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Idéias - José Arbex Jr.


  17/6/2002  "A sociedade Palestina está sendo desmantelada"

O jornalista e poeta israelense Yitzhak Laor, colaborador do diário Haaretz, um dos mais importantes de seu país, oferece uma análise corajosa e dramática sobre a Palestina contemporânea. O artigo, escrito em 10 de maio, foi internacionalmente divulgado pelo Monde. Laor é vinculado ao movimento Gush Shalom (bloco da paz), liderado pelo escritor, político e ativista israelense Uri Avnery



Qual tem sido o motivo da guerra entre nós e os palestinos ?
A tentativa israelense de fatiar o que sobrou da Palestina em quatro cantões, através da construção de “estradas de separação”, novas colônias habitacionais e postos de controle. O resto é assassinato, terror, toque de recolher, demolição de casas e propaganda. As crianças palestinas sentem medo e desespero, e seus pais são humilhados na frente delas.
A sociedade palestina está sendo desmantelada e a opinião pública do Ocidente joga a culpa nas vítimas – sempre o caminho mais fácil de encarar o horror .
Eu sei: meu pai foi um judeu alemão .
Desastrosamente, o Exército Israelense é a imago (imagem idealizada mentalmente) do país. Aos olhos da maioria dos israelenses, é uma imagem pura, sem manchas; pior, o exército é visto como estando acima de qualquer interesse político. Não obstante, como qualquer outro exército, precisa de guerras, pelo menos de vez em quando. Mas enquanto em outros países o poder militar é contrabalançado pelas instituições da sociedade civil ou por partes do próprio Estado (indústria, bancos, partidos políticos etc.), nós, em Israel, não dispomos desse contrapeso.
O Exército israelense não tem nenhum rival real dentro do Estado, nem mesmo quando a política desse Exército nos custa nossas próprias vidas (as vidas dos palestinos, para não mencionar seu bem-estar ou sua dignidade, está excluída do discurso político).
Não há dúvida de que a “política de assassinatos” de Israel – seu assassinato de lideranças políticas (dr. Thabet Thabet, de Tulkarem, ou Abu Ali Mustafá, de Ramalá) ou de “terroristas” (às vezes rotulados como tais somente depois de terem sido eliminados) – tem jogado lenha na fogueira. As pessoas falam disso, embora nenhum política da direita, do centro ou mesmo da decadente esquerda sionista tenha ousado se pronunciar contra isso.
E apesar de críticas na imprensa, o Exército vem fazendo o que decidir fazer. Algora eles conseguiram aquilo que realmente desejavam: um ataque total contra a Cisjordânia.
Desde 11 de setembro as palavras “guerra contra o terrorismo” se tornaram populares, razão porque tudo o que Israel faz é uma guerra contra o terrorismo, incluindo o saque no Centro Cultural Khalil Sakakni em Ramalá.
Também sou contra o terrorismo. Não quero morrer levando meu filho ao shopping. De fato, eu não o levo mais lá. Não tomo ônibus e temo que chegue a vez da minha família, mas sei que eles – isto é, os generais – aceitam ataques terroristas como “um preço razoável a pagar” para alcançar uma solução. Qual é a solução deles? Paz – de que tipo? Paz entre os israelenses vitoriosos e os palestinos derrotados.
A crueldade do Exército Israelense deve ser lida contra o pano de fundo de sua derrota no Líbano, quando foi expulso de lá depois de travar durante anos uma guerra suja. O sul do Líbano foi incendiado e destruído pela artilharia e a força aérea israelenses para que nenhuma organização terrorista pudesse resistir.
Mesmo assim, 300 combatentes – devo chamá-los de “terroristas”? – expulsou-nos (isto é, nosso Exército) duas vezes. Primeiro, em 1985, de volta ao que nosso exército e imprensa costumavam chamar de nossa “Zona de Segurança” (a imprensa estrangeira denominava-a “zona de segurança” auto-proclamada por Israel); e depois, dois anos atrás, dessa mesma Zona de Segurança. Os generais que foram derrotados àquela época estão dirigindo a guerra atual. Eles têm vivido aquela derrota diariamente. E agora podem lhes ensinar – isto é, aos árabes – sua lição.
Nossos heróis, armados com aviões, helicópteros e tanques, podem deter centenas de pessoas, concentrá-las em campos cercados de arame farpado, sem cobertores nem abrigo, explorar a confusão para demolir mais casas, abater mais árvores, retirar mais meios de subsistência.
A escavadeira, antigamente um símbolo da construção de um novo país, tornou-se um monstro que acompanha os tanques, de modo que todo mundo possa ver como o lar de outra família, um outro futuro, desaparece. Os israelenses procuram punir qualquer pessoa que enfraqueça nossa imagem de nós mesmos como vítimas. Ninguém tem permissão de tirar de nós essa imagem, especialmente não no contexto da guerra com os palestinos, que estão travando uma guerra em “nosso lar” – isto é, seu “não-lar”.
Quando um ministro do gabinete de uma antiga república socialista comparou Iasser Arafat a Hitler, foi aplaudido. Por quê? Porque este é o modo como o mundo deveria olhar-nos, emergindo das cinzas. É por isso que amamos o filme Shoah, de Claude Lanzmann (e ainda mais seu repugnante filme sobre o Exército Israelense) e a Lista de Schindler.
Diga-nos mais sobre nós mesmos como vítimas e como devemos ser perdoados por toda a atrocidade que cometemos. Como escreveu minha amiga Tanya Reinhart: “Parece que o que nós interiorizamos da memória do holocausto é que qualquer mal de extensão menor é aceitável”. Mas esse “mal do passado” tem um jeito peculiar de entrar na nossa vida presente.
Em 25 de janeiro, três meses antes do Exército Israelense obter licença para invadir a Cisjordânia, Amir Oren, um comentarista militar veterano do Haaretz, citou um oficial superior: afim de se preparar adequadamente para a próxima campanha, um dos oficiais israelenses nos territórios ocupados disse há não muito tempo atrás que é justificado e, de fato, essencial, aprender com todas as fontes possíveis. Se a missão é tomar um campo de refugiados densamente povoado, ou assaltar a kasbah (centro comercial) em Nablus, e se o dever do comandante é tentar executar a missão sem baixas em ambos os lados, então ele deve primeiro analisar e interiorizar as lições de batalhas anteriores – mesmo, embora isso possa parecer chocante – mesmo como o Exército Alemão lutou no Gueto de Varsóvia.
O oficial de fato obteve sucesso em chocar pessoas, não menos porque ele não está sozinho nesse procedimento. Muitos dos seus camaradas concordam que a fim de salvar israelenses agora é certo fazer uso do conhecimento que se originou nessa terrível guerra, cujas vítimas eram parentes deles.
Israel pode não ter um passado colonial, mas temos uma memória do mal. Isso explica por que soldados israelenses estamparam número de identificação nos braços dos palestinos? Ou por que o mais recente Dia do Holocausto produziu uma ridícula comparação entre aqueles dentro nós no Gueto de Varsóvia sitiado e aqueles de nós cercando o sitiado campo de refugiados de Jenin?
A satisfação pela “vitória” de Jenin foi parte dessa mentira permanente.
Uns vinte soldados israelenses (a maioria deles reservistas) morreram na que foi considerada uma campanha de baixa zero, mas os defensores do campo estavam equipados somente com rifles e explosivos. No lado israelense, como sempre, havia unidades especiais deslocando-se de um beco para outro, assistidos por uma aeronave de controle remoto que fornecia informações sofisticadas aos comandantes na retaguarda.
Quando isso não funcionava, sobrevinha o bombardeio do campo, depois o emprego de helicópteros Apache fornecidos pelos Estados Unidos para destruir casas juntamente com dúzias (ou centenas) de habitantes.
Isso foi um massacre? Como tudo mais na nossa corrompida vida, isso depende do número de mortos: dez israelenses mortos é um massacre, 50 palestinos mortos não vale a pena considerar.
A destruição do campo, se espontânea ou premeditada por Sharon & Cia., reflete a determinação dos oficiais superiores de terminar seu serviço militar com uma realização real: a eliminação do movimento nacional palestino, sob a máscara da guerra contra o terror.
Mas o terror não será derrotado desse jeito.
Pelo contrário. Escravizar uma nação, dobrando-a de joelhos, simplesmente não funciona. Nunca funcionou. O longo sítio da Igreja da Natividade em Belém é a prova de que as palavras “generais israelenses” não se referem mais a homens capazes de pensamento estratégico ou a algo que se lhe assemelhe. Os generais israelenses podem ter travado algumas batalhas complicadas em 1967, 1973 ou mesmo 1982, mas em Belém eles cercaram 200 jovens palestinos durante mais de três semanas e deixaram o mundo ver sua obstinação e crueldade sem sentido.
Como, você pode perguntar, pode uma nação desobediente como Israel seguir de forma tão tola um alto comando?
Aqui situa-se o começo de uma resposta.
Enquanto os cadáveres apodreciam em Jenin e crianças pequenas corriam em torno procurando por alimento ou por seus pais desaparecidos, e os feridos ainda sangravam até à morte, com o Exército Israelense impedindo qualquer socorro ou funcionários da ONU de entrar no campo (o que eles tinham para esconder?), o Ministério da Educação de Israel baixou uma portaria para todas as escolas no sentido de que as crianças levassem encomendas para os soldados.
“A coisa mais importante”, disse o professor do meu filho de sete anos, “é uma carta para os soldados”. Centenas de milhares de crianças escreveram tais cartas quando a guerra contra uma população civil estava em seu grau máximo, sob o olhar crítico da mídia mundial. Imagine o comprometimento ideológico daquelas crianças no futuro.
Este é apenas um aspecto de nossa sociedade destituída de oposição.
O imaginário israelense é constituído, antes de mais nada, pela crença na supremacia israelense.
Quando acontece um bombardeio suicida cruel num hotel em Netanya, nós respondemos numa escala maior, com um ataque terrorista contra eles, não importando se isso inflige morte e fome a dois milhões de pessoas que não têm conexão com aquele ato, não importando se isso criará mais mil mártires que explodirão a si próprios juntamente com suas vítimas.
A lógica militar por trás desse comportamento diz: “Temos o poder e temos de exercê-lo, de outro modo nossa existência ficará em perigo”. Mas o único perigo é o perigo enfrentado pelos palestinos.
Câmaras de gás não são o único meio de destruir uma nação. Basta destruir seu tecido social, fazer perecer pela fome dúzias de aldeias, produzir altas taxas de mortalidade infantil.
A Cisjordânia está atravessando uma “Gaza-isação”. Por favor, não dê de ombros. A única coisa que pode ajudar a destruir o consenso em Israel é a pressão da Europa Ocidental, da qual a elite israelense é dependente de muitas maneiras.

 

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