Imprima essa página !

 



Fale Conosco


Créditos
Geografia - Nelson Bacic Olic


  15/2/2002  A questão nordestina: permanências e mudanças

A noção espacial que temos hoje daquilo que se convencionou chamar de Região Nordeste é recente, datando do início do século XX. Antes desta época existiam vários “nordestes”, áreas com características geoeconômicas bastante diferenciadas e que não mantinham quase nenhuma relação entre si.

Só quando o processo de integração nacional, induzido pelo desenvolvimento da industrialização, atingiu o país é que o Nordeste passou a ser encarado como uma região individualizada no espaço brasileiro. O processo de industrialização teve como uma de suas principais conseqüências a concentração da atividade industrial no Sudeste fato que agravou a dependência do Nordeste em relação aquela região

Pode-se afirmar que os debates mais pertinentes sobre a questão regional nordestina surgiram no final da década de 1950, no contexto internacional da Guerra Fria, num momento marcado pelo sucesso da Revolução Cubana (1959), que foi encarado por muitos movimentos de esquerda tanto no Brasil, como no resto da América Latina, como um fato precursor de profundas mudanças sociais, políticas e econômicas.

Foi nessa época que surgiu o primeiro órgão de planejamento regional do Brasil, a Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, atual Agência de Desenvolvimento do Nordeste) cuja estratégia principal dava ênfase à industrialização, com base em recursos obtidos através de incentivos fiscais e financeiros e também por investimentos estatais que visavam ampliar a infra-estrutura viária e energética da região.

No setor agropecuário, a Sudene tinha como objetivos promover reformas que objetivassem a ampliação da produção agrícola, através da utilização de técnicas modernas, especialmente de irrigação no semi-árido e introduzindo profundas modificações nas atividades agrárias da Zona da Mata. Acreditava-se naquela época que esse conjunto de transformações contribuiriam para mudar o trágico perfil social da região.

Desde 1960, data de criação da Sudene, até os dias atuais, o Nordeste mudou muito. Demograficamente, por exemplo, a região tinha em 1960 cerca de 22 milhões de habitantes (31,7% da população brasileira); hoje a população regional é de aproximadamente 47 milhões (27%). Nesse período, a região deixou de ser uma área onde a maioria da população vivia em áreas rurais. Atualmente, mais de 2/3 dos nordestinos vivem em áreas urbanas.

Uma avaliação da ação da Sudene do ponto de vista econômico permite várias interpretações. Todavia, não se pode esquecer nessa avaliação que, a atuação desse órgão verificou-se num contexto mundial em rápida transformação e numa região periférica de um país periférico.

De um lado, verificou-se uma diversificação da estrutura industrial, com o maior crescimento do setor de bens intermediários em detrimento dos bens de consumo não-duráveis que, antes da Sudene, era o segmento industrial principal. Quanto ao setor agropecuário, alguns espaços agrícolas apresentaram significativo processo de modernização, sobretudo naqueles onde se desenvolveram as técnicas de irrigação. O setor serviços, especialmente nas capitais estaduais e regionais, passou a ter importante presença na vida urbana. O turismo, em especial, teve um crescimento vertiginoso.

Paradoxalmente, a participação do PIB (Produto Interno Bruto) nordestino no conjunto do PIB nacional pouco se modificou. Se, em 1960, o PIB regional era de cerca de 12% e hoje ele é de 13,12% (só para efeito de comparação, a participação do PIB de São Paulo – 34,95% - é quase três vezes maior).

No interior da região, os desequilíbrios geoeconômicos são enormes: três estados da região, Bahia, Pernambuco e Ceará, respondem por cerca de 75% da produção das riquezas regionais. Em termos estaduais os desequilíbrios continuam: a Bahia contribui com 31% e, no extremo oposto, Sergipe gera apenas 4% do PIB regional.

A situação social da região, apesar de algumas melhoras, é ainda muito ruim. Os índices que avaliam as condições de vida da população mostram seus valores mais baixos na região. Assim, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, todos os estados nordestinos apresentam resultados inferiores à média brasileira. Entre os dez menores índices de IDH do país, oito são de estados do Nordeste. A região também apresenta as maiores taxas de mortalidade infantil e a menor expectativa de vida dentre as regiões brasileiras.

Novos focos de dinamização geoeconômica

Querer se interpretar o Nordeste apenas como região-problema, com áreas assoladas periodicamente pela seca, com enormes bolsões de pobreza, onde a ação do Estado quase sempre só fez por consolidar velhas estruturas e perpetuou situações de miséria é insuficiente, na atualidade, para entender as dinâmicas do espaço regional.

Hoje, mais do que em qualquer época do passado, um dos principais aspectos a ser destacado é a crescente diversidade de sua organização espacial interna . Assim, convivem lado a lado na região, focos de expressivo dinamismo econômico ao lado de áreas onde as estruturas tradicionais estão cristalizadas há muito tempo. Não resta dúvida que a maior diversidade geoeconômica do Nordeste na atualidade, especialmente nos focos de maior dinamismo, deve-se, embora não exclusivamente, à ação da Sudene.

Podemos distinguir pelo menos sete áreas de maior dinamismo econômico no interior da região:

1. o pólo petroquímico de Camaçari, na Bahia;
2. o pólo têxtil e de confecções de Fortaleza, no Ceará;
3. complexo mineral-metalúrgico de Carajás, que abrange extensas áreas do Maranhão;
4. o pólo agroindustrial de Petrolina-Juazeiro, no médio vale do São Francisco (Bahia e Pernambuco, cuja a base é a fruticultura irrigada);
5. as áreas de moderna agricultura de grãos, especialmente soja, do oeste da Bahia e porções meridionais do Maranhão e Piauí.
6. o pólo de fruticultura irrigada do vale do rio Açu, no Rio Grande do Norte;
7. os diversos pólos turísticos implantados nas principais cidades da região, especialmente as capitais, e em áreas adjacentes a elas.

As áreas do Nordeste nas quais a resistência às mudanças continua sendo a “marca registrada” do ambiente sócio-econômico, correspondem a aquelas onde se pratica a tradicional cultura canavieira e no Sertão semi-árido. Nessas amplas porções do território nordestino, o processo de modernização, quando ocorreu, foi espacialmente seletivo e restrito, fato que contribuiu para a manutenção das estruturas tradicionais.

Essas áreas têm em comum o fato de serem de ocupação antiga nas quais as oligarquias criaram sucessivos mecanismos de preservação. A questão agrária, hoje como no passado, continua sendo dramática e vem se agravando, mesmo onde a irrigação introduziu uma agricultura mais modernizada.

Nesses espaços resistentes às mudanças, os velhos esquemas sociais, econômicos e políticos têm, na injusta estrutura fundiária e no controle do acesso à água, suas bases de sustentação e dominação.



 

Geografia - Outras Notícias

8/9/2010 Recursos oceânicos são alvo de disputas entre Estados

16/8/2010 Uma nova regionalização para o Nordeste

29/6/2010 O clima, as sociedades e os tipos de habitações

21/6/2010 A questão da água na Mesopotâmia


14/6/2010 Uma nova visão geográfica sobre o Norte do Brasil


8/6/2010 Os muçulmanos no Extremo Oriente e Europa


31/5/2010 Grandes linhas do plano estratégico de defesa do Brasil

19/5/2010 A importância do poder aéreo

10/5/2010 Escassez do “ouro azul” gera tensões hidroconflitivas

23/6/2009 A crise econômica atual: algumas frases para se refletir sobre ela

30/3/2009 América Latina: uma região sem conflitos?

9/3/2009 Conflitos no antigo espaço soviético

18/11/2008 O peso e a influência das 12 maiores metrópoles brasileiras


20/10/2008 Petróleo e gás no mar Aral, sonho envolto num pesadelo

24/9/2008 ANTROPOCENO UM NOVO NOME PARA O PRESENTE GEOLÓGICO?

10/6/2008 Interesses econômicos e questões geopolíticas contaminam os ideais olímpicos


29/4/2008 Os biocombustíveis, o etanol e a fome no mundo

8/4/2008 Cenários geopolíticos no Oriente Médio

28/11/2007 O Vietnã não é mais só o nome de uma guerra

29/10/2007 Bandeira, símbolo de identidade

26/9/2007 Aspectos dos conflitos nas últimas décadas

4/9/2007 Os polêmicos projetos de hidrelétricas na Amazônia

18/6/2007 Sai o petróleo, entra o milho



11/6/2007 O “encolhimento” das populações do Japão e da Rússia


14/5/2007 Santos Dumont e o poder aéreo


23/4/2007 De satélites soviéticos a “tigres” da Europa

16/4/2007 Natureza e geopolítica nos mares fechados

9/4/2007 Evolução geopolítica do Japão

9/10/2006 UM “SUBIMPERIALISMO” BRASILEIRO NA AMÉRICA DO SUL?

3/10/2006 Cafta-DR e os novos caminhos da América Central

14/8/2006 Por mares nunca dantes preservados

3/7/2006 China: novas ameaças demográficas

26/5/2006 Um primeiro de maio diferente

17/4/2006 O IRÃ NÃO É O IRAQUE.

19/12/2005 O clima dos últimos 650 mil anos

14/11/2005 PREVISÕES DA POPULAÇÃO MUNDIAL PARA A METADE SÉCULO XXI

3/10/2005 BRASIL: EXPORTAÇÕES FRUTIFICANDO

29/8/2005 Perspectivas de crescimento da economia mundial

27/6/2005 A Terra e seus 6,5 bilhões de habitantes

16/5/2005 Índia: conflitos internos e projeções geopolíticas

18/4/2005 A Geografia dos Shoppings Centers no Brasil

14/3/2005 O islamismo no continente africano

29/11/2004 Geopolítica da nova Ásia Central

3/11/2004 A "caixa d'água" do Brasil

4/10/2004 Ossétia do Norte: baluarte ortodoxo do Cáucaso

8/9/2004 Ossétia do Norte, Chechênia e os conflitos no Cáucaso.

22/3/2004 África: novos conflitos, novos personagens

16/2/2004 O grande desafio do agronegócio no Brasil

19/1/2004 Raízes e características das desigualdades no Brasil

5/1/2004 Civilizações: características e o domínio do Ocidente

24/11/2003 Região Sudeste: ecossistemas e impactos ambientais

27/10/2003 Bolívia, um país (quase) sem saídas

22/9/2003 Sobre casas, climas e paisagens

11/8/2003 Nem tudo é azul no Danúbio

30/6/2003 No Congo, mais um drama africano

21/5/2003 Estados Unidos e México: os perigos da fronteira


5/5/2003 Recursos hídricos das regiões brasileiras: aspectos, usos e conflitos

28/3/2003 Sobre tempestades, raposas e ratos do deserto

24/2/2003 Pobreza e riqueza: nações e regiões

27/1/2003 As novas regiões metropolitanas do Brasil

9/12/2002 Nigéria: mais uma das tragédias africanas

25/11/2002 Sadam Hussein: realidade e ficção

28/10/2002 Aspectos da evolução demográfica do Brasil meridional

3/10/2002 Cáspio: natureza, economia e geopolítica

2/9/2002 Geopolítica do Mediterrâneo europeu

22/7/2002 No "coração" de todas as Rússias

24/6/2002 Geopolítica da Oceania

27/5/2002 Moscou impõe sua pax no Cáucaso

15/3/2002 Fluxos migratórios contemporâneos

1/3/2002 A visão palestina da paz

1/2/2002 Bangladesh: “tão perto da Índia e tão longe do Paquistão”.

15/1/2002 Mediterrâneo: um mar entre três continentes

1/1/2002 A Bacia Platina no contexto das relações Brasil-Argentina

15/12/2001 Aspectos do novo rural brasileiro

30/11/2001 A questão dos refugiados palestinos

15/11/2001 A civilização islâmica

30/10/2001 O (quase) desconhecido Afeganistão

15/10/2001 Paquistão: o país onde nasceu o taliban

28/9/2001 A questão da água no mundo e no Brasil

7/9/2001 A diáspora do país mais populoso do mundo

24/8/2001 A Geografia dos Shoppings Centers no Brasil

3/8/2001 Estados Unidos: imigração e desigualdades sociais

13/7/2001 Estados Unidos: características de uma potência (também) demográfica

22/6/2001 A complexa realidade histórico-geográfica da Cachemira

1/6/2001 Evolução da população das regiões brasileiras nos últimos 50 anos

18/5/2001 A catástrofe ambiental e humana do mar de Aral

4/5/2001 Aspectos regionais da cultura da soja no Brasil

20/4/2001 Os caminhos percorridos pela soja no Brasil

7/4/2001 Questão de bom censo


  Revista Pangea

Copyright Pangea. Todos os direitos reservados.