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Relações Internacionais - Demétrio Magnoli


  1/3/2002  Duas guerras civis

O dia 22 de fevereiro assinalou a abertura de novas etapas em duas antigas guerras civis. Na Colômbia, o governo de Andrés Pastrana encerrava oficial e praticamente o processo de paz com as Farc e o exército retomava a “Farclândia”, zona que tinha sido entregue ao controle da guerrilha esquerdista. Enquanto isso, em Angola, o governo anunciava a morte de Jonas Savimbi, o líder histórico da Unita, numa emboscada na região de Luvu, na fronteira com a Zâmbia.

As duas guerras civis não estão separadas apenas pela geografia. O conflito colombiano transcorre sob os holofotes da mídia mundial, pois ocupa lugar destacado entre as prioridades de política externa de Washington. O conflito angolano, por sua vez, é uma “guerra esquecida” – uma tragédia social que não interessa às grandes potências.

A “guerra esquecida” em Angola

Jonas Savimbi, morto aos 67 anos por uma saravaida de balas que deixaram seu corpo quase irreconhecível, teve o seu momento de glória. Em 1986, chegou a ser recebido em Washington, com honras de chefe de Estado, pelo então presidente Ronald Reagan, que o saudou como um “combatente da liberdade”. A guerra angolana ocupava, nas etapas finais da Guerra Fria, posição privilegiada na agenda dos Estados Unidos.

As origens do conflito remontam à descolonização portuguesa de Angola. Depois da “Revolução dos Cravos” de 1974, que derrubou o regime fascista criado por Salazar, Portugal desistiu de sustentar as guerras coloniais africanas. Mas a retirada portuguesa deflagrou o conflito militar entre as facções angolanas que combatiam pela independência.

O MPLA, financiado por Moscou, conquistou o poder em Luanda, marginalizando a FNLA e a Unita. A FNLA tinha no Zaire (atual Congo) o seu principal ponto de apoio e rapidamente entrou em dissolução. Mas a Unita – apoiada pelos Estados Unidos, a China e a África do Sul do apartheid – organizou uma guerrilha poderosa, que chegou a contar com 60 mil homens bem armados e controlar vastas áreas do interior. Sob o signo da Guerra Fria, o MPLA apresentava-se como movimento comunista e pró-soviético, enquanto a Unita comportava-se como defensora de uma “Angola ocidental”.

O encanto foi quebrado pelo fim da Guerra Fria. O colapso da União Soviético provocou um giro político do MPLA. Com as negociações de paz, conduzidas pela ONU, Washington interrompeu o financiamento da Unita, que também perdeu o apoio da África do Sul de Mandela. Contudo, sucessivos acordos de paz terminaram em fracasso e no reinício do conflito que transformou Angola no “país dos mutilados”.

O pós-Guerra Fria revelou o verdadeiro sentido da guerra angolana, que jamais foi um confronto ideológico. O MPLA representa essencialmente a população de etnia Mbundo, dominante no norte e nas principais cidades costeiras. A Unita representa a etnia Ovimbundu do sul do país. A guerra angolana consiste numa disputa entre elites etno-tribais pelo controle do aparelho de Estado e das rendas de exportação. No poder, o MPLA financiou-se por meio das exportações petrolíferas geradas no enclave de Cabinda. A Unita, por sua vez, financiou-se através do controle das redes de contrabando de diamantes.

A emboscada que encerrou a longa carreira de “senhor da guerra” de Jonas Savimbi marca o desmantelamento da Unita, sob a ofensiva militar dos últimos anos conduzida pelo MPLA. A guerra angolana pode estar chegando ao fim, ou pelo menos se degradando em conflito crônico de baixa intensidade.

O Plano Colômbia e a “guerra ao terror”

As guerrilhas de esquerda colombianas organizaram-se nas décadas de 60 e 70, sob o impulso da Revolução Cubana. Elas expressavam, atrás do manto da linguagem castrista, as profundas desigualdades sociais e revelavam os limites políticos da “democracia oligárquica” na Colômbia.

Mas as guerrilhas colombianas só se tornaram uma ameaça verdadeira quando o Estado colombiano experimentou o apodrecimento provocado pelos “cartéis da droga”. Esse processo aprofundou-se durante a década de 80, quando praticamente todas as instituições de Estado foram envenenadas pelo dinheiro do narcotráfico.

A desmoralização crescente do governo e das forças armadas resultou no surgimento de grupos para-militares de extermínio, que combatem as guerrilhas com seus próprios métodos. As guerrilhas extraem rendas do narcotráfico através da cobrança de “proteção” para as plantações e o comércio das drogas. Os grupos para-militares de extermínio são diretamente financiados pelo narcotráfico.

A eleição de Andrés Pastrana, em 1998, descortinou um caminho para a estabilização. Pastrana abriu negociações de paz com as Farc, a maior das guerrilhas de esquerda, e desmilitarizou uma zona do interior do país, entregando o seu controle à direção do grupo guerrilheiro. Contudo, o processo de paz jamais avançou.

O fracasso das negociações tem, sobretudo, causas internas. Mas o governo de Pastrana e as Farc precisavam de mediadores internacionais para avançar – e não os encontraram. A virtual ausência da diplomacia brasileira criou um vácuo que proporcionou a intervenção ativa de Washington. O Plano Colômbia, formulado e aprovado na administração Clinton, criou um quadro de estreita cooperação entre Washington e Bogotá. Orientado ostensivamente para a repressão ao narcotráfico, o Plano Colômbia flerta com a noção de narco-guerrilha e abre caminho para o financiamento de operações voltadas contra as Farc e os demais grupos guerrilheiros.

Contudo, o Plano Colômbia surgiu bem antes do 11 de setembro e, portanto, numa moldura alheia à “guerra contra o terror” de George W. Bush. A degradação das negociações de paz nos últimos meses e o encerramento de todo o processo, agora, parecem estar associados à nova política externa de Washington.

Assessores de Bush, sobretudo no Pentágono, classificam cada vez mais nitidamente as Farc entre as organizações terroristas. Tudo indica que os candidatos à sucessão de Pastrana estão sendo convencidos de que, no governo, só terão o apoio indispensável de Washington caso decidam agir militarmente contra as Farc. As distinções que, no Plano Colômbia, separam conceitualmente as guerrilhas de esquerda dos cartéis da droga estão sendo borradas de uma vez por todas.

Nas Filipinas, oficiais das forças armadas dos Estados Unidos treinam as tropas locais para o combate contra uma organização armada islâmica. O modelo filipino pode servir para o caso colombiano.









 

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