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Idéias
- José Arbex Jr.
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1/1/2002
Um conto de Natal
Por James Petras (*)
Tradução de D. Demétrio Valentini (**)
O povoado estava sob ocupação, o comércio fechado, as repartições públicas tinham sido bombardeadas, sua casa estava em ruínas, e José desempregado. Ninguém tinha dinheiro para contratar um carpinteiro, e mesmo que alguém tivesse, a ocupação não permitia que se construíssem novas moradias, se fizessem reformas, ou se transportasse material de construção. Quando Maria saiu, de madrugada, o ar frio lhe bateu no rosto, por isto ela se cobriu a face e apertou o pescoço com seu lenço. Foi ao poço e encheu o balde de água. Agachou-se com dificuldade, pois a barriga avolumada a incomodava. Tivera contrações a noite inteira, e pressentia que a hora estava chegando. Tinha procurado lugar junto a parentes no povoado vizinho, chamado Belém. Mas os caminhos estavam bloqueados por tanques, veículos blindados e soldados com rifles automáticos.
José lavou o rosto, e ajudou Maria a deitar-se no colchão sobre o piso de terra, em sua tenda improvisada. Passou sua mão calejada sobre a cabeça de Maria, e a colocou delicadamente sobre sua barriga. Maria sorriu, apesar do incômodo que sentia. Era apenas menina, nos seus últimos tempos de adolescência, e uns vinte anos mais nova que o barbudo José.
“Falei com Samí, o pastor de ovelhas. Aceitou levar-nos a Belém pelos atalhos da roça nesta noite”.
José foi juntando seus escassos pertences. À meia-noite, Maria montou sobre o burro, e José carregou nas costas o mais essencial. Samí os guiava. A cada solavanco da estrada, uma dor aguda corria pelos músculos e pela barriga de Maria. Na medida que se aproximavam de Belém, foram vendo fortes luzes, que vasculhavam os arredores da cidade. Samí apontou para uma brecha próxima à cidade.
“Podem cruzar por ali, mas devem abandonar o burro!”
José olhou para Samí com desconfiança
“Deixar o burro, nunca!”
Samí se sentiu ofendido pela desconfiança de José:
“Então, deverão cruzar pelo posto policial israelense. Eu os deixo. Que Deus os acompanhe!”
José olhou para Maria. Estava cansada. Fez o burro descer pela colina até entrar na rodovia. De repente, uma forte luz o cegou. E uma voz áspera e dura retumbou, mandando que parassem.
“Parem, ou vamos disparar de imediato!
“Apeie, e jogue no chão sua bolsa e levante as mãos. Agora!, senão disparamos!”
José colocou a sua bolsa no chão, e ajudou Maria a desmontar. Ela estava tonta, sonolenta, e muito assustada.
“Aproximem-se com as mãos para o alto. Primeiro você, árabe sem vergonha!”
Maria, levantando os braços, não se agüentava, e sentia a necessidade de aliviar sua barriga, pressionada pelo peso e pelo susto. Um soldado gesticulou com violência, ao mesmo tempo que ordenava a José:
“Coloque suas mãos atrás da cabeça!”
Maria se sentiu sozinha. Logo ordenaram que ela se aproximasse lentamente. Os soldados engatilharam seus fuzis, que apontavam para a cabeça e para a barriga de Maria. Desconfiavam que ela estava trazendo uma bomba.
“Tire seu abrigo e levante o vestido!” , gritou alguém. Houve uma pausa. Maria se sentiu profundamente envergonhada. Ninguém a tinha visto nua. Levantou então o vestido. Um soldado examinou então sua barriga com binóculos:
“Nada de bomba! Só uma pança gorda ou inchada por um bebê!”
O soldado entregou o binóculo para seu superior, que resmungou, e logo esbravejou:
“Tire sua roupa! Não se faça de virgem para nós!”
Maria estava confusa, ruborizada. Tirou sua roupa, e um farol iluminou o corpo que suas calcinhas protegiam.
“Mostre tudo, puta árabe, pois queremos ver o que você é capaz de colocar entre as pernas, além daquilo que o seu marido coloca!”
Maria queria morrer de vergonha. Tirou suas calcinhas. A luz iluminou seu obscuro pelo púbico
“Vire-se!”, bradou o soldado.
Ela se virou.
“Agora vista-se! E você, barbudo, ponha-se de pé!”.
Dois soldados se aproximaram, e fizeram com que Maria desse um passo à frente. Maria e José foram interrogados durante várias horas: de onde vinham, por que tinham saído, por que sua casa tinha sido destruída, por que caminhavam de noite por caminhos da roça, com quem tinham conversado, por quanto tempo, e sobretudo, sobre sua relação com a Autoridade Palestina, Hamas, Jihiad, e Frente Nacional para a Libertação da Palestina. Cada resposta simples e direta era recebida com uma risada de suspeita.
Maria sentia contrações cada vez mais freqüentes. Seus pés estavam inchados e frios. José, um carpinteiro quase sem educação, e Maria, que nunca tinha manifestado opinião política, estavam totalmente confusos.
Um oficial cutucou sua barriga com o polegar:
“Outro subversivo! Vocês terroristas se reproduzem como coelhos!”.
Maria apertou os dentes. Um espasmo longo e doloroso percorreu todo o seu corpo. Até que o oficial superior lhes disse que podiam continuar seu caminho.
Ainda estava escuro quando entraram em Belém, e Maria mal podia continuar montada no burro, por causa de suas contrações. José estava desorientado. Não conseguia encontrar a rua nem a casa. Não havia ninguém na rua, por causa do toque de recolher. O burro torceu o nariz, e os guiou em direção a um abrigo, onde algumas cabras e ovelhas se protegiam na palha. O burro começou a paparicar a forragem.
Maria estava em pleno trabalho de parto e um gemido escapou de sua boca fechada. José a ajudou, da maneira como pôde.
Milagrosamente, o menino nasceu, e de imediato se pôs a chorar. Acendeu-se então uma luz na casa vizinha, e os seus ocupantes saíram: era um casal de palestinos. A esposa lavou o menino, e cobriu Maria com seus lençóis. Sua casa estava cheia de parentes vindos de Nablus e de Ramallah, fugindo dos mísseis israelenses.
Na noite seguinte, uma estrela brilhante iluminou os passos de três personagens que tinham vindo de regiões longínquas, e conseguiram passar pelos postos de controle sem serem vistos, por proteção de Deus, ao menos assim eles pensavam. Chegaram na choupana que abrigava o recém nascido, chamado Jesus, a quem levaram presentes, e se ajoelharam diante dele, que dormia no berço improvisado por José.
Mas de repente se escutaram gritos, o ruído de vidros quebrados e de balas de rifles derrubando portas. Um helicóptero chegou rugindo. Seguiu-se uma explosão, e a choupana voou pelos ares. Braços, pernas, cabeças de ovelha, patas de cabra, membros humanos e a cabeça de um bebê foram atirados ao ar escuro da noite.
A Rádio de Israel anunciou que três prováveis terroristas árabes, que tinham chegado do Afeganistão foram mortos em seu esconderijo em Belém, pouco depois de terem conseguido cruzar a fronteira. O Governo de Israel lamentou a morte de civis. Os meios de comunicação dos Estados Unidos repetiram a versão, ao mesmo tempo que Washington felicitava o governo de Israel por seu papel na luta internacional contra o terrorismo.
E JESUS VIVEU SOMENTE UM DIA....
(*) James Petras é sociólogo e professor da Universidade Estadual de New York
(**) D. Demétrio Valentini é bispo de Jales (SP)
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