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Geografia - Nelson Bacic Olic


  15/1/2002  Mediterrâneo: um mar entre três continentes

O Mediterrâneo é um mar quase fechado que banha o litoral meridional da Europa, o ocidental da Ásia e a faixa costeira da África do Norte. Possui uma ligação natural com o Oceano Atlântico através do estreito de Gibraltar e, outra artificial com o Mar Vermelho e Oceano Índico conectados pelo canal de Suez. Os estreitos de Bósforo e Dardanelos o colocam em contato com o Mar Negro.

O Mediterrâneo apresenta grandes profundidades e é quase totalmente rodeado por áreas com ocorrências de montanhas de formação geológica recente, como o Pireneus (entre Espanha e França), Alpes (sudeste da França), Apeninos (Itália) e cadeia do Atlas (noroeste da África). A existência de inúmeras penínsulas (Ibérica, Itálica, Balcânica, do Peloponeso) tornam a costa mediterrânea bastante recortada, fato que historicamente foi aproveitado para instalação de portos bastante movimentados como o de Barcelona (Espanha), Marselha (França), Gênova (Itália) e Pireu (Grécia).

De maneira geral, podem ser distinguidas duas áreas distintas do Mediterrâneo; a bacia oriental e a ocidental, que se comunicam através do canal da Sicília. Essa divisão é, no entanto, fragmentada pela existência de mares menores como é o caso do Tirreno (na bacia oriental) e Jônico, Adriático e Egeu (na bacia oriental).

Contatos e confrontos

Desde a Antigüidade, o Mar Mediterrâneo foi uma zona privilegiada de contatos culturais, intensas relações comerciais e de constantes enfrentamentos políticos. Às margens do Mediterrâneo floresceram, desenvolveram-se e desapareceram importantes civilizações, como a egéia, a egípcia, a fenícia, a grega, a romana e a bizantina.

Um dos fatos marcantes da história da região aconteceu em 1453 quando os otomanos tomaram a cidade de Constantinopla (atual cidade turca de Istambul) e fecharam o Mediterrâneo oriental à penetração européia. Esta teria sido uma das razões que teria impelido portugueses e espanhóis se aventurarem pelo Atlântico em busca do caminho das Índias.

Na segunda metade do século XVIII, a Inglaterra e a França foram ampliando suas influências sobre a região, aproveitando a gradativa decadência otomana e, ao mesmo tempo, tentando impedir a expansão da Rússia. A Inglaterra que foi afirmando-se cada vez mais como grande potência marítima, estabeleceu-se em alguns pontos estratégicos (Gibraltar e nas ilhas de Malta e Chipre), que se transformariam em importantes bases navais.

Em 1869, com a abertura do canal de Suez, obra construída por um consórcio franco-britânico, o Mediterrâneo Oriental passou a integrar as grandes rotas do comércio internacional, passando a ter um papel relevante nas relações políticas e comerciais das potências européias.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial (1914/19), cristalizou-se a supremacia britânica, num momento em que o Mediterrâneo se transformava numa artéria vital para a Europa em função de estabelecer uma ligação mais rápida e econômica entre as áreas consumidoras e produtoras de petróleo, estas últimas situadas no Oriente Médio.

Algumas décadas depois, ao findar-se o segundo conflito mundial em 1945, o Mediterrâneo, assim como quase todas as áreas do mundo, encaixou-se imediatamente nos esquemas do jogo de influências e alianças engendrados pela Guerra Fria. Com a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), os EUA substituíram gradativamente os britânicos como potência dominante do Mediterrâneo.

Todavia, os processo conflituosos de independência de uma série de colônias européias situadas especialmente no norte da África, a pressão exercida pela crescente expansão da marinha soviética, os vários conflitos entre países árabes e Israel e as tradicionais rivalidades entre países da região, transformaram o Mediterrâneo numa área de freqüentes tensões geopolíticas.

O fim da Guerra Fria se, de um lado eliminou ou amainou algumas velhas tensões, por outro ensejou o surgimento de inúmeros novos desafios para o Estados da região.

São dezoito os Estados que possuem terras banhadas pelo Mediterrâneo. Eles apresentam grandes diferenças no que se refere ao tamanho, à evolução histórico-cultural e ao nível de desenvolvimento.

Por exemplo, há países como a Espanha, a Itália e a Grécia que são membros da União Européia; Estados que fazem parte da Otan, como a Turquia e a França; são também “mediterrâneos” países árabes-muçulmanos como a Síria, Líbano, Egito, Líbia, Marrocos, Argélia e Tunísia, assim como aqueles que até o início da década de 1990 adotavam o sistema socialista como a Albânia e a Croácia e a “nova” Iugoslávia. Existem ainda Malta e Chipre, países insulares que só conseguiram suas independências na década de 1960 e, por fim, Israel, um “corpo estranho” em meio ao “mar” árabe-muçulmano que é o Mediterrâneo Oriental.

Praticamente todos os países que margeiam o Mediterrâneo apresentam, ou apresentaram num passado recente, tensões e conflitos internos ou problemas no relacionamento com nações vizinhas.

 

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