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Créditos
Relações Internacionais - Demétrio Magnoli


  15/1/2002  Tango e samba

A renúncia de Adolfo Rodríguez Saá, presidente por uma semana da Argentina, foi noticiada pelo jornal O Estado de S. Paulo no caderno de economia. A renúncia de seu antecessor, Fernando De La Rúa, provocada pela revolta popular, também tinha sido noticiada no caderno de economia. O diário paulistano expressava assim uma noção do senso comum: o problema da Argentina é a economia.

O senso comum está errado. O problema da Argentina é a política ou, mais precisamente, uma elite política que se entregou à destruição do Estado para conservar a conversibilidade do peso e a sua paridade com o dólar.

Sob a superfície turbulenta do sistema financeiro, a Argentina tem uma economia viável. O seu território, de 2,8 milhões de km2, com terras férteis abundantes e vastos recursos energéticos, abriga apenas 37 milhões de habitantes. A agropecuária de exportação é globalmente competitiva. A força de trabalho da indústria e dos serviços exibe qualificação geral nitidamente superior à brasileira. O analfabetismo é inferior a 4%, contra cerca de 15% no Brasil. A taxa de mortalidade infantil não atinge a metade da brasileira.

O sistema monetário do peso/dólar foi criado, há uma década, para estancar a tragédia da hiperinflação, que amputou o final do mandato do presidente Raúl Alfonsín. Mas o expediente, adotado na hora do desespero, transformou-se em programa político que congregou os dois partidos tradicionais.

No plano econômico, o peso/dólar soldava a aliança entre a elite política argentina e as finanças internacionalizadas, às custas da ruína da indústria e da classe média do país. Os fluxos de investimentos gerados por essa aliança promoveram alguns anos de expansão acelerada, encerrados com a crise asiática de 1997. Contudo, o sentido estratégico da opção pelo peso/dólar não deve ser obscurecido: a elite argentina agarrou-se à sua moeda conversível para separar o destino da Argentina do destino do Brasil.

O temor da hegemonia brasileira foi um dos materiais constitutivos do nacionalismo argentino. Juan Bautista Alberdi, um dos “pais da pátria” argentina, escreveu, em 1869, no seu El Imperio del Brasil ante la democracia de America: “Toda República da América do Sul deve ser aliada natural de todo Estado europeu ou norte-americano que tenha conflitos com o Brasil e, de antemão, deve assegurar que terá o apoio moral de uma República sul-americana que entre em conflito com o Brasil”.

Nas condições de estreita cooperação criadas desde a formação do Mercosul, a Argentina deixou de temer uma invasão brasileira. Mas a sombra, real ou inventada, da liderança regional do Brasil continua a pairar sobre Buenos Aires. O peso conversível funcionou como escudo contra o projeto de integração monetária do Mercosul. Por isso não podia ser abandonado. Assim, prestando tributo ao temor histórico da hegemonia regional brasileira, o nacionalismo argentino curvava-se à geopolítica global de Washington.

Desde a crise asiática de 1997, ficou óbvio que o sistema do peso/dólar asfixiava o país. Em janeiro de 1999, a desvalorização do real desferiu o golpe mortal na paridade cambial argentina. Mas o peronista Carlos Menem e seu sucessor Fernando De La Rúa, da UCR, apegaram-se com o fervor dos fanáticos à sua “moeda forte”, arrastando o país para a depressão econômica e, depois, para o colapso financeiro e a implosão institucional.

O colapso financeiro gerado pelas opções da elite política argentina provocou o apodrecimento das instituições democráticas. Há meses, diante de um horizonte caótico, De La Rúa virtualmente abriu mão do poder conferido pelas urnas, entregando-o a Domingo Cavallo, candidato derrotado nas eleições presidenciais. Logo depois da renúncia de Saá, os partidos tradicionais articularam o semi-golpe parlamentar que cancelou as eleições extraordinárias e entregou o cargo de presidente ao peronista Eduardo Duhalde, também derrotado nas últimas eleições presidenciais. Na Argentina, a derrota nas urnas parece ser condição indispensável para exercer o poder.

O Brasil no espelho argentino

Hoje, a elite argentina luta encarniçadamente, nos corredores dos palácios, pelos destroços do Estado, enquanto o povo ocupa as praças e ruas. Domingo Cavallo, o criador do peso/dólar, costumava gabar-se de que a Argentina, ao contrário do Brasil, tinha uma moeda forte. A “moeda forte” diluiu-se numa miríade de fantasmas monetários, que são os bônus emitidos pelas províncias. Agora, a Argentina não tem moeda, forte ou fraca, nem bancos, que estão fechados para retiradas significativas em pesos e para a conversão de pesos por dólares. Também não tem presidente eleito. Logo mais, não terá partidos políticos, pois o peronismo parece fadado a seguir a trilha da moribunda UCR. Os pilares básicos de legitimidade política virtualmente deixaram de existir.

O espelho argentino desmente a imagem, tão difundida, de uma elite brasileira incompetente. Por aqui, a travessia da década experimentou períodos de euforia, comédia e drama, mas a sombra da tragédia nunca rondou perto demais.

Os traços comuns existem, é claro. Como lá, o “real forte” do passado recente animou o baile das finanças, seduziu um Fernando Henrique ávido por novo mandato e enfraqueceu as defesas imunológicas da economia nacional. Mas, por aqui, ninguém ousou ancorar definitivamente a moeda nacional no dólar e, na hora da tempestade, apenas Gustavo Franco foi lançado ao mar. A desvalorização de janeiro de 1999 teve elevados custos sociais e econômicos, mas não afetou o arcabouço da legitimidade política.

O efêmero Rodríguez Saá explicou aos argentinos que não desvalorizaria o peso para evitar o empobrecimento dos trabalhadores – que, contudo, só poderiam usar uma outra moeda, que sequer existia e não valeria a metade do peso conversível. Esse padrão de cinismo aventureiro, elaborado originalmente por Domingo Cavallo, jamais teve curso no Brasil. Por aqui, há uma elite que sabe interromper a festa a tempo de ouvir os trovões da tempestade.

A competência da elite brasileira, quando se trata de conservar a estabilidade política, tem profundas raízes históricas. Não é fenômeno novo e não há, portanto, motivo para “agradecer” a FHC ou Malan pela desvalorização controlada do real, como sugeriu o jornalista Élio Gaspari na Folha de S. Paulo. O elemento novo é outro e tem importância vital.

Na Argentina, não existe oposição verdadeira ao par histórico formado pelo Partido Justicialista e pela UCR. A Frepaso, candidata a se tornar essa oposição, imolou-se voluntariamente na fogueira do governo De La Rúa. No Brasil, a ira popular, antes de escorrer para as ruas, é filtrada pelo PT e pela CUT, que se firmaram como pilares da ordem institucional. A elite brasileira distingue-se da argentina por saber se renovar, incorporando a oposição nascida dos movimentos populares. A Argentina não é aqui.



 

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