmicos são apresentados como lunáticos cegos às maravilhosas possibilidades de consumo ou, no mínimo, invejosos delas. Seres rudes e implacáveis como o deserto que habitam. Bárbaros intratáveis e avessos aos bens da civilização. Inimigos da pluralidade, da individualidade e da democracia.
O direito penal se desmaterializa. Na ordem pós-civilizatória a criminalização deixa de referir a atos para instar contextos culturais difusos e modos específicos de existir. Os estereótipos pacientemente forjados pela mídia cumprem seu destino ao se sobreporem às pessoas e povos. A desumanização da imagem do outro é sua condenação à morte. Assassinada a alma, resta recolher o cadáver.
Jornais e redes de comunicação audiovisual e digital impõem estigmas indeléveis. Os povos são marcados para morrer. As lentes das objetivas e câmeras se superpõem às lentes dos sensores dos mísseis, em um jogo de espelhos em que tudo que o que aparece sob o olhar ou sob a mira desaparece.
As elites capitalistas depois de degradarem a humanidade e decomporem o mundo, responsabilizam um monstro estranho, diferente, exterior, quase alienígena. O combate a esse monstro é tão monstruoso que o resultado dá no mesmo: vitória do terror e do totalitarismo.

(*) Luis Fernando Novoa Garzon é sociólogo, membro da ATTAC-Brasil (l.novoa@uol.com.br)

 

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