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Geografia - Nelson Bacic Olic


  29/11/2010  O fenômeno urbano: passado, presente e futuro

As cidades surgiram como parte integrante das sociedades agrícolas. Cerca de dois mil anos antes da era cristã, as cidades egípcias de Mênfis e Tebas já se constituíam em núcleos urbanos que abrigavam milhares de habitantes. Outras surgiram nos vales fluviais da Mesopotâmia, da Índia e da China. Elas se caracterizavam por concentrar atividades não-agrícolas, sendo locais de culto e de administração. No entanto, comportavam-se apenas como complemento do mundo rural, pois não tinham funções ligadas à produção. Isso foi válido também para as cidades gregas e romanas e mesmo para as cidades da Idade Média. Com o tempo e o surgimento do comércio de longa distância, os núcleos urbanos passaram a ter a função de entrepostos comerciais.

 

A Revolução Industrial representou uma transformação radical das cidades. Com a indústria, o núcleo produtivo das sociedades concentrou-se geograficamente e transferiu-se para o meio urbano. Á nova função de produção de mercadorias juntaram-se as funções urbanas anteriores, de administração e comércio. Essas “novas” cidades difundiram-se inicialmente pela Europa e América do Norte, e depois por todos os continentes. Elas passaram a abrigar uma parte crescente da força de trabalho, originária principalmente das áreas rurais.

 

No século XX, as cidades transformaram-se ainda mais, como conseqüência do crescimento das atividades industriais e da expansão do setor de serviços. Mais do que nunca, no raiar do século XXI, a cidade se tornou um pólo irradiador de comércio, serviços e informações. Com essas funções, ela se consolidou como centro de organização do espaço geográfico.

 

O mundo atual vive um acelerado processo de urbanização. Atualmente, mais da metade dos quase 7 bilhões de habitantes do planeta já reside em centros urbanos. Por volta de 1950, apenas 30% das pessoas do mundo moravam nas cidades. No início do século XIX, as cidades não abrigavam sequer 2% da população mundial. Segundo a ONU, em 2025 pouco mais de 60% do contingente demográfico total do mundo morará em cidades.

 

O processo de urbanização crescente da humanidade, iniciado no século XIX, verificou-se primeiramente nos países pioneiros da Revolução Industrial. Nos países do Sul subdesenvolvido, este fenômeno só tomou corpo a partir de 1950 em função da combinação de dois fatores: o êxodo rural e um expressivo crescimento vegetativo da população.

 

Não existe um consenso acerca da definição do quê seja uma cidade. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), um agrupamento humano só pode ser denominado de urbano quando 85% de sua população vive em áreas com densidade demográfica superior a 150 habitantes por quilômetro quadrado.

 

Mas, nem todos os países usam esse parâmetro numérico. No Brasil, por exemplo, o critério é administrativo: toda a sede de município, independentemente de sua população e de sua estrutura, é considerada área urbana. Por esse critério, atualmente cerca de 85% dos brasileiros moram em cidades.

 

Mesmo assim, é possível enumerar algumas características comuns aos núcleos urbanos. Todos eles possuem um aglomerado denso de construções cortadas por vias de circulação viária, além de disporem de uma série de equipamentos públicos, como escolas, hospitais, transporte e centros de lazer, e suas atividades econômicas predominantes são o comércio, os serviços e as indústrias.

 

Embora a urbanização seja um fenômeno universal, o processo não se verificou com a mesma velocidade e intensidade em todas as regiões do planeta. De maneira geral, os países desenvolvidos já se encontram há muito urbanizados, com pelo menos 75% de sua população morando em cidades. Esse também é o percentual de urbanização de grande parte das nações da América Latina e do Caribe. Já os continentes asiático e africano se apresentam ainda com maior população rural. O nível de urbanização dessas duas regiões do mundo é de cerca de 40%. Estimativas apontam para o fato de que, até 2030, aproximadamente 55% dos asiáticos e africanos estarão concentrados nas cidades.

 

Uma das principais conseqüências do processo de urbanização foi o aparecimento das megacidades, isto é, imensos aglomerados urbanos com mais de 10 milhões de habitantes. Em 1975, só existiam cinco cidades no mundo com tanta gente: Tóquio (19,8 milhões), Nova York (15,9 milhões), Xangai (11,4 milhões), Cidade do México (11,2 milhões) e São Paulo (10 milhões). Hoje, elas são 19 e as projeções indicam que este número aumentará para 25 em 2025 e dentre estas, apenas quatro estarão situadas em países do mundo desenvolvido.

 

As estimativas também apontam para uma proliferação de cidades com mais de um milhão de habitantes. Em 2015, serão 564, cerca de 75% delas localizadas em países do Sul. As cidades nesses países crescem num ritmo bem mais rápido ao das condições de infra-estrutura por elas oferecidas, situação que agrava ainda mais as disparidades sociais no interior dessas cidades, ampliando situações de marginalidade econômica e social.Uma das principais conseqüências desse processo é o grande aumento dos níveis de violência.

 

Outro fenômeno recente do processo de urbanização foi o surgimento das cidades globais. Fruto da aceleração da globalização econômica elas são definidas por sua forte influência regional e internacional independentemente de seu contingente demográfico. Assim, uma cidade com menos de um milhão de habitantes pode ser considerada uma cidade global, enquanto outra, com uma população muitas vezes maior, não é considerada como tal.

 

Abrigando modernos centros financeiros e sedes de empresas transnacionais, as cidades globais se constituem nos centros irradiadores do progresso tecnológico. São também os símbolos mais acabados do poder e da riqueza. Existem hoje 55 centros urbanos que podem ser identificados nesta categoria, a maioria deles localizados nas nações mais ricas do planeta, sendo São Paulo uma das poucas exceções.

 

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