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Palavra do Leitor
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21/8/2006
Direto de um bunker em Haifa
Este artigo foi escrito por Camilla Stivelberg, paranaense, formada em jornalismo e que está fazendo especialização em Israel.
Ela conta a experiência vivida em Haifa, a terceira maior cidade israelense, durante o conflito que, entre julho e agosto, envolveu o exército de Israel e a guerrilha libanesa do Hezbollah.
Universidade de Haifa, 16 de julho, 9h30. Escuto pelos microfones dos corredores:
- Por favor, alunos, sem criar pânico, desçam as escadas com calma até o bunker. Sem entender muita coisa, desci.
Dentro do bunker estavam professores, alunos e funcionários da universidade atentos às notícias do rádio. Sim, Haifa foi atingida por mísseis.
Ao contrário do Brasil, julho, em Israel é verão e as cidades, especialmente as do norte do país, recebem muitos turistas. A Universidade de Haifa que oferece cursos de hebraico para estrangeiros durante o período de férias estava repleta de americanos e europeus que vieram estudar o idioma.
Imagine um monte de estrangeiros que não falam a língua do país tentando entender o que estava acontecendo e trancados dentro de um bunker. O noticiário só dizia que Haifa havia sido bombardeada, a princípio não se dizia aonde nem como. Os celulares dentro do abrigo não funcionavam, havia uma certa preocupação, mas sem saber direito do quê.
Depois de 6 horas, já no início da tarde, fomos todos liberados para voltar para casa. Neste instante não havia mais perigo. Os ônibus que pararam de funcionar, voltaram a circular, tudo praticamente voltava ao normal.
Já em casa, escuto uma sirene forte que, a princípio, confundi com o som de uma ambulância e ao mesmo tempo ouvi meus vizinhos gritando: - Vamos, vamos corre para o bunker, estão atacando a gente de novo.
Ao descer as escadas em direção ao bunker comecei a reparar que os estrangeiros, todos nervosos e com muito medo, caminhavam rápido. Eu e mais doi8s brasileiros não havíamos atinado para o que realmente estava acontecendo, tudo isso para nós era inédito e completamente fora da nossa realidade vivida no Brasil.
Já os israelenses pareciam bem mais acostumados e tranqüilamente caminhavam para o abrigo, fato que muito me impressionou, pois a ordem e a calma com que se comportavam é inacreditável. Uma das provas dessa organização, a que me chamou muita atenção foi que no exato momento em que chegava ao bunker, um ônibus escolar parou nas proximidades. Orientadas pelas professoras, as crianças saíam do ônibus em fila, de mãos dadas se encaminharam para o bunker.
Em Israel todas as casas, apartamentos, shoppings e lojas têm um abrigo próprio. Nas ruas, a cada três ou quatro quadras há bunkers públicos para socorrer pedestres e motoristas.
Abrigados e ainda escutando o alarme tocar ninguém falava e todos estavam atentos às notícias do rádio. Desta vez não foi Haifa, mas sim uma cidade próxima a atingida.
Voltamos para casa cerca de uma hora e meia depois. Alarme de novo e nova correria para o bunker. Outro katyucha (míssil usado pelo Hezbollah) atingiu a parte norte da cidade.
Por motivos de segurança, a rádio anunciou que as provas finais das universidades de Haifa e Technion haviam sido canceladas por tempo indeterminado e os alunos do curso de férias seriam transferidos.
Apesar de muitas pessoas terem passado a noite no bunker preferi dormir em casa, mas por precaução dormi de roupa e com meu passaporte à mão.Ás 5h30 da manhã novamente toca o alarme de emergência. Ainda bem que dormi de roupa!
A situação continuou assim por quatro dias até receber a notícia de que as minhas aulas realmente tinham sido transferidas para Jerusalém. Do grupo que estava estudando comigo, quase metade voltou para seus países de origem.
A partir desse dia Haifa se esvaziou. Pouca gente nas ruas, várias lojas fechadas, o sistema de transportes funcionando em horários especiais e nas praias, sempre cheias nessa época do ano, não se encontrava viva alma.
O restante do país se mobilizou para ajudar e receber os habitantes do norte. Foram enviados alimentos organizaram-se comboios para levar os refugiados. Colônias de férias foram montadas nas praias de Tel-aviv para distrair as crianças, hotéis em Eilat (cidade mais meridional de Israel) abrigaram muitas famílias, nos jornais encontrava-se anúncios e um 0800 para adotar famílias. Supermercados e lojas ofereceram descontos especiais, além de doações em dinheiro.
Jerusalém parece outro país se comparada à situação vivida em Haifa. Nada de mísseis. O medo aqui é em relação aos homens-bomba palestinos.
Confesso que mesmo me sentindo mais segura em Jerusalém, quando escuto a sirene de uma ambulância, ainda levo um susto pensando nos alarmes de emergência de Haifa. Acho que vai demorar um pouquinho para esquecer.
Camilla Stivelberg
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