Imprima essa página !

 



Fale Conosco


Créditos
Relações Internacionais - Demétrio Magnoli


  5/8/2002  O tribuno da plebe

Demétrio Magnoli

Roma era, no início, uma oligarquia de famílias aristocráticas – o patriciado – que competiam pelo poder procurando atrair o apoio da Assembléia popular, constituída pela plebe. A história social da República Romana é a do crescimento da importância dos plebeus – os cidadãos que não pertenciam à aristocracia. A sua história política é a da intrusão progressiva da plebe no núcleo do poder, através de sucessivas revoltas.
A aristocracia patrícia, sob pressão, procurou incorporar marginalmente os plebeus. Assim surgiram os tribunos da plebe, que participavam do governo e tinham o direito de vetar leis. O poder efetivo continuava com o Senado patrício, mas a ampliação dos direitos da plebe assegurava um certo equilíbrio político.
Entretanto, no século II a.C., as conquistas territoriais e a generalização do trabalho escravo empobreceram a plebe, destruindo o equilíbrio. Nessa situação de crise, começaram as guerras civis, que acabaram por desintegrar a República. Tibério e Caio Graco, tribunos da plebe, tentaram forçar a aplicação de reformas sociais por meio da ruptura com as instituições políticas. Eles chocaram-se com a resistência patrícia – e fracassaram. O confronto enrijeceu o sistema, provocando um século de tormentas, revoltas e ditaduras.
O tribuno da plebe é uma figura que emerge na crise dos sistemas políticos caracterizados pela fissura social entre a elite e a massa popular. O tribuno mobiliza a massa em torno de um discurso de reformas sociais que exigem a ruptura política e a concentração do poder. Ciro Gomes apresenta-se como o nosso tribuno da plebe. Essa é a razão do sucesso da sua candidatura.
Ciro tem berço. A oligarquia dos Gomes domina Sobral há cem anos. Ciro entrou na política pelo PDS, sucessor da Arena mas, associado a Tasso Jereissati, implodiu o poder estadual dos coronéis cearenses. Ciro representa a oligarquia que, para se reiterar e perpetuar, se moderniza.
O PSDB serviu a Ciro como plataforma circunstancial. Acalentando a ambição de reproduzir, na cena nacional, o fenômeno cearense, Ciro estruturou um projeto pessoal, à margem dos partidos. Assim, não faz muito sentido procurar “coerência” no leque de alianças eleitorais que sustenta o candidato.
Há contradição histórica na coligação PT-PL. Há relevância em identificar essa contradição, pois ela revela o sentido da transição política do PT. Por outro lado, a coligação que sustenta Ciro nada tem a ver com idéias ou programas. Os ex-comunistas do PPS, sem prumo ou rumo, oferecem uma legenda. O PDT, que se tornou a sombra do fantasma de Brizola, assegura minutos de TV – assim como o ultra-fisiológico PTB. ACM e outros fragmentos oligárquicos do PFL, comparecem com clientelas e currais eleitorais.
Isso não significa que faltem idéias a Ciro. Seu programa, escrito pelo filósofo-guru Roberto Mangabeira Unger, foi muito criticado pela inconsistência conceitual, que flerta às vezes com o ridículo. Mas isso não importa. Abaixo do torvelinho superficial, desnuda-se um projeto nacionalista e autoritário, que desconfia dos partidos e do Congresso e atribui a um presidente forte a missão de salvar a pátria.
Na República romana, em 287 a.C., a Lex Hortensia conferiu força de lei às resoluções da Assembléia da Plebe (plebis concilium). Daí, a origem do plebiscito. Não é fortuito que o programa de Ciro preveja o uso freqüente de plebiscitos para contornar ou submeter o Congresso. A democracia representativa, com seus diversos instrumentos constitucionais de limitação de poderes, não serve ao salvador da pátria.
O paralelo com os tribunos romanos tem um limite. Os Graco representavam, até certo ponto, os interesses da plebe empobrecida. Ciro é uma farsa, que se apropria da figura do tribuno da plebe – como Collor o fez – para promover o seu projeto pessoal.

 

Relações Internacionais - Outras Notícias

15/11/2010 G20, o espetáculo da soberania

25/10/2010 Os falsários

4/10/2010 De Pomona a Marte

13/9/2010 Falanges da moralidade

23/8/2010 Do multiculturalismo à deportação

2/8/2010 Os caçadores e o elefante

29/6/2009 Revolução na revolução

8/6/2009 Monstros tristonhos

19/5/2009 Os fatos e as fotos

28/4/2009 O império contra-ataca

7/4/2009 Um grande Maranhão

16/3/2009 O Líder e a História


25/11/2008 A cidade no alto da colina

4/11/2008 Um plebiscito sobre a natureza da nação

13/10/2008 A nação perdida

8/9/2008 Uma linha no mapa

11/8/2008 A África na escola

27/5/2008 Rios que nunca se encontram

19/5/2008 Duas narrativas de guerra

12/5/2008 CLT maquiada

14/4/2008 A revolução interrompida

24/3/2008 À sombra de Hugo Chávez

5/3/2008 Matilde, fale-nos sobre o Quênia

5/12/2007 A Venezuela e o Mercosul

12/11/2007 Outubro, nunca mais

23/10/2007 Fábrica do racismo

1/10/2007 A nossa corrupção e a deles


10/9/2007 A religião da natureza

25/6/2007 Nem liberdade, nem igualdade

28/5/2007 A França à escuta do Brasil

2/5/2007 Mísseis na borda da Europa

27/3/2007 Tarso Genro desiste de processo contra Demétrio Magnoli, mas agride a verdade



26/3/2007 Tarso e a verdade

26/3/2007 EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) DOUTOR(A) JUIZ(A) FEDERAL DA VARA FEDERAL CRIMINAL DA 1ª SUBSEÇÃO JUDICIÁRIA DO ESTADO DE SÃO PAULO


12/3/2007 O socialismo e o caudilho

5/3/2007 Estatísticas no pau-de-arara

25/10/2006 Coluna que é alvo de processo do ministro Tarso Genro, originalmente publicada na Folha de S. Paulo, a 14 de abril de 2005.

Ministério da Classificação Racial


16/10/2006 Lula, a política da cisão

31/8/2006 O céu na gaveta

13/7/2006 Thuram, Le Pen e nós

5/6/2006 A Europa das Tribos

5/5/2006 Recolher os cacos.

27/3/2006 Terra estrangeira

21/11/2005 O véu e a república

17/10/2005 A Europa no espelho

19/9/2005 Nova Orleans, Haiti

21/8/2005 Front e fronteira

8/8/2005 As bombas de Londres e a falência da nova esquerda

6/6/2005 A desconstrução da Europa

2/5/2005 A engenharia das raças

28/3/2005 Diante da jihad global

21/2/2005 O Banco Mundial na África

6/12/2004 O Nobel, a África e a Aids

11/11/2004 As duas Américas

13/10/2004 Natureza e política no Haiti

13/9/2004 Segredos russos

17/8/2004 Falsificação 9/11

28/6/2004 A falência da ocupação do Iraque

3/5/2004 Dialética da servidão

5/4/2004 Gramáticas do terror

1/3/2004 O muro da insegurança

15/12/2003 Lula nas Arábias

10/11/2003 O preço da folia

20/10/2003 O estadista e o cortesão

6/10/2003 Lula e Kirchner no jogo dos espelhos

31/8/2003 Vieira de Mello no mundo de Hobbes

4/8/2003 Desencaixotando Bush

7/7/2003 Capitulação

2/6/2003 O teatro da mídia

22/4/2003 A verdade vem do Oriente

7/4/2003 Depois da queda de Bagdá

9/3/2003 Desiguais perante a lei

3/2/2003 A Internacional de Lula

6/1/2003 Crise do pensamento crítico

2/12/2002 Lula e o espectro de Rio Branco

4/11/2002 A miséria da política

7/10/2002 O Brasil sem o PT

4/10/2002 Mídia, verdades e mentiras: a imprensa pós-11 de setembro

9/9/2002 Candidatos na hora da verdade

1/7/2002 A geopolítica da recessão

6/5/2002 Diplomacia sem valor

1/4/2002 Podemos ser amigos, simplesmente?

15/3/2002 Israel renega os princípios de Oslo

1/3/2002 Duas guerras civis

15/2/2002 O “eixo do mal”

1/2/2002 O “novo Rio Grande do Sul” e a Alca

15/1/2002 Tango e samba

1/1/2002 Nação sem moeda

15/12/2001 É o fim de Arafat?

30/11/2001 A Argentina, pregada a uma cruz de dólares

15/11/2001 A quem serve a OMC?

30/10/2001 Bombas sobre ruínas

15/10/2001 A renúncia brasileira

28/9/2001 A “primeira guerra do século XXI”

7/9/2001 Koizumi em Yasukuni

24/8/2001 O Protocolo de Kyoto e a terceira etapa da “ecodiplomacia”

3/8/2001 A Ásia como “ruína tecnológica”

13/7/2001 Milosevic em Haia

22/6/2001 Um novo timoneiro na Cidade Proibida?

1/6/2001 O que está por trás da nova estratégia militar de Washington

18/5/2001 A nova estratégia militar de Washington

4/5/2001 Três políticas diante da Alca

20/4/2001 O Brasil e o Mercosul diante da Alca, na hora da crise argentina

7/4/2001 Os dois pilares da estratégia mundial de George W. Bush


  Revista Pangea

Copyright Pangea. Todos os direitos reservados.