Imprima essa página !

 



Fale Conosco


Créditos
Relações Internacionais - Demétrio Magnoli


  15/11/2010  G20, o espetáculo da soberania

Aquilo que o ministro Guido Mantega define como guerra cambial é a paisagem superficial da longa crise do sistema de Bretton Woods. O desequilíbrio entre os superávits chineses e os déficits americanos forma o relevo destacado nessa paisagem, mas não a esgota nem a explica. A crise de fundo tem uma dimensão econômica mas uma raiz geopolítica. No fim das contas, as engrenagens institucionais da ordem econômica global parecem emperradas, pela primeira vez desde o pós-guerra. O G20, palco da estreia de Dilma Rousseff na cena internacional, não é a ferramenta milagrosa de solução da crise. Antes, figura como uma expressão singular do impasse evidenciado desde a quebra do Lehman Brothers.



Na sua versão original, o edifício de Bretton Woods praticamente excluía a necessidade de interferência política no sistema monetário. O dólar refletia o ouro, que lhe servia de lastro nominal, e uma coleção de moedas orbitava em torno do dólar segundo um mecanismo de paridades quase fixas. As fundações do edifício estavam assentadas na rocha da escassez de dólares, num tempo em que os EUA eram os credores do mundo. O arranjo promoveu as três décadas gloriosas de crescimento acelerado das economias de mercado. Voluntariamente, para salvar o capitalismo, os EUA ajudaram a criar centros independentes de poder econômico, sacrificando no caminho a posição de hegemonia absoluta adquirida durante a guerra. 



Quando a escassez de dólares desapareceu, premido pelo financiamento da Guerra do Vietnã, Richard Nixon levantou a âncora da paridade com o ouro. Bretton Woods 2 não emanou de uma conferência, mas de um gesto unilateral do gerente do sistema: a retomada da prerrogativa soberana de imprimir moeda. No novo ambiente de flutuação cambial, a interferência política dos principais atores tornou-se um imperativo. O G5 e o G7, seu sucessor, nasceram como respostas à necessidade de tecer consensos em torno da governança econômica global. Eles operaram como um clube seleto, que compartilhava uma visão de mundo similar e tomava decisões informais em reuniões fechadas, protegidas do assédio da imprensa.



Desde 1971, os EUA agem de olho nas suas prioridades nacionais, dividindo com o resto do sistema internacional o custo das políticas domésticas. A desvalorização de Nixon difundiu para o mundo as pressões inflacionárias geradas no interior da economia americana. Dez anos depois, a “revolução econômica” de Ronald Reagan provocou a elevação dos juros globais, o desvio da liquidez mundial na direção de Wall Street e uma forte apreciação do dólar. Poucos anos mais tarde, tornou-se inadiável uma brusca correção de rumo, com a depreciação do dólar frente ao marco e ao yen, algo que demandava a aquiescência da Alemanha e do Japão. Washington obteve o que desejava no Acordo do Plaza de 1985, uma prova indiscutível da eficácia política do clube das potências.  



Há dois anos, os EUA buscam uma reedição do Acordo do Plaza, sob a forma de um pacto de limitação de superávits ao máximo de 4% dos PIBs nacionais, o que implicaria forte apreciação do renminbi chinês. A proposta faz sentido, mas não decola, pela conjunção de dois motivos. Um: a China não admite reproduzir a função desempenhada pelo Japão há um quarto de século. Dois: o G20 não é um G7 ampliado.



Os chineses temem repetir a trajetória do Japão depois do Plaza, quando o influxo de capitais coagulou-se em bolhas especulativas nos mercados de imóveis e ações, que explodiram na crise financeira de 1990 e redundaram numa estagnação de quase dez anos. O consenso interno em torno do renminbi depreciado estende-se do núcleo dirigente do Partido Comunista, que resiste a conferir direitos econômicos à população, até as empresas transnacionais estabelecidas no país, que funcionam como plataformas de exportações.



O G20, consolidado após a quebra do Lehman Brothers, reflete o declínio relativo dos EUA e a multiplicação dos centros de poder econômico gerados pela globalização. Ele não é um clube, mas um fórum. Seus integrantes, especialmente a China, não compartilham a visão de mundo que moldou o sistema de Bretton Woods. Suas reuniões, escancaradas ao escrutínio público, são teatros do espetáculo da soberania. Hoje, em Seul, chineses, alemães, brasileiros e sul-africanos erguerão suas vozes para acusar os EUA. Todos eles estarão de olhos postos nas manchetes dos telejornais e das publicações impressas.



A decisão do Federal Reserve de inundar o mercado com uma torrente de US$ 600 bilhões assinala um ponto de inflexão. Os EUA cansaram de esperar e resolveram mudar unilateralmente o cenário mundial. A China retrucou num tom incomum, anunciando que erguerá uma “muralha de fogo” contra o ingresso de capitais especulativos. A guerra cambial assume a configuração de um confronto político e ameaça converter o G20 em praça de combates. Em meio aos disparos, o governo brasileiro transforma a justificada indignação com a iniciativa americana em pretexto para circundar o debate sobre a conexão entre os gastos públicos, as taxas de juros e a apreciação do real.



Uma falência do G20 não serviria a nenhum dos atores de uma ordem econômica global que precisa da “mão visível” da política para conservar alguma estabilidade. Mas o espetáculo da soberania, por sua própria dinâmica, pode desandar em guerra cambial e comercial, arrastando o mundo pela ladeira da depressão. Hoje, só o FMI, que faz  reuniões fechadas, propícias à separação entre a soberania e seu exercício espetacular, tem as condições políticas para exercer a mediação entre as potências do G20. Depois dos retumbantes fracassos dos anos 90, o FMI pode encontrar um novo papel útil nessa função de intermediação. Se isso acontecer, o Brasil de Dilma Rousseff reconhecerá na antiga instituição de Bretton Woods um parceiro insubstituível. Ironias da história.

 

Relações Internacionais - Outras Notícias

25/10/2010 Os falsários

4/10/2010 De Pomona a Marte

13/9/2010 Falanges da moralidade

23/8/2010 Do multiculturalismo à deportação

2/8/2010 Os caçadores e o elefante

29/6/2009 Revolução na revolução

8/6/2009 Monstros tristonhos

19/5/2009 Os fatos e as fotos

28/4/2009 O império contra-ataca

7/4/2009 Um grande Maranhão

16/3/2009 O Líder e a História


25/11/2008 A cidade no alto da colina

4/11/2008 Um plebiscito sobre a natureza da nação

13/10/2008 A nação perdida

8/9/2008 Uma linha no mapa

11/8/2008 A África na escola

27/5/2008 Rios que nunca se encontram

19/5/2008 Duas narrativas de guerra

12/5/2008 CLT maquiada

14/4/2008 A revolução interrompida

24/3/2008 À sombra de Hugo Chávez

5/3/2008 Matilde, fale-nos sobre o Quênia

5/12/2007 A Venezuela e o Mercosul

12/11/2007 Outubro, nunca mais

23/10/2007 Fábrica do racismo

1/10/2007 A nossa corrupção e a deles


10/9/2007 A religião da natureza

25/6/2007 Nem liberdade, nem igualdade

28/5/2007 A França à escuta do Brasil

2/5/2007 Mísseis na borda da Europa

27/3/2007 Tarso Genro desiste de processo contra Demétrio Magnoli, mas agride a verdade



26/3/2007 Tarso e a verdade

26/3/2007 EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) DOUTOR(A) JUIZ(A) FEDERAL DA VARA FEDERAL CRIMINAL DA 1ª SUBSEÇÃO JUDICIÁRIA DO ESTADO DE SÃO PAULO


12/3/2007 O socialismo e o caudilho

5/3/2007 Estatísticas no pau-de-arara

25/10/2006 Coluna que é alvo de processo do ministro Tarso Genro, originalmente publicada na Folha de S. Paulo, a 14 de abril de 2005.

Ministério da Classificação Racial


16/10/2006 Lula, a política da cisão

31/8/2006 O céu na gaveta

13/7/2006 Thuram, Le Pen e nós

5/6/2006 A Europa das Tribos

5/5/2006 Recolher os cacos.

27/3/2006 Terra estrangeira

21/11/2005 O véu e a república

17/10/2005 A Europa no espelho

19/9/2005 Nova Orleans, Haiti

21/8/2005 Front e fronteira

8/8/2005 As bombas de Londres e a falência da nova esquerda

6/6/2005 A desconstrução da Europa

2/5/2005 A engenharia das raças

28/3/2005 Diante da jihad global

21/2/2005 O Banco Mundial na África

6/12/2004 O Nobel, a África e a Aids

11/11/2004 As duas Américas

13/10/2004 Natureza e política no Haiti

13/9/2004 Segredos russos

17/8/2004 Falsificação 9/11

28/6/2004 A falência da ocupação do Iraque

3/5/2004 Dialética da servidão

5/4/2004 Gramáticas do terror

1/3/2004 O muro da insegurança

15/12/2003 Lula nas Arábias

10/11/2003 O preço da folia

20/10/2003 O estadista e o cortesão

6/10/2003 Lula e Kirchner no jogo dos espelhos

31/8/2003 Vieira de Mello no mundo de Hobbes

4/8/2003 Desencaixotando Bush

7/7/2003 Capitulação

2/6/2003 O teatro da mídia

22/4/2003 A verdade vem do Oriente

7/4/2003 Depois da queda de Bagdá

9/3/2003 Desiguais perante a lei

3/2/2003 A Internacional de Lula

6/1/2003 Crise do pensamento crítico

2/12/2002 Lula e o espectro de Rio Branco

4/11/2002 A miséria da política

7/10/2002 O Brasil sem o PT

4/10/2002 Mídia, verdades e mentiras: a imprensa pós-11 de setembro

9/9/2002 Candidatos na hora da verdade

5/8/2002 O tribuno da plebe

1/7/2002 A geopolítica da recessão

6/5/2002 Diplomacia sem valor

1/4/2002 Podemos ser amigos, simplesmente?

15/3/2002 Israel renega os princípios de Oslo

1/3/2002 Duas guerras civis

15/2/2002 O “eixo do mal”

1/2/2002 O “novo Rio Grande do Sul” e a Alca

15/1/2002 Tango e samba

1/1/2002 Nação sem moeda

15/12/2001 É o fim de Arafat?

30/11/2001 A Argentina, pregada a uma cruz de dólares

15/11/2001 A quem serve a OMC?

30/10/2001 Bombas sobre ruínas

15/10/2001 A renúncia brasileira

28/9/2001 A “primeira guerra do século XXI”

7/9/2001 Koizumi em Yasukuni

24/8/2001 O Protocolo de Kyoto e a terceira etapa da “ecodiplomacia”

3/8/2001 A Ásia como “ruína tecnológica”

13/7/2001 Milosevic em Haia

22/6/2001 Um novo timoneiro na Cidade Proibida?

1/6/2001 O que está por trás da nova estratégia militar de Washington

18/5/2001 A nova estratégia militar de Washington

4/5/2001 Três políticas diante da Alca

20/4/2001 O Brasil e o Mercosul diante da Alca, na hora da crise argentina

7/4/2001 Os dois pilares da estratégia mundial de George W. Bush


  Revista Pangea

Copyright Pangea. Todos os direitos reservados.