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Idéias - José Arbex Jr.


  7/4/2001  O funk e a crítica

A “nova onda” funk, amplamente explorada por programas de televisão, é marcada por letras que de músicas que fazem alusões explícitas ao ato sexual, e portadores de estímulos a atitudes que poderiam ser consideradas agressivas. Eis alguns exemplos, colhidos ao acaso:

Dói, um tapinha não dói, tapinha não dói
Só um tapinha

Máquina de sexo, eu transo igual a um animal
A Chatuba de Mesquita do bonde do sexo anal
Chatuba come cu e depois come xereca
Ranca cabaço, é o bonde dos careca

Me chama de cachorra, que eu faço au-au
Me chama de gatinha, que eu faço miau
Goza na cara, goza na boca
Goza onde quiser.

Exagero? Pornografia? Lixo cultural? Vulgaridade? Nada disso, responde um dos grandes expoentes da onda funk, um certo “Tigrão”, em entrevistas dadas a apresentadores de programas de televisão e a revistas. “Tigrão” diz que “as pessoas gostam desse erotismo”. Diz que as letras “nem são tão pesadas”, que têm “duplo sentido”, e que o público infantil ouve funk

Os argumentos contra e a favor se multiplicam. De fato, a onda funk provocou dois tipos antagônicos de reação, ambos equivocados. O primeiro é moralista; condena o uso de “palavras obscenas” e “gestos lascivos”, como faz, por exemplo, a edição 1.693 da revista Veja, de 28 de março (p. 83 a 86). Com base em argumentos exclusivamente morais, teríamos que crucificar uma ampla linhagem de autores, alguns “malditos” até hoje, passando por Gregório de Matos, Bocage, Plínio Marcos e um certo Carlos Drummond de Andrade, para citar só os mais conhecidos de língua portuguesa.

No outro extremo, estão aqueles que acham que “tudo pode”, e identificam no funk uma manifestação “popular”. A confusão, aqui, é facilmente identificável: considera-se “popular” aquilo que “o povo fala”, a linguagem das ruas, o que escapa à norma culta. Trata-se, na verdade, de uma concepção caricatural de “povo” e de “cultura popular”. Esse raciocínio, no limite, teria que considerar Ratinho como uma expressão da “cultura popular”, ao passo que Karl Marx seria um típico representante da “elite”. Não é o caso, aqui, de estender o debate. Basta assinalar que “povo” e “elite” não se definem em relação ao uso da norma culta e respeito aos “bons costumes”, mas sim em relação ao seu lugar social na produção e lugar político no projeto nacional.

O problema do funk não é o funk. A moda vai passar, como já passou a onda da “boquinha da garrafa” e outras bobagens semelhantes. O problema é que cada uma dessas novas “ondas” contribui para depreciar um pouco mais a relação do ser humano com seu próprio corpo, para banalizar a relação sexual, para industrializar o erotismo e criar comportamentos de massa que são, de fato, a negação da sexualidade naquilo que ela tem de mais singular e individual. É a operação inversa à da alta cultura ou mesmo da cultura popular e folclórica: ao invés de criar novas possibilidades para o espírito, cria comportamentos condicionados; no lugar do pluralismo, o sempre igual, a rotina, o mesmo: gestos, ritmos, versos padronizados, produzidos em série para um público condicionado a não pensar.

Como não há limite para o desejo sexual e para as pulsões, é apenas razoável supor que a próxima “onda” vá ser ainda mais explícita, mais violenta, mais agressiva do que a atual (como o funk é mais explícito que a garrafa, e esta mais do que a lambada e assim por diante). Mas este é, precisamente, o fundamento da sociedade de consumo: o gozo está sempre além, e preciso sempre mais. César entendia isso muito bem, ao oferecer como espetáculo a entrega dos cristãos aos leões. A televisão, em nossa época, substituiu o circo romano; a carne que se mostra é a do sexo, das cachorras e dos tigrões. O sangue fica para o suposto “jornalismo verdade” das chacinas em favelas e cenários urbanos. E a classe média, lobotomizada entre dois pólos – sexo e violência, Eros e Tanatos –, entrega-se, impotente, à razão cínica do salve-se quem puder.

A crítica moralista do funk só serve para ocultar a indústria da carne e do sangue, tanto quanto a sua aceitação populista e demagógica.

Veja na próxima edição:
O CPI-ismo e a questão democrática no Brasil

 

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