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Relações Internacionais
- Demétrio Magnoli
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3/2/2003
A Internacional de Lula
Demétrio Magnoli*
Está em curso uma articulação para que o PT se torne membro efetivo da Internacional Socialista, da qual é observador, e para que Lula assuma a presidência da organização. O suíço Jean Ziegler, do Conselho Executivo da Internacional, explicou o sentido da articulação: “A esquerda na Europa não tem projetos claros, está totalmente desorganizada. Chirac é de direita, e Schröder se rendeu ao neoliberalismo”. Em Porto Alegre, durante o Fórum Social Mundial, o ex-presidente português Mário Soares, um dos ícones social-democratas, não deixou por menos: “A grande mudança no mundo, nos últimos tempos, foi a eleição do presidente Lula”.
A Internacional Socialista foi reinventada por duas vezes. A primeira reinvenção ocorreu no início da Primeira Guerra Mundial (1914-18), quando a maioria da direção optou por uma linha de colaboração entre os partidos socialistas e os governos nacionais, suspendendo a agitação revolucionária. Com esse ato, completava-se o percurso de renúncia da Internacional à idéia de revolução e a integração dos social-democratas às democracias parlamentares. Em 1915, o revolucionário russo Lenin taxou os social-democratas de “reformistas” e “revisionistas”, anunciou a “falência da Internacional” e conclamou os revolucionários a se reunirem numa Internacional comunista.
A segunda reinvenção ocorreu na década de 70, quando os partidos social-democratas europeus extirparam de seus programas as referências ao marxismo e proclamaram a sua adesão à economia de mercado. No quadro da Guerra Fria, a Internacional Socialista escolhia claramente o lado do Ocidente e procurava distinguir-se dos conservadores pelas propostas de edificação de um Estado de Bem-Estar Social. O alemão Willy Brandt, o francês François Miterrand, o sueco Olof Palme e o espanhol Felipe Gonzalez lideraram o “socialismo cor-de-rosa”, que conheceu a sua época de ouro.
Mas a globalização contaminou os social-democratas, dissolvendo aos poucos a fronteira política que os separava dos conservadores. Na França e na Espanha, os governos social-democratas dilapidaram seu apoio popular empreendendo as reformas liberais que os conservadores não conseguiam realizar. Na Grã-Bretanha, Tony Blair virou de cabeça para baixo o venerável Partido Trabalhista, encampando teses ultraliberais, soldando uma aliança preferencial com os Estados Unidos e reunindo a direita socialista em torno da bandeira da Terceira Via. O desastre eleitoral de Lionel Jospin, na França, encerrou melancolicamente o ciclo do “socialismo cor-de-rosa”.
A condução de Lula à presidência da Internacional materializa o projeto de uma terceira reinvenção da organização. A direção social-democrata mundial, carente de horizonte histórico e encurralada pela geopolítica de Bush, procura desesperadamente insuflar vida nova na Internacional Socialista. O projeto não se alicerça num novo programa, mas na canibalização do significado histórico da vitória do PT no Brasil.
Do ponto de vista de Lula, a presidência da Internacional é uma oferta tentadora. No plano das instituições internacionais, serve para rodear o seu governo de um arco de apoios poderosos. No plano interno, pode funcionar como alavanca para uma refundação do PT, com a exclusão das correntes de esquerda que não se alinham às diretrizes do governo. Se a operação chegar ao seu desenlace, terá sido construída, de fato, a ponte entre Davos e Porto Alegre.
Demétrio Magnoli é doutor em Geografia Humana pela USP.
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